Alex Medeiros
A vida começa com amigos V
Publicado: 00:00:00 - 10/07/2021 Atualizado: 22:48:12 - 09/07/2021
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Quando o caminhão de mudança desceu pela nova Prudente de Morais pavimentada, foi impossível não lembrar dos primeiros anos da via de barro ligando Candelária ao estádio Castelão. Era o fim dos anos 1970, e 1980 anunciava minha maioridade, o meu direito de posse do nariz na forma legal do que já era prática desde os 17 anos, ao assumir o primeiro emprego. Meu último domingo antes de partir foi de pelada e banho de mar em Ponta Negra.

Divulgação


Comecei a semana e a nova moradia em Nova Descoberta explorando a casa ampla e principalmente o quintal com uma goiabeira que se apresentou me dando um caldeirão cheio das frutas de carne vermelha. Ainda com o auxílio amoroso de mamãe, fiz o primeiro litro de aluá, que aprendi nas resenhas poéticas do Beco da Lama, nas manhãs do centro de convivência da UFRN e nas biritas musicais com os primeiros amigos que conquistei no novo bairro.

Aquele primeiro ano prenunciava que a década seria de transformações e batalhas de uma geração ávida por liberdade, sem amarras, muros e controle mental, como bradava a canção do Pink Floyd, “Another brick in the wall”.

Tinha passado por dois empregos e voltara à vadiagem estudantil com o cabelo despencando por sobre os ombros. Quem tem casa paterna se torna especialista em chutar o pé da barraca, apesar dos perigos que dizia Ivan Lins.

A militância política ajudou a localizar mais colegas em Nova Descoberta, gente movida a sonhos e noites, tocando a vida literalmente a toques de violão. O primeiro bico me veio num dueto pelo Seridó a bordo do Circo da Cultura.

Entre goiabas, aluá e rolés de motocicleta, misturei política eleitoral com campanha peitoral, dividindo o coração entre três sorrisos que me embrigavam mais do que a cerveja consumida nas festinhas de uma república socialista.

Atravessava a BR 101 de volta ao bairro anterior buscando uma paixão mal resolvida, enquanto me balançava entre a militante do partido e a loirinha das sessões do Cineclube nas manhãs de sábado do velho cinema Rio Grande.

Vivia no mundo, mas na hora do almoço estava em casa, e enquanto minha mãe via TV Mulher eu girava na vitrola as novidades de Alceu, Elis e Rita Lee, além de rabiscar uns versos para compor jornalzinhos e fanzines marginais.

Descobrir caminhos pela mata do Parque das Dunas até o mar virou programa de domingo, com paradas estratégicas para o combustível etílico-lisérgico e alguns amassos ecológicos, ou fazer amor por telepatia no mar e na melodia.

Vivi ali um momento inesquecível entre a aventura e a angústia. Após um rolé que durou uma semana entre Canoa Quebrada e Jericoacara, encontrei meu pai em coma com um infarto que quase o matou. Dias tristes no São Lucas.

Foi quase um mês com sua cadeira de ferro e cordas sem ele na área externa da casa, minha mãe com olhar aflito. Me limitei no perímetro do quarteirão, longe dos agitos da Cidade Alta e da eleição onde eu era um dos candidatos.

Se eu tive a primeira paixão adolescente nas Quintas, ali em Nova Descoberta experimentei o primeiro grande amor, abdicando da paquera em Candelária e do namoro no partido. Djavan dizia meu bem querer sacramentado no coração.

Havia uma variável na composição social e cultural nos amigos dali em comparação com bairros anteriores. Tinha os universitários, os bichos-grilo, os operários, os biriteiros das peladas, os comerciantes e os servidores públicos.

Nova Descoberta era um balaio de gato com direito a gatas espalhadas pelas faculdades e escolas estaduais. Eu adorava atravessar a cidade a pé, perambulando na madrugada desde Petrópolis, subindo a ladeira até em casa.

Jamais fui alvo de assaltos como se vê hoje lá e em Natal inteira. Uma única vez fui abordado pela Polícia, que desconfiou dos meus cabelos e da bolsa de couro, de onde tirou livros, cigarros perguntando se tinha ali uma metralhadora.

A pergunta veio após eu responder uma anterior sobre de onde eu vinha. Como disse que estava num evento na universidade, e estávamos em 1982, ano de eleição geral após anos, o cara fez uma ligação clichê. Pedi seu voto e fui dormir pensando acordar num novo tempo.

Azimute 
Eu alcancei a época em que o país acreditava na grande imprensa, representada nos grupos Folha, Estadão, Globo e Abril. Hoje, descobriu que eles construíram impérios com publicidade fermentada de empresas públicas.

Pesquisas 
Houve também o tempo do crédito nas pesquisas de opinião, quando feitas com critérios científicos. Nas últimas décadas, pesquisa virou peça de marketing eleitoral. Hoje feitas por encomenda, existem para todos os gostos.

Pesquisas II 
A tese da encomenda ganha força com o sortimento de pesquisas na mídia. O Datafolha e CNT dão Lula na frente, o Instituto Paraná aponta Bolsonaro, o Ipsos mostra Sergio Moro favorito, já o Ideia traz Bolsonaro e Lula empatados.

Farsa 
Do deputado Ricardo Campos nas redes: “Basta a CPI ouvir a mim e a Precisa. Adiaram meu depoimento e o de Maximiano, logo não querem esclarecer nada. Querem manter a falsa narrativa de que há irregularidade. É uma fake news”.

Torcida 
O canal ESPN realizou uma enquete indagando da preferência na final da Copa América, por Neymar ou Messi. E o argentino disparou com 63% contra 37% para o brasileiro. Nas redes, esquerdistas querem a derrota da canarinho.

Hipocrisia 
Quem diria que de repente o velho ódio à Argentina sumisse por causa da interpretação da esquerda de que a vitória do Brasil é de Jair Bolsonaro. Os mesmos que reclamam das críticas à China, agora torcem pelos hermanos.







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