"A vantagem logística é nossa grande oportunidade", diz Fernando Bezerra

Publicação: 2015-08-30 00:00:00
O empresário e ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI),  Fernando Bezerra, enxerga turbulências na economia do Brasil e do Rio Grande do Norte, mas vê também “oportunidades” no horizonte. “Existe capital disponível para bons negócios. Se tivermos projetos, certamente vamos encontrar investidores”, diz.
Fernando Bezerra é empresário, ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria, ex-ministro e ex-senador
Nesta entrevista, ele aponta a área de energia entre as que têm grandes possibilidades de crescimento, mas é na logística que aposta mais as suas fichas. A área está no centro das discussões em meio à perspectiva de a companhia aérea Latam implantar um centro de conexões de voos – chamado de Hub - no Nordeste. O investimento é disputado pelos aeroportos do RN, do Ceará (Fortaleza) e de Pernambuco (Recife) e tem motivado uma corrida por diferenciais nos três estados.

Bezerra avalia pontos favoráveis ao Rio Grande do Norte e ressalta a necessidade de “neutralizar uma possível ação política dos estados vizinhos”. Ele também fala sobre crise e impacto no mercado local, além de defender reformas não apenas no campo tributário. Confira  os principais trechos da entrevista:

O senhor concorda coma visão de que não existe um motor de desenvolvimento no Rio Grande do Norte? De que falta algo de novo na economia ou existem coisas que podem ser trabalhadas?

Não. Existem sim. As energias renováveis já não são tão novas, mas são ..o Rio Grande do Norte já é hoje o maior produtor de energia eólica do Brasil. Mas nós não estamos ainda explorando sequer 10% do nosso potencial. A energia solar mal está começando no país. E o Rio Grande do Norte também tem um potencial de luz enorme e portanto um potencial muito grande de geração de energia solar. Há uma outra coisa, que poderia se dizer que é relativamente nova, mas nós temos o privilégio, pela nossa localização geográfica, de absorver investimentos na área de logística. Por isso que a semana passada eu tomei a  iniciativa com um grupo de amigos de reunir as forças políticas e econômicas do RN no sentido de nos unirmos para trazer o Hub para o aeroporto de São Gonçalo. Esse Hub realmente pé a grande base para investimentos logísticos. Mas não só ele. Você tem a logística portuária, aeroportuária, você tem essa localização privilegiada. Estamos na esquina do mundo, no ponto mais próximo da Europa e ameio caminho dos estados unidos, para a América do Sul, da África e do mundo todo. A logística é uma grande possibilidade de investimento e e sem dúvida o que é a vertente econômica mais importante do nosso estado ainda hoje é o turismo. A logística também vai estimular a área de turismo. Nós temos o privilégio de termos petróleo aqui, mas essa riqueza tende a ser substituída no mundo todo por energias renováveis.

Essa questão do Hub, esse grupo político e econômico que o senhor reuniu tende a fazer pressão na Petrobras para dar incentivos por meio do Querosene de Aviação (QAV). O senhor acha que é um bom argumento para atrair o Hub para cá? A gente sabe que a Petrobras está passando por um momento complicado...

É evidente que o que fará com que qualquer grupo venha investir no RN são as diferenças econômicas favoráveis que a gente possa ter em relação a outros lugares. Não tenho ilusão que vá se baixar o preço do QAV simplesmente por uma questão política. Quando nós tomamos a iniciativa de reunir esse grupo foi exatamente para evitar que haja pressões políticas uma vez que o Rio Grande do Norte politicamente é um estado que não tem a importância  que Pernambuco tem, que o Ceará tem. Com relação ao QAV, somos produtores, portanto, como a distancia de Guamaré para Natal é de cerca de 170km, você tem de Guamaré para recife mais de 400km e para fortaleza ,mais de 400. como tem um custo para transportar esse querosene evidentemente esse querosene devia custar menos aqui. Mas tem uma política da Petrobras de que esse querosene tenha um preço único. A primeira questão que a gente tem é mostrar que deveria custar menos aqui porque os custos de transporte são diferentes. A outra questão que discutimos é a disponibilidade de áreas para expansão do aeroporto. Recife praticamente não tem nenhuma,  Fortaleza tem, mas são áreas do governo federal e da base aérea e daí o meu receio de que vivendo como estamos vivendo hoje num governo fraco como é o governo federal atualmente, o que eu receio é que por uma pressão política ela ceda essas áreas em detrimento de uma lógica que seria fazer o aeroporto aqui. Então eu não tenho nenhuma ilusão de que nós vamos conquistar isso por uma ação política. O que estou querendo fazer é, no mínimo, neutralizar, uma possível ação política dos outros, para que a gente possa mostrar à Latam que existem melhores condições para se fazer o hub no RN.

Em outros momentos nós já tivemos projetos que podiam ser considerados como a tábua de salvação dos problemas do RN. Como se falou muito da Copa do Mundo, que ia ter resultados maravilhosos..talvez o próprio aeroporto quando se falava em construir..o senhor acredita que com a instalação desse Hub não pode acontecer a mesma coisa?

A instalação do Hub vai ter consequências para cá de longo prazo. Pelos próximos 20, 30 anos. Você não pode esperar que ao decidir que o Hub será feito no RN a gente terá consequências amanhã. Vamos ter ao longo do tempo, com certeza absoluta. Quando a gente se apega a esse investimento que é da iniciativa privada a gente sabe que é algo concreto, que vai acontecer. Pode demorar, mas vai acontecer.

No início do primeiro governo Dilma, foi retirado do Plano Plurianual o projeto de ampliação do porto de Natal, do outro lado do rio Potengi. Isso matou o projeto. Como as forças políticas podem atuar como contraponto a essa dependência dos interesses do Estado ao governo federal?

Olha, apesar da crise econômica que não é só brasileira, é do mundo todo, existe capital disponível para bons negócios. O que nós temos de fazer é investir em projetos. Se tivermos bons projetos, certamente vamos encontrar investidores. O Brasil não tem capacidade, a curto ou a médio prazo, de investir em suas necessidades de infraestrutura. Um país com essas dimensões continentais, que não tem ferrovias, que está com suas estradas acabadas, onde os aeroportos não funcionam direito e os portos são carentes.... Se você comparar isso com os países desenvolvidos, você vai ver que o Brasil tem muitas oportunidades de investimentos. Na Europa, por exemplo, não tem como investir em ferrovias, em estradas... lá tá tudo pronto! Aqui no Brasil, nós temos tudo para ser feito. O governo precisa ter bons projetos e abrir para o mundo as oportunidades para que esses investimentos possam acontecer. O que o investidor quer? quer regras claras, segurança jurídica, para que você não faça aqui um investimento e, depois, se diga que não vai mais ser assim, vai ser assado, e você perde o investimento. Na hora que você tem a confiança do investidor internacional, você tem as oportunidades.

Alguns setores, políticos e econômicos, chegaram a negar a crise. Mas, ela está ai. Qual a avaliação que o senhor faz do impacto local dessa crise? Vamos levar muito tempo, aqui no Rio Grande do Norte, para se recuperar?

Não somos uma ilha de prosperidade! O Rio Grande do Norte não terá um comportamento econômico diferente do resto do país. Em que a crise impactou mais, aqui? Na construção civil. Você viu que temos a terceira maior taxa de desemprego do país, no terceiro trimestre. No primeiro trimestre, era o primeiro nesta taxa. Então, a construção civil vai se recuperar, mas quando? Daqui a dois anos.  Mas, também temos setores que continuam investindo. Como a área de energia. Isso terá consequências, lá na frente. Se tivermos o hub da Latam, vamos ter investimentos na área de logística, o que vai mudar o cenário. Mas, isso tudo não vai acontecer do dia para a noite. O que eu vejo com certo realismo e, infelizmente, é que ainda não chegamos ao fundo do poço da crise econômica. Esse fundo ainda está um pouco lá na frente. A crise política é mais grave. Você está no início de um governo que já está desacreditado e, todos os dias, a gente vê o movimento de políticos envolvidos com corrupção. Essa vai ser mais complicada de resolver.  Na economia, ainda vamos amargar dias difíceis até o final de 2018.

Como, dentro desse quadro, adotar um modelo de desenvolvimento sustentável que nos equipare a estados vizinhos, como Pernambuco e Ceará, que estão bem a frente?

O que faltou foi importância política. Nós não somos politicamente importantes. Eu gosto muito da frase do ex-governador Cortez Pereira: “se unidos somos pobres, desunidos não somos nada”. Talvez, essa união da classe política tenha faltando em muitos momentos importantes para o Rio Grande do Norte. Mas, não se cometeu injustiças com o Nordeste, como um todo. A Bahia é um estado extremamente desenvolvido, apesar de liderar as taxas de desemprego. Pernambuco tem o porto de Suape, uma fábrica de automóveis. O Ceará, tem Pecem, siderurgica. Esses estados se diferenciaram no desenvolvimento regional. Mas, o que podemos pensar para o Rio Grande do Norte? Primeiro, as nossa vantagens comparativas que temos em relação a eles. O que temos de diferente. Nós temos um potencial de energia maior que os deles, principalmente de energia eólica. O que precisamos é de uma ação que mostre aos investidores esse potencial diferenciado. Temos vantagens em logística. Esse é um aspecto que envolver muitos recursos. Imagine que um avião de cargas que vem da Europa para o Brasil tem que voar três horas a mais, porque ele precisa ir para Campinas, em São Paulo. Mas, se essa carga vier para Natal... alias, ele tem que voar seis horas a mais: três para vir e três para voltar. Natal, como um centro de distribuição de cargas, exigiria menos combustíveis e mais carga no avião. Somos o ponto mais próximo da Europa. Essa vantagem logística é a nossa grande oportunidade. Temos que fazer o enxugamento dessa máquina administrativa para investir mais em educação, algo fundamental para o Rio Grande do Norte. Nós temos aqui, a Metropole Digital, uma coisa fantástica feita pela UFRN! Então, oportunidades nós temos, resta focar nelas.

O senhor disse que a construção civil é talvez o setor mais impactado aqui no Rio Grande do Norte, e a previsão que o senhor deu é que só daqui a dois anos teremos uma recuperação. É isso mesmo?

 Este ano está perdido. Tanto que poucos têm sido os investimentos em novos empreendimentos imobiliários. As empresas do mercado imobiliário hoje disponibilizam seus estoques à venda e nisso estão gerando grandes oportunidades para os compradores. Acredito que a partir do próximo ano, pouco a pouco, essa oportunidade da construção civil vai retornar, como tudo no Brasil...

E no campo tributário, que análise o senhor faz?

Precisamos é de uma reforma tributária, rápida. Veja, enquanto presidente da CNI - Confederação Nacional da Indústria -, fiz um movimento enorme pela reforma tributária. São decorridos mais de 15 anos e não há reforma tributária.

Há bandeiras de movimentos sociais que defendem a taxação de grandes fortunas. O que o senhor acha disso?

Isso é uma discussão. Acho que tem que se discutir uma estrutura tributária nova para o Brasil. Há muito, todos reconhecemos que a estrutura tributária é péssima, mas ficamos somente nessa discussão. Na hora de se fazer, essa guerra fiscal que existe entre os estados, é um fator impeditivo. Talvez, se discutirmos uma estrutura tributária que entre em vigor daqui a cinco anos, pode ser que se aprove agora. Mas se for fazer uma reforma para entra em vigor daqui a um ano, aí começa a guerra novamente. Mas é vital para o Brasil fazer uma reforma na legislação tributária, trabalhista e política. 

O senhor tem alguma perspectiva em voltar para a política partidária?

Nenhuma. Não quero ser candidato a absolutamente nada. Mas o que eu puder fazer para ajudar o Rio Grande do Norte, farei.

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