A valorização da vida

Publicação: 2020-08-01 00:00:00
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Ivan Maciel de Andrade
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Até mesmo os que enfrentam com ânimo forte os trágicos efeitos da pandemia se sentem abalados e inseguros diante dos dados oficiais que revelam o número de pessoas infectadas e de óbitos em nosso país. Chegaremos a quantos milhões de casos? E a quantos milhares de mortos? Por dia, mais de mil pessoas perdem a vida. E ainda não conseguimos alcançar uma curva descendente que sinalize uma progressiva volta à normalidade (pós-pandemia). Os especialistas dizem que estamos num platô (ou seja, uma situação relativamente estável), mas com altos índices de expansão e letalidade da doença. Tanto assim que em alguns Estados a situação se agravou. 

A divulgação diária de estatísticas sombrias, tétricas, preocupantes gera um natural estresse.  Mas temos certa tendência de nos acomodarmos, de encarar os fatos como se fossem triste fatalidade. Já houve um líder político com elevada posição hierárquica que declarou de forma macabra: “As mortes são inevitáveis”. Quer dizer, então, que não se poderia fazer algo, qualquer coisa, com alguma base racional, que diminuísse o tamanho, as dimensões dessa terrível tragédia? Há bons exemplos de diversos países que implementaram medidas e programas bem-sucedidos.  

Como a Alemanha, o Japão, a Coreia do Sul, Cingapura, Ruanda (na África), Uruguai e Paraguai (na América do Sul). Vários outros países tiveram êxito em políticas de contenção da pandemia, mesmo após um início desordenado em que se tornaram epicentros da doença. 

Assim, é forçoso admitir que muita coisa poderia ter sido feita, e não se fez, mas ainda é possível fazer, para salvar vidas brasileiras ameaçadas por esse longo e absurdo holocausto. Afinal, para salvar uma vida, apenas e simplesmente uma vida, pelo que ela significa no plano humano e espiritual, se justifica a mobilização de todos os esforços – no extremo do possível e na fronteira do impossível.

Há uma história de valorização da vida contada no filme “Se todos os homens do mundo” (“Si tous les gars du monde”), de 1956, dirigido por Christian-Jaque. Os 12 tripulantes de um pequeno barco pesqueiro que navegava no Mar do Norte são acometidos de botulismo pela ingestão de carne de porco, em conserva, estragada. Só não adoece um tripulante muçulmano que, por motivos religiosos, não come carne de porco. E passa a ser suspeito de ter provocado o envenenamento. 

Para salvar os tripulantes desse pequeno barco, numa época em que não havia redes sociais, unem-se radioamadores (um deles, cego) de diferentes idades e nacionalidades, bem como organizações e governos de países inimigos, separados pela Guerra Fria. A trama é feita de suspense. As dificuldades surgem a todo momento e são superadas pela solidariedade de homens e mulheres que não se conheciam ou se consideravam desirmanados por barreiras ideológicas.

O filme foi recuperado por cinéfilos. Encontrei-o, através do Google, numa cópia de ótima qualidade de imagem e som e com boas legendas. Talvez esse filme fosse de algum proveito para o ocupante do Planalto que promove campanhas insensatas e sinistras de desvalorização da vida.  


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