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Natal
“Vamos sugerir uma Ronda da Saúde”
Publicado: 00:00:00 - 31/07/2016 Atualizado: 12:12:58 - 30/07/2016
Marcelo Lima
Repórter

Um dos múltiplas faces da atual crise na saúde do Rio Grande do Norte é a insegurança. Sem o pagamentoàs empresas de segurança privada, as unidades de saúde ficam mais expostas. O presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern), Marcos de Lima Freitas, já solicitou uma reunião com a cúpula da Segurança Pública estadual para lançar a ideia da “Ronda da Saúde”. A estratégia de policiamento seria semelhante ao programa Ronda Escolar, no qual os policiais militares se aproximam da comunidade escolar para prevenir a violência e atender prontamente às ocorrências. Segundo o presidente do Cremern, a equipe de saúde de muitas unidades sofrem assaltos e arrombamentos de seus carros frequentemente. No final das contas, a população fica à espera de atendimento numa unidade completamente exposta à segurança, visto que os profissionais deixam o ambiente de trabalho quando são alvo de ações criminosas. Na entrevista a seguir, Marcos de Lima Freitas fala também porque o Cremern não interdita hospitais com deficiência no atendimento e
Cremern vai sugerir ao Governo do Estado que seja criada a Ronda da Saúde, para garantir segurança nas unidades médicas
Existe uma crise na saúde mais acentuada recentemente, qual seria a origem dela?

O que caracteriza a crise atual são situações que até o momento a gente não tinha presenciado. O cirurgião do principal hospital do Rio Grande do Norte não pode operar porque a mesa de cirurgia está ocupada com um paciente que já foi operado e não tem para onde sair. Chegamos numa situação limite. Isso é fruto da superlotação, que tem vários fatores que contribuem para isso. O Walfredo Gurgel é um hospital de urgência e emergencia, mas acabam indo para lá todos os tipos de pacientes porque é um hospital porta-aberta.  Há uma ausência de regionalização da assistência médica. Existem 24 hospitais regionais no nosso Estado, mas não estão funcionando como deveriam. Com menos hospitais funcionando, esse rede poderia funcionar bem e diminuir essa sobrecarga no hospital Walfredo Gurgel. Aí quando você tem  superlotação, tem também o desabastecimento. Faltam medicamentos e insumos extremamente importantes para  a assistência.

Os equipamento também ficam sobrecarregados ?

Isso. O Walfredo Gurgel tem um aparelho de tomografia, que é extremamente importante para  o politraumatizado (paciente com várias fraturas) e para uma neurocirurgia também. Na hora que você tem um problema, que houve recentemente, é muito difícil fazer a assistência. O plano B é muito complexo. Os pacientes estavam sendo encaminhados para o Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol). Eles funcionam até uma determinada hora. Os pacientes que chegavam no pronto-socorro a partir daquele horário depois daquele horário tinha que esperar amanhecer o dia.  Para funcionar bem tem que ter mais de um.

Existem outras situações mais graves ou tão graves quanto essas do Walfredo Gurgel?

Nós temos uma crise importante de maneira geral. Na assistência   materno-infantil houve um fechamento de leitos de UTI pediátrica. Já existe uma insuficiência de leitos de maneira geral, mas na pediatria existe uma deficiência enorme e com riscos de fechamento. Estamos passando agora pelo fechamento de leitos no Maria Alice Fernandes por insuficiência de recursos humanos. Era uma situação previsível, porque já se sabia que alguns médicos estavam próximos à aposentadoria, só que ninguém fez nada. Temos superlotação, desabastecimento e outro grande problema que é a deficiência de recursos humanos. Não há concursos públicos há muito tempo no Estado. Ao longo do tempo, criou-se uma dependência dos serviços terceirizados. Por outro lado, também não há uma relação adequada, porque com frequência ocorrem atrasos no pagamento. Em consequência disso, há ameaças de parar a escala de médicos.

Cada vez mais, as cooperativas médicas têm tomado espaço de servidores efetivos. Acabou se tornando quase como regra.  Qual deve ser o papel das cooperativas médicas na saúde pública na sua visão?

Na realidade, a terceirização é permitida quando se usa como complemento e de forma transitória. O que a gente está vendo que pela falta de concursos públicos há um dependência muito grande. Então, o médico para trabalhar o governo do Estado tem que entrar para uma cooperativa. O médico não é o responsável por isso. O Estado criou essa situação e, para trabalhar lá, o médico só encontrou esse caminho. Nós precisamos de um concurso público onde o médico vai ter uma série de direitos que o serviço terceirizado não dá. O regime de trabalho exige a produtividade.

O que seria uma solução emergencial para essa crise e as medidas a longo prazo?

Uma situação dessas exige de uma estratégia de guerra. Tem que tomar alguma atitude emergencial para que os médicos consigam operar os pacientes e que não haja maus resultados e até óbitos por causa dessa situação. A possibilidade que levamos para o governador, durante uma reunião, contratar leitos de UTI na rede privada. Também temos outros hospitais, como o da Polícia Militar, que está pré-pronto. 

O que o Hospital da Polícia Militar falta para ficar pronto?

Precisa finalizar uma reforma para poder abrir cento e poucos leitos, dez leitos de UTI e mais dez de UTI neonatal e sete salas de centros cirúrgicos. Os equipamentos já estão lá no hospital. Tem um tomografo encaixotado no Hospital da Polícia Militar. A gente não consegue entender como se chega a uma situação dessas com uma estrutura quase pronta, que exigiria apenas uma complementação. A gente não consegue entender como isso pode acontecer. Seria uma excelente retaguarda para o Walfredo Gurgel.

O Hospital Onofre Lopes também tem leitos de UTI pediátrica quase prontos?

Isso. São cinco leitos. A abertura dessa UTI pediátrica é fundamental, porque hoje nós temos uma deficiência de recursos humanos. Na hora que abrir a UTI pediátrica se terá um ambiente de formação profissional. Ela vai dar um benefício duplo: também vai dar formação de pediatras intensivistas, que é o que a gente tem de deficiência hoje.

A atual gestão do Ministério da Saúde pensa em fazer um “enxugamento” do SUS. Qual sua avaliação?

Não tem como reduzidir mais. 25% da população brasileira é assistida pela saúde suplementar. Os outros 75% é assistida pela saúde pública. Os 25% da população assistidos pela saúde suplementar já estão gastando mais do que o Estado brasileiro gasta com os 75% restantes da população. Não sei o que ele quer reduzir. Isso não é só aqui, a gente tem uma crise no Brasil inteiro. Em Brasília, o Hospital de Base passa pela mesma crise que o nosso Walfredo Gurgel. O que a gente entende é que há uma falta de prioridade. Outras coisas parecem ser mais importantes que a saúde. A saúde está subfinanciada há muito tempo. Quando você faz redução de custos e economias em outras áreas, você tem prejuízos.  Mas quando se faz redução de custos ou economia em área da saúde, o prejuízo e a saúde e a vida das pessoas. Não se pode fazer economia nessa área. Ela tem que ser bem financiada e tem que dar assistência a todos. A nossa Constituição determina assim.

Uma eventual interdição de um desses serviços de saúde pode agravar ainda mais o atendimento à população?

A interdição é um ato extremo, principalmente no Walfredo Gurgel. Se ele estivesse funcionando na sua plenitude, ele salvaria muitas pessoas. Nas dificuldades que ele tem, ele continua resolvendo muitos problemas da saúde, principalmente do politraumatizado. Interditar um hospital como o walfredo Gurgel seria uma possibilidade praticamente fora de cogitação, porque os danos seriam muito maiores. Mas os colegas do Walfredo sabem que o código de ética profissional garante que, se eles não estiverem trabalhando de forma adequada, eles podem não trabalhar. Esse é um direito do médico. Mas eles não fazem cumprir esse direito, porque eles sabem que a ausência deles naquele ambiente causaria um dano ainda maior. O Hospital Walfredo Gurgel tem praticamente outro hospital no corredor. Invariavelmente, temos mais de cem pessoas no corredor.

Com a suspensão da segurança terceirizada, como ficam as unidades de saúde?

O que tem sido uma preocupação muito grande é a questão da segurança. Os seguranças terceirizados não recebem e paralisam. Nessa semana, teve um problema no Deoclécio Marques [hospital de Parnamirim]. Uma pessoa com uma faca queria agredir a equipe de enfermagem, quebrou uma porta. E toda a equipe está trabalhando com medo. Solicitamos uma audiência com o secretário de Segurança Pública e o comandante da Polícia Militar. A ideia é não po lamentar, mas levar uma proposta. Existe a Ronda Escolar, a gente vai sugerir que haja uma ronda da saúde. Nos mesmos moldes da Ronda Escolar. Se criamos uma ronda externa para conhecer os vizinhos, ver se há pontos de vulnerabilidade ao redor daquela unidade, conversar com os diretores das unidades. A gente sabe que existem unidades de saúde que já foram invadidas, já houve sequestro, assaltos e arrombamentos de carros constantes. Com frequência os médicos tem que ir embora porque sofrem com a violência. Aí, os pacientes ficam desassistidos. 

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