A verdade é única

Publicação: 2018-11-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Edilson  Alves de França
Professor e Consultor Jurídico

Várias são as definições através das quais se pretende expressar o significado e a natureza da verdade, dentro da sua impositiva correspondência com a realidade. Do mesmo modo, diversas são as teorias que tentam explicar sua constituição formal. Única mesmo, desafiando grandes pensadores, permanece apenas a própria verdade, considerando que sua unicidade não permite se cogitar de uma verdade para cada um que eventualmente a proclame. Principalmente nos dias atuais, quando a intolerância, o radicalismo, a mentira e a arrogância procuram impor “verdades”, nada verdadeiras, que não passam de versões adaptadas aos palcos em que são ou serão exibidas.

A propósito, do alto de sua sabedoria, Santo Agostinho já advertia que essa verdade única habita o íntimo do ser humano que, ao contorná-la, comete o que define como “adultério do coração”, capaz de afastar um dos mais preciosos ornamentos do homem de bem. E para que seja reduzida a possibilidade de nos enganarem através da mentira, o conselho mais divulgado tem sido o de que devemos permanecer sempre atentos à essa probabilidade de sermos iludidos por aparências ou versões fabricadas, amigas das meias verdades que, parcial e falsamente, alimentam inúmeros males, inclusive o da corrupção.

No seu discurso sobre o método, Descartes recomenda “não aceitar nenhuma coisa por verdadeira que, efetiva e evidentemente, não saibamos que o seja.” Noutras palavras, devemos aceitar como verdade aquilo que foi vivido, comprovado, constatado ou verificado mediante experiência confiável. Nesse caso, o fato deve corresponder a uma realidade, caracterizando-se, assim, como verdadeiro porque é real, porquê foi vivido como experiência perceptível, prática e concreta.

Como se percebe, mesmo diante da lição de Descartes, sobrevive certa dúvida sobre o conceito de verdade, considerando que a conformação do que é verdadeiro precisa de uma realidade que transcenda as aparências, que nos obrigue a procurá-la dentro de uma ordem formal, racional e objetiva. É essa, portanto, a verdade que deve ser perseguida, buscada é almejada no âmbito do judiciário. Numa acusação de lavagem de dinheiro, por exemplo, a verdade da peça acusatória deve ser revestida ou antecipada de induvidosa boa-fé, carregada pela razoabilidade, plausibilidade e autenticidade, sob pena de incorrer em antecipado descrédito.

Do mesmo modo, essa mesma verdade deve acompanhar a defesa. Ao contrário do que pensam alguns, não basta se negar o fato criminoso ou atribuir a acusação a meras perseguições pessoais ou políticas. Por outro lado, simplesmente silenciar diante de uma grave acusação ou optar pela tática da meia verdade não tem sido boa estratégia de defesa nem, muito menos, ético. A propósito, ninguém como Rui Barbosa foi tão esclarecedor ao advertir: “que a necessidade do profissional pode autorizar o patrono de uma causa a não expender toda a verdade: o que se lhe não permite é afirmar o contrário da verdade.” Infelizmente, nos dias atuais, a praga da mentira tem se tornado costume. Fácil e naturalmente se mente, até porque entre outras deficiências pedagógicas, já não se ensina, como fazia o professor Luiz Soares, que: “o escoteiro é leal, respeita o bem alheio e só fala a verdade.”




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