A vida plural na calçada da Rio Branco

Publicação: 2017-05-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Sentado à beira de seu Sebo Vermelho, cercado por livros de todos os tipos, a maioria publicados por sua editora, Abimael Silva observa a avenida Rio Branco, uma das principais vias da Cidade Alta. “De manhã é aquela boiada saindo dos ônibus para o trabalho. Ao meio dia fica aquele vai e vem intenso. Às 17h é quando a mutação acontece. Os ambulantes abrem suas tendas e pegam os trabalhadores saindo do expediente. É cd, dvd, sandália, guarda-chuva, churrasquinho. Fica aquele fumacê. Depois vai sumindo todo mundo, até não ficar uma viva alma”, descreve o potiguar de 54 anos – completados ontem (13)

Nascido em Várzea, mas morador de Natal desde 1977, apesar de ter morado em outros bairros, foi na Cidade Alta que ele se formou para o mundo. Moleque, de calção e sandália, teve seu primeiro emprego no bairro, na Discol, como vendedor. Depois trabalhou no Unibanco, ainda na região. Demitido, investiu o que tinha no seu grande sonho: ser vendedor de livros. Essa é sua vida desde 1985, quando abriu uma cigarreira de cor rubra, na rua Vigário Bartolomeu, apenas com 600 livros. Surgia ali o Sebo Vermelho.
Livreiro e sebista Abimael Silva revisita suas memórias e analisa o fervilhante e democrático cotidiano da velha Cidade Alta
Livreiro e sebista Abimael Silva revisita suas memórias e analisa o fervilhante e democrático cotidiano da velha Cidade Alta

Depois de vários pontos diferentes, Abimael encontrou num imóvel de mais de 70 anos, no número 705 da avenida Rio Branco, o pouso perfeito para seu sebo. Está ali desde 1997. É de sua cadeira, na frente da loja, que ele conversa com todos os tipos de clientes, toma sua cervejinha e observa o movimento do bairro, ora lembrando do passado, ora imaginando o futuro, mas sem tirar os pés do presente.

“Eu acredito na Cidade Alta. Aqui é meu porto seguro. Não pretendo mudar de lugar, já tenho muita sintonia. Depois de vários anos, agora estou morando no bairro também. Tenho uma casinha no Pium e um lugarzinho aqui. Me dou muito bem com todas as pessoas, desde pastorador de carro, até a empresário paludo”, conta o sebista.

Para ele, os tipos antigos, aqueles folclóricos, desapareceram, mas ainda é possível encontrar “doidos bons” por aí. Ele reconhece que com os shoppings o movimento caiu bastante no comércio e, apesar da carência em algumas áreas, o problema da insegurança, o bairro continua interessante, plural e cheio de histórias.

Comecei a trabalhar na Cidade Alta em 1978 e continua aqui até hoje. Mas antes, ainda quando morava no interior, vinha com minha mãe para a Cidade. Ela fazia artesanato e vinha deixar os trabalhos em algumas lojas. De manhã a gente ia tomar café em Nobaldo, na Princesa Isabel. Era uma casinha bem simples, fazia comida caseira, mas de muita qualidade. Ovo caipira, coalhada tirada no pires mesmo, saindo com aqueles pedaços carnudos que você olhava babando. Dava todo tipo de gente, autoridades e cidadãos comuns. Hoje a casinha não existe mais. É um estacionamento.

Educação musical

Meu primeiro emprego foi numa loja de discos, a Discol, em frente ao antigo Cine Nordeste, onde hoje funciona a loja Leader. Comecei com 13 anos, de calção e sandália. Ali foi minha formação musical. Conheci vários artistas. Naquela época, final dos anos 1970, todo mundo se hospedava no Ducal. Era o hotel mais importante antes da Via Costeira. Conheci Jorge Ben nessa época. Quando ele vinha se apresentar em Natal, o Bidu, que tocava surdo na Banda do Zé Pretinho, passava na Discol me chamando para ir com a banda para o show. Foi o melhor tempo da minha vida. Fiquei lá até 1983. Depois trabalhei no Unibanco, em frente a Catedral, de onde fui demitido e na sequência abri o sebo.

Surge o Sebo Vermelho

O sebo começou na Rua Vigário Bartolomeu, em 1985. Meu capital inicial foram meus 600 livros. Tinha 21 anos. Naquele tempo o Sebo Vermelho foi o terceiro. Só a família de Jácio (do Sebo Catalivros) que tinha sebo aqui. Por sinal, fui o primeiro a assumir o nome de sebo. Os outros eram livraria, alfarrábio. Peguei o dinheiro da indenização do banco e mandei fazer uma cigarreira, pintei ela todinha de vermelho, que é a cor do amor, do sangue, é vida, é energia.  No início minha mãe ficou horrorizada, mas teve que aceitar.

O Beco da Lama tem essa fama de cult, mas antigamente era um lugar comum. Tinha só uma boemia da velha guarda, não tinha tanta gente. Quando a gente terminava o expediente, íamos todos para o bar de Odete, em frente ao bar do Nazi, lá no Beco da Lama. Eram os dois points da boemia. Nazi sempre fazendo a meladinha e dando um caldinho de feijão de cortesia, independente de quem fosse. Se o cara estivesse bebendo além do limite ele dava o toque. E ele não anotava nada. Era tudo de cabeça. Hoje o bar de Odete não existe mais. O de Nazi ainda está lá, com outros donos

Cinemas

Os cinemas daqui eram a grande curtição. Cinema  Nordeste, Rex. No Cinema Rio Grande, no final dos anos 1970, toda sexta à noite tinha a sessão de arte, indo até uma hora da manhã. A gente saia do cinema voltando pra casa à pé, no Alecrim, Nazaré. Velhos tempos. Um dos filmes que me marcaram naquela época foi “Iracema, a virgem dos lábios de mel”. Eu não tinha nem idade, mas convenci o porteiro a me liberar. Fiquei totalmente assanhado com aquele erotismo do filme.

Personagem
Para a Cidade Alta falta um bom romancista, porque os personagens estão por aí. No Café São Luiz, tinha um cara chamado Barrabas, era um bebedor profissional, com mais 60 anos. Pedia para os outros adotarem ele. Quem também aparecia por lá era o André da Rabeca fazendo seu sonzinho. Às vezes, quando eu lançava algum livro no sebo, eu o pagava para tocar uma hora. Mas esse tipos desapareceram.

Doidos bons

Tem uns figuras antigas que ainda estão por aqui. Seu Inácio, cinéfilo, é um dos clientes que frequentam o sebo desde o começo. Ele tem uma biblioteca enorme. Seu Noronha é outro. Um baita personagem. Às vezes ele está aqui e cisma em querer comer um pastel em Tangará. Ele pede um táxi e vai, paga um real por quilômetro. Noronha viaja o RN todinho fotografando igreja. Se ele chegar e tiver aqueles bêbos deitados na frente, ele não dá cabimento. Volta pra casa, mas não atrapalha o sono do cara. A Cidade Alta tem isso, doidos bons.

Primeira escada rolante

Antes passava pela Rio Branco todo tipo de gente, era nossa avenida Paulista. Mas com os shoppings, o movimento caiu. Poucas são as lojas com mais de 30 anos que continuam aqui. Na Lobrás, que não existe mais, teve a primeira escada rolante de Natal. As pessoas exitando antes de subir. Tinha gente que não comprava nada, ia na loja só pra subir a escada, dar uma voltinha e descer. Era uma diversão.

Insegurança

A Insegurança não me tira o sono. A gente tem que aprender a conviver. Qualquer cidade do Brasil se vive essa questão da violência. A gente tem que aprender a conviver para não pararmos a nossa vida. Se evita de se expor tanto. Claro que com isso a rotina das pessoas acaba ficando naquilo de casa e shopping. Mas tem quem está disposto a quebrar isso. Se de noite às pessoas não vem, então a gente faz de lançamento de dia.

Caminhar

Com a violência muita gente desapareceu. Não tem mais aquele papo diário na calçada. Ainda assim, circular pela Cidade Alta é a melhor coisa para se fazer. Dá para ver as marcas do passado em algumas fachadas, a diversidade nas ruas, uns tipos peculiares, algumas pessoas antigas boas de conversar, tem a boemia no Beco da Lama.

Melhorias

Falta um espaço cultural bom. Seja bancado por empresários ou pelo poder público. Falta melhorar o espaço para a boemia. Boteco não é só servir uma caninha. Tem que ter música, arte, comida. Na Praça João Maria surgiu uma coisa muito boa. Abriu esse ano a Estação do Cordel. Point bem interessante. Às sextas-feiras o pessoal tem promovido um certo agito lá na praça. É um embrião de algo bom.


Colaborou: Cinthia Lopes, Editora

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