A velha esquina dos discos

Publicação: 2018-06-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Da mesma forma que o computador não acabou com os discos de música, os shoppings centers não mataram o comércio de rua do centro da cidade. O motivo é simples: sempre vai existir gente que aprecia essas coisas que tem alma. Em Natal, no centro da cidade, na esquina da Princesa Isabel com a rua General Osório, é possível encontrar alguém apaixonado por essas coisas. Seu nome é Marcínio Dias de Oliveira. Há 45 anos anos ele mantém no mesmo ponto sua lojinha de discos, a EmySom.
Na esquina da av. Princesa Isabel e General Osório, Marcínio Dias mantém sua loja de discos e gravações, há 45 anos
Na esquina da av. Princesa Isabel e General Osório, Marcínio Dias mantém sua loja de discos e gravações, há 45 anos

Marcínio viveu os bons tempos dos Long Plays, enfrentou desgostoso a transição para os Compact Discs e se adaptou à força ao mundo da música digital. Hoje, o acervo de milhares de cds da sua loja cabe dentro de um computador. Se for para lamentar, ele lamenta a perda da arte das capas dos discos. “Tinha gente que se interessava por um artista, por um disco, através da capa. E passava a colecionar, chegava a emoldurar na parede. Perdemos esse tipo de experiência”, diz num tom saudosista, mas nada derrotista. Apesar de todas as transformações da indústria da música, ele continua apaixonado pelo que faz. E faz feliz, pois todo dia entra gente em sua loja em busca de música boa, de algum álbum raro que só se encontra ali naquela esquina do Centro da Cidade.

O início da loja de discos

Meu pai tinha uma loja no Alecrim que fabricava, vendia e consertava rádios. Também vendíamos instrumentos musicais e discos, inclusive os de 78 rotações. Mas na virada dos anos 60 pra 70, perco meu pai e tenho que assumir a loja. Eu tinha 17 anos na época. Em 1973 chamo mamãe, que era dona de casa, para assumir a loja do Alecrim e abro esta loja na Cidade Alta, exatamente aqui nesta esquina. Eu gostava de ouvir blues, jazz, MPB, Beatles. Esse gêneros musicais eram difíceis de encontrar em Natal. Os discos eram vendidos na cidade naquelas magazines grandes. Então eu pensei em abrir uma loja só de discos, moderna, diferente da do Alecrim, que era mais popular.

A inauguração com Novos Baianos

Para inaugurar a loja eu conversei com uma rádio AM da cidade. Ele ficaram de fazer uma transmissão ao vivo da abertura da loja. Eu passei pela rádio e encontrei o pessoal dos Novos Baianos, que estava em Natal para um show. Eu falei da loja pra eles, da proposta de vender rock, MPB, blues, disse que tinha todos os discos deles lá. Cara, a galera foi bater lá na inauguração, autografar discos e conversar. Foram andando da rádio até lá.

Dica de carreira para José Augusto

O cantor José Augusto foi outro que já apareceu na loja pra lançar disco. Ele tava estouradão, tocando muito. Ai puxou um papo comigo de querer focar a carreira no rock. Eu falei pra ele ir com calma, testar umas duas músicas no próximo disco pra ver como funciona antes de entrar de cabeça Ele realmente lançou dois rocks, mas não caíram bem entre o público. Depois ele me ligou agradecendo o conselho, dizendo que se tivesse entrado de vez no rock poderia ter afundado a carreira. Alceu Valença também era outro que gostava de conversar. Tinha papo legais, mas ele era muito agitado, falava rápido. Nem sempre dava pra acompanhar.

A amizade com Antônio Marcos

O Antônio Marcos eu conheci no Rio de Janeiro. Minha família tinha um apartamento no Leblon. Quando eu ia lá eu aproveitava pra ir nas gravadoras. Como era lojista, eles me recebiam bem, me apresentavam os artistas, mostravam eles gravando e nesse conheci o Antônio Marcos. Foi um cara que me identifiquei bastante e das vezes que ele veio fazer show em Natal acabamos criando amizade. Era um cara genial. As músicas comerciais que ele fez não condizem com seu lado poético. O problema dele foi a dificuldade de vencer o álcool. Bebia muito. Numa das piores fases da vida dele, eu o convidei para ficar lá em casa. Passou oito meses aqui em Natal. Foi um grande amigo que eu tive.

O pico de vendas

O maior período de vendas era no final do ano, com o lançamento do disco novo do Roberto Carlos, principalmente no Alecrim. Era um espetáculo. A transportadora disponibilizava vários carros para trazer os discos, porque tinha a obrigação de deixar os discos na mesma hora em todas as lojas. Cara, quem recebesse uma hora antes já saia muito na frente nas vendas. Formava fila. Eram 15 dias só tocando Robertos Carlos na loja.

O inimitável

Existia uma concorrência pra ver que artista chegaria perto de Roberto Carlos nas vendas. Todo ano aparecia um nome novo. Um cantor que vendeu muito foi Paulo Sérgio. Com certeza assustou o Roberto. Aquele disco “O Inimitável” certeza que foi uma forma de resposta ao Paulo Sergio.

Saudade do pai

Quando meu pai faleceu eu perdi minha mocidade. Passei a trabalhar de manhã, tarde e noite. Cara, chorava todo dia a falta dele. Para suprir a saudade, eu me aproximei dos amigos dele para conhecer o que papai gostava de ouvir. Até hoje preservo na loja um espaço para os artistas favoritos dele. Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Vicente Celestino, Orlando Silva. Esses caras começaram a fazer a história da música brasileira. Ouvir esses artistas que papai gostava me motivava a trabalhar nos dias difíceis.

Do vinil para o CD

A mudança do vinil para o CD não me afetou tanto na época, porque eu tinha empresas em outros ramos (confecções e publicidade) para equilibrar as contas. Meu problema mesmo foi ter demorado pra vender o acervo de vinis. Fiquei com milhares de Lps parados. Quando vi que as gravadoras não tinham o interesse de relançar em Cds os álbuns antigos, comprei um equipamento para passar todo meu acervo pra Cds. Depois botei pilhas de LPs na calçada para as pessoas levarem pra casa. Lembrando agora até me emociono. Eu só deixava levar a quantidade que coubesse debaixo do braço.

Consultor de rádios e boates

Eu não sou pesquisador de música. Sou conhecedor. Algumas rádios já me procuravam para montar acervos de músicas para ser trabalhada na programação. O pessoal dizia o perfil dos programas e eu montava um acervo de seis meses pra eles usarem. Fiz também para boates. Os empresários compravam muitos discos aqui, pagando à vista, então pediam para que eu orientasse os Djs, porque eu conhecia músicas de todos os gêneros e épocas, sabia oferecer essa variedade. Por trabalhar com música aparecia esses trabalhos também.

Os clientes de hoje

Esses discos daqui eu faço tudo a partir do original, as músicas e a capa. Quem vem aqui é gente apaixonada por música. Na loja não entra muito aquele cliente que está só passando na rua. É mais gente que já sai de casa atrás de algo específico, antigo, raro. Já apareceu português aqui atrás de disco de fado. Tem gente que já se emocionou aqui ao encontrar aqui o primeiro disco do Zé Ramalho, “Paerabiru”. Outro se emocionou com o primeiro disco de Roberto Carlos. Gente que chorou quando viu toda a coleção do Nelson Gonçalves. Às vezes a pessoa chega com um nome e você tem que ter noção para encontrar exatamente o que a pessoa quer. Noutras, você não tem o que ela quer, mas por conhecer o estilo do artista que é interesse do cliente, você oferece outros discos semelhantes, e ele gosta.

O auge do Centro

O que eu tenho mais saudade aqui no Centro é de ver aquela agitação do período de fim de ano. O  pessoal pintava as lojas. As vitrines ficavam todas decoradas, melhoravam a iluminação nas ruas, o movimento de pessoas nas calçadas aumentava. O comércio funcionava até dez horas da noite em dezembro, cara. Eu acredito que o Centro vai recuperar esse movimento de novo. Com segurança, asfalto ajeitado, calçadas boas, iluminação melhor, o Centro volta a ter importância. Todo lugarzinho, por menor que seja, tem seu centro da cidade. Esses espaços nunca morrem.

Colaborou: Cinthia Lopes, editora

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