A valorização do professor

Publicação: 2019-10-15 00:00:00 | Comentários: 0
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João Medeiros Filho
Padre

Quando chegará o dia do reconhecimento da importância do professor em nossa pátria? Não se trata apenas de uma data no calendário civil, escolhida para homenageá-lo. Ela já existe: 15 de outubro, dedicado a Santa Teresa d´Ávila (padroeira dos professores), cuja festa litúrgica é celebrada nesse dia. Almeja-se o momento em que a educação no Brasil seja verdadeiramente prioridade entre as políticas de Estado, não apenas de alguns planos (por vezes ideologizados) de gestores e governos. O descaso é tanto que o profissional do magistério necessita lançar mão de protestos e greves. O respeito e a valorização do docente começam pelo discípulo. O professor é constantemente relegado à própria sorte. A propósito, que tal a releitura de “Um apólogo” de Machado de Assis, sobretudo das últimas frases?

É antiga a questão da necessidade de reconhecimento do docente. Passa pelo político, social e econômico. Poderá protelar as indagações de interesse nacional ou a elas responder. Que país se deseja construir? A pátria é de todos ou somente dos apaniguados? O questionamento procede. A História mostra que a República herdou da Colônia e do Império uma estrutura social, iníqua, marcada por desigualdades: massa de empobrecidos e analfabetos, latifúndios e concentração das riquezas nas mãos de poucos, corrupção, clientelismo e injustiça.

Apesar das tentativas de respostas com políticas educacionais, em diversas épocas, tem-se a impressão de que se caminha, a passos lentos, em termos de educação de qualidade. O ensino brasileiro está aquém dos avanços e do desenvolvimento científico e tecnológico. É triste, pois a educação é o caminho para vencer as disparidades e fazer crescer o país. Não se pode prescindir do acesso ao ensino de bom nível, implicando em capacitação, remuneração condigna, plano de carreira do magistério e uma escola bem estruturada. É lugar comum afirmar que educação não é gasto ou despesa, e sim investimento social indispensável. Trata-se, pois, de qualificar e elevar o ser humano, imagem e semelhança de Deus. “Uma sociedade que não valoriza seus mestres, perde o sentido da cidadania, da dignidade e dos valores éticos”, já afirmava Anísio Teixeira. Em nações altamente desenvolvidas e civilizadas, o mestre é alvo de grande respeito e admiração.

Magistério não é simplesmente sacerdócio nem voluntariado. Por isso, as greves, apesar de indesejáveis, até agora têm sido, infelizmente, o último recurso válido. O professor, neste país, é tratado como um ser invisível e não um construtor da sociedade. Essa indispensável e ironicamente menosprezada profissão deve repensar o modelo educativo produzido atualmente. A evolução repentina e, por vezes, contraditória suscita desafios que interpelam a comunidade educativa. Urge oferecer aos jovens uma formação que não se limite à fruição individualista e instrumental de um serviço apenas em vista de um título ou diploma a ser obtido. Além da aprendizagem dos conhecimentos, é necessário que os estudantes façam uma experiência de partilha com os educadores. Mister se faz formar cidadãos capazes de respeitar a identidade, a cultura, a história e a religião. Grandes questões antropológicas ficam à margem da reflexão cotidiana, até na escola e na universidade. Qual o sentido da vida e da pessoa humana hoje?

Os altos índices de frustração, estresse, depressão e os preocupantes dados sobre suicídio de jovens questionam o atual modelo de sociedade e educação. Educar para a vida e rejeitar a cultura da morte e do vazio implicam em reconstruir a vida social atualmente focada no desempenho e sucesso, a qualquer preço. Os educadores devem ser reconhecidos pelo empenho em humanizar a nação que  tanto clama por justiça e ética. Essa missão – alicerçada na busca de um mundo justo e solidário – será sempre um vetor para impulsionar o país rumo à superação de discriminações, preconceitos e radicalismo. Assim, é possível entender as diferenças que enriquecem com suas singularidades. O professor deve educar primordialmente para a inclusão e não para a desintegração, adotando posturas que possam gerar desrespeito, agressão e danos. Eis o conselho milenar do Livro dos Provérbios: “Ensina ao jovem qual o caminho a seguir; e ele não se desviará, mesmo quando envelhecer” (Pr 22, 6).




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