‘Uma proposta é separar a Amazônia’

Publicação: 2017-03-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Após cinco décadas dedicadas à floresta amazônica, o jornalista e escritor, Roberto Gueudeville, alerta para a destruição da floresta e da cultura indígena ao longo das últimas décadas e principalmente nos últimos anos. “É preciso amar a floresta”, disse Gueudeville, que já venceu três vezes o Prêmio Esso de Jornalismo.  Em “Amazônia - um novo país”, o jornalista compartilha com o leitor o seu amplo conhecimento sobre a região amazônica. A obra vai ser lançada em maio na “feira pan amazônica do livro”, em Belém, no Pará.

O livro foi escrito com base em sua experiência profissional ao longo de 50 anos no Norte do Brasil. O autor disponibiliza em sua obra um arcabouço de informações sobre a principal floresta brasileira, bem como sobre os nativos que nela vivem e sobre a história e o desenvolvimento de algumas de suas principais cidades. Por meio de sua observação perspicaz, Gueudeville apresenta uma proposta ousada para a região, sugerindo-a como um novo país, entendendo ser essa a saída para que a Amazônia desenvolva-se de acordo com o seu potencial.” O problema da Amazônia não é caso de polícia, e sim, social”, alertou  Gueudeville.
Jornalista que já venceu três vezes o Prêmio Esso fala sobre a destruição da mata e falta de projeto de preservação
Como surgiu a paixão pela Amazônia?

Quando eu tinha 10 anos, comecei a ler a revista O Cruzeiro, que era a melhor revista brasileira. Acompanhando as matérias extraordinárias que o gênio de Assis Chateaubriant mandava produzir sobre a Amazônia, campanha dos aviões, dos colibris, criação de grandes museus, etc. Os jornalistas da revista iam para a Amazônia fazer muitas reportagens, e era uma grande novidade porque ninguém conhecia o lugar e eu comecei a me apaixonar pelo assunto. Eu era aluno do exército da Bahia e pedi para servir no norte.   E achei uma vaga em Manaus, eu tinha 20 anos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Na minha ignorância, pensava que Manaus e Belém eram perto. Não tinha discernimento para separar o estado e região. A partir daí comecei a minha vida. Deus me deu a tendência natural de ser jornalista, porque eu não fiz curso. Cumpri a minha obrigação no Exército e comecei a escrever.

Qual o foco do livro?

É a defesa da Amazônia. A floresta vai morrer. Há dez anos nós destruímos 28 milhões de hectares da floresta, e no ano retrasado baixou para cinco milhões e em 2016 subimos para oito milhões de hectares. Pesquisadores da USP calcularam que foram derrubadas 500 mil árvores. Isso não é um fato comum, mas o brasileiro acha que é. Ninguém está preocupado com a destruição da floresta, porque já destruímos a Mata Atlântica. Nem o governo e sociedade estão se interessado em restaurar e cuidar da floresta. Se mantivermos a destruição da floresta em cinco milhões de hectares por ano, em 25 anos teremos mais 200 milhões destruídos pelo fogo. A floresta não suportará. Todos sabem disso, mas ninguém toma uma atitude.

O que destrói a Amazônia hoje?

A ausência de governo. O Estado não chegou na Amazônia ainda. Isso facilita a presença do grileiro e do toureiro. Nós temos uma legislação ambiental bonita, mas que não funciona.     O habitante da Amazônia não é pago para defender a floresta, como nos Estados Unidos, onde o morador recebe, por exemplo, para proteger os mananciais.  O habitante nos confins da floresta, quando chega o grileiro ou toureiro oferecendo dinheiro, ele aceita e deixa o cara entrar para derrubar a floresta. Há uma omissão total do governo e sociedade brasileira.

Maior parte da sua vida foi dedicada à Amazônia. O que mais o fascinou?

Os índios. Eles têm duas qualidades que o homem branco não tem. O índio não bate em uma criança e nós batemos. E eles também respeitam um idoso. Quando a igreja começou a evangelização dos índios, o padre tentava meter na cabeça as crenças dele. O deuses dos índios são diferentes. É a onça, o trovão, a árvore. O padre marginalizou o índio, que obedecendo a cultura da igreja ficou sem ser índio e sem ser branco.

Qual a solução para salvar a floresta?

São várias. Primeiro a madeira, que é fundamental. As autoridades precisam criar a fundação amazônia do modo em que foi criada a Fundação Brasil Central. Criando projetos para todos os segmentos da amazônia. Ele teria um custo de 100 bilhões de dólares, que o governo balizaria junto aos bancos para financiar os projetos. Isso está proposto, mas para brasília é poesia. Não há respeito com a Amazônia, que é desprezada desde 1616, quando Belém foi criado. Outra proposta é a separação da Amazônia como um país independente. Ou o governo aceita os projetos ou vai viver com o fantasma da separação. Outra questão que tem que ser feita é a plantação de novas florestas, é o que convidamos os empresários do Rio Grande do Norte a participar. Só vai poder vender madeira que for plantada. Outro ponto é aplicar ciência e tecnologia na biodiversidade da Amazônia, porque o governo federal dirige muita verba para o sudeste e o norte  fica com bem menos. A USP tem mais doutores que a Amazônia toda.

E para o Rio Amazonas?

Temos a maior bacia fluvial e nenhum projeto sério de piscicultura. Isso é uma vergonha. A amazônia também tem uma enorme várzea, com terra adubada de graça.  A melhor maneira de fazer comida mais barata é a várzea e nós temos 500 mil quilômetros quadrados.

No livro, o senhor menciona um episódio de quase morte na floresta....

Os mesmos índios que defendi, intrepidamente, arriscando o pescoço, pouco tempo depois iam me matando. A sensação de medo me invadiu por completo, bloqueando a inutilidade de qualquer ação. Só pensava em conseguir uma garrafa para pôr uma mensagem escrita e soltar nas cachoeiras do igarapé a fim de que soubesses como fui literalmente massacrado pelos próprios índios que defendia. Todos saíam cedo e retornavam à tardinha, com os paneiros da castanha. Certa manhã, entretanto, notei que alguém permanecia na rede. Era Djautire, um jovem índios. Ele disse que o ouvido estava doendo. Na ausência de enfermeiro, apliquei uma injeção de penicilina. Uma mulher gritou que a minha injeção tinha sido ruim, a partir daí eles se programaram para me matar. Eu consegui contornar a situação e explicar que a injeção não tinha sido ruim.

O incidente o desmotivou a continuar fazendo reportagens na floresta?

 Esses incidentes podem acontecer com qualquer jornalista que se designar a fazer o que fiz, com a diferença que hoje, 50 anos depois, a violência é muito mais constante e presente nas grandes cidades do que a floresta amazônica, e o que aconteceu comigo não muda em nada minha disposição de sempre defender as populações mais carentes, como os índios.

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