A vida e o feitiço de Carlos Alexandre

Publicação: 2014-05-02 00:00:00 | Comentários: 2
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Yuno Silva
repórter

O cantor e compositor Pedro Soares Bezerra teve uma carreira meteórica. De origem humilde, acreditou no próprio talento, perseguiu seu sonho e conquistou o país no final dos anos 1970 com letras que falavam essencialmente de amor. Pedrinho entrou para a história da música brasileira com outro nome: em 1977, aos 20 anos foi artisticamente rebatizado de Carlos Alexandre, e contrariou todos os prognósticos que perseguem àqueles que nascem na zona rural de um pequeno município no interior do Nordeste atingido pela seca e separado da família. As minúcias dessa história, cujo fim trágico remete ao fatídico acidente de carro sofrido em 1989, é contada sem pieguices e exageros na biografia “O Homem da Feiticeira – A história de Carlos Alexandre”, escrita pelo jornalista Rafael Duarte.
ArquivoO homem da Feiticeira era um habitué de programas de auditório. No Chacrinha, teve alguns de seus grandes momentosO homem da Feiticeira era um habitué de programas de auditório. No Chacrinha, teve alguns de seus grandes momentos

O livro de 400 páginas é ricamente ilustrado, traz a discografia completa do mais famoso cantor potiguar de todos os tempos e depoimentos de artistas que em algum momento da carreira conviveram com o biografado, como os cantores Agnaldo Timóteo, Lindomar Castilho, Bartô Galeno, Carlos André, Messias Paraguai, Fernando Luiz e Gilliard; antigos parceiros como o baixista João Maria de Lima, o Dão, e Alcides Wandeberg (Berg) que sobreviveram ao acidente que vitimou Carlos Alexandre aos 31 anos; a viúva Solange de Melo, o filho do cantor Carlos Alexandre Júnior, o produtor Zé Dias e a pesquisadora Leide Câmara, entre outros tantos anônimos e nem tão anônimos que cruzaram o caminho do ‘homem da Feiticeira’.

“O Agnaldo Timóteo disse que Carlos Alexandre foi o primeiro artista do Nordeste que fez nacional sem precisar sair de seu lugar de origem. Ele viajava para participar de todos os principais programas de auditório da época, Bolinha, Flávio Cavalcante, Chacrinha, Sílvio Santos e voltava para Natal”, lembra Rafael Duarte.

Referências bibliográficas, aliada a uma pesquisa cuidadosa conduzida ao longo de 18 meses, conferem peso extra à obra editada por José Correia Torres Neto que fecha a série de quatro volumes do projeto Biografias 2011-2012, viabilizado através do Programa Djalma Maranhão com patrocínio da Prefeitura de Natal e do colégio Cei.

Assim como as outras três biografias, sobre o escritor Homero Homem escrita pelo também jornalista Alexis Peixoto; o ator e encenador teatral Jesiel Figueiredo, autoria de Luana Ferreira; e o poeta e artista plástico Newton Navarro, de Sheyla Azevedo; o livro sobre Carlos Alexandre também não terá um lançamento formal neste primeiro momento: toda a tiragem de 500 exemplares será distribuída gratuitamente em bibliotecas públicas, instituições de ensino e outros espaços culturais onde as obras possam ser consultadas.

Sem fantasia
Rafael Duarte adiantou que já planeja uma segunda edição, ainda para antes da Copa do Mundo. “A partir da segunda tiragem os direitos autorais passam a ser dos próprios autores, e o livro pode ser disponibilizado nas livrarias”, informou Rafael Duarte. O autor, que antes da biografia conhecia apenas o básico sobre Carlos Alexandre, garante que tudo o conteúdo é novidade.
Magnus NascimentoSem pieguice, Rafael Duarte esmiúça a emocionante trajetória do artistaSem pieguice, Rafael Duarte esmiúça a emocionante trajetória do artista

“Pra mim, a maior dificuldade e o grande desafio foi lidar com a memórias. Tive muita sorte, as pessoas abriram as portas, Carlos Alexandre era muito querido, e quando chegava para colher um depoimentos pedia duas coisas básicas: que não fantasiassem, que contassem só o que realmente havia acontecido; e que qualquer lembrança, qualquer detalhe seria importante para retratar o personagem da maneira mais fiel possível”, contou Rafael.

Informações preciosas
O livro traz informações preciosas do acidente ocorrido entre Tangará e São José do Campestre, em um trecho sem curvas na estrada, como o detalhe do velocímetro do Opala Comodoro vinho que “tremia na marca dos 190 km por hora”. “Ele vinha de Pesqueira (PE), foi a última atração de um evento que ainda contou com shows de Reginaldo Rossi e Agnaldo Timóteo, e estava com pressa de chegar em casa”. Apesar de gostar tomar ‘umas’, Carlos Alexandre, que assumiu a direção do carro após parada para um café em Belém (PB), o cantor não havia bebido nada naquela manhã do dia 30 de janeiro de 1989.

Rafael Duarte lista outras curiosidades e histórias pitorescas, todas comprovadas por mais de um depoente, como a vez que o ainda garoto Pedrinho sonhava com uma bicicleta: “Ele trabalhou na roça, economizou e quando conseguiu a bicicleta trocou por uma galinha e vários pintinhos. Para ele era uma noção de família, de proteção, justamente o que ele não teve dos pais biológicos”, destacou. Segundo o autor, a questão familiar foi uma mágoa que acompanhou Carlos Alexandre durante toda sua vida e influenciou em suas letras.

O cantor também tinha suas excentricidades, em dois anos trocou 36 vezes de carro (qualquer arranhão era motivo para justificar a troca) e cansou de torrar cachês financiando festas para os amigos. “Viveu intensamente sua fama”, frisa o jornalista.

Repertório revisitado
A biografia corrige o local de seu nascimento: Pedrinho não nasceu em Nova Cruz e sim no lugarejo de Santa Fé, hoje distrito do município de Várzea, e com pouco mais de um ano foi adotado por uma família e levado para Jacaraú (PB) onde viveu até a adolescência. Também detalha a relação do cantor com o radialista e político Carlos Alberto de Sousa, seu padrinho artístico; o apoio que recebeu de Gilliard; o papel decisivo da esposa Solange Melo para o êxito de sua carreira; fala dos primeiros shows no bairro de Cidade da Esperança e nos circos, onde Pedrinho cantava Elvis Presley, Roberto Carlos e o ídolo Evaldo Braga, cuja trajetória pessoal guarda semelhanças com a do cantor potiguar (questões familiares parecidas e o fato de também ter morrido em um acidente de carro), até o contrato com a gravadora RGE.

O legado de Carlos Alexandre continua vivo e seu repertório continua sendo semanalmente revisitado pelo filho-cantor Carlos Alexandre Júnior, que faz shows todas as noites de segunda-feira no Bar da Sol (de Solange, a viúva) em Cidade Nova, zona Oeste de Natal.

Números
200 músicas foram registradas por Carlos Alexandre

4 compactos gravados

11 discos (LPs) lançados

15 discos de ouro recebidos  ao longo da carreira

250 mil cópias vendidas foi o que rendeu o primeiro compacto com a música “Feiticeira”

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Comentários

  • geriatri.ibbfibbf

    Muito bom essa resenha jornalística , sou fã do Carlos alexandre . Porém uma curiosidade , Paulo Márcio cantor é irmão de Carlos xlexandre?

  • luiz_geovane

    como eu faco para comprar o livro A vida e o feitiço de Carlos Alexandre? espero sua resposta