A vida era pálida, até que...

Publicação: 2017-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Tomislav R. Femenick   [ Escritor ]

Sua vida sempre foi previsível e pálida. Teve asma na infância, começou a usar óculos quando estava fazendo o segundo grau, tentou e não conseguiu entrar na universidade pública. Seus pais, funcionários, de classe média-média, tiveram que bancar a mensalidade de uma faculdade particular noturna. Não era das melhores, mas também não era das piores. Como eles, estava um pouco abaixo da média. Comprar livros nem pensar. A grana não dava. O jeito era apelar para os parcos livros da pobre biblioteca da escola, ou tirar xerox. Dava sempre um jeito de estudar. Quando “fazia” o segundo ano, conseguiu, por intercessão de um primo de sua mãe, entrar em um banco como estagiário. Como era esforçado, aprendia fácil a burocracia daquele mundo de papéis e informações digitalizadas e trabalhava além do expediente normal, acabou sendo efetivado como funcionário. Aí já sobrava um dinheirinho que dava para sair com os amigos, em alguns finais de semana.

Entre as colegas de faculdade, na mesma sala havia uma que era de classe média como ele, igualmente estudiosa, que trabalhava na lojinha do pai, era acanhada e frágil e deveria ter uma vida tão insípida como a dele. E tinha, como veio a saber mais tarde. Fez dela a sua eleita. A progressão amizade, namoro, noivado e casamento acompanhou as suas promoções no banco; auxiliar, escriturário, caixa, encarregado e supervisor administrativo de uma agência recém-inaugurada.

A grande surpresa veio quando eles foram à igreja, marcar a data do casamento. Lá, ela quis fazer uma confissão, não ao padre, mas a ele. Revelou que não era mais virgem. Que foi há muitos anos, com um primo, que hoje mora longe, lá pras bandas de Altamira, no Pará. Que foi algo sem importância, mas que ela se achava na obrigação de contar. Foi um choque. Matou no peito, ajeitou com a cabeça e, só depois de muito pensar, é que chegou a conclusão que foi um ato de sinceridade por parte dela. Depois até se esqueceu de tudo, que passou a ser apenas um pormenor.

Já tinham terminado o curso quando se casaram. Foi uma festa simples. Foram morar em um condomínio da periferia. Ela deixou de trabalhar, pois queria se acostumar a ser dona de casa. Tomava a pílula, porque acha muito cedo para ter filhos. Primeiro haveriam que gozar a vida, dizia.

Um dia, estava no banco quando lhe chamaram ao telefone. Era um vizinho de seu pai. “Venha urgente, aconteceu uma tragédia. Seu pai descobrira que sua mãe, há muitos anos, mantinha um caso com aquele primo que lhe arranjou o emprego no banco e que, talvez, você não seja filho dele. Seu pai matou a sua mãe e se entregou à polícia”. Na hora não assimilou totalmente a tragédia; sua mãe assassinada pelo seu pai, seu pai era outro. Só ficou pensando em como dizer isso para a esposa. Não era notícia para se dar por telefone, tinha que ser ao vivo e com muito cuidado, pois ela era uma criatura frágil. Em casa, para não acordá-la de chofre, silenciosamente abriu a porta com sua chave e... sua mulher,  sem nada no corpo, estava na cama com aquele primo que ela dizia morar lá pras bandas de Altamira. Matou os dois.







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