A vitória da direita

Publicação: 2020-11-29 00:00:00
Flávio Rocha
Empresário e Presidente da Riachuelo

As eleições municipais mostraram que, ao contrário do chegou a ser previsto, o bloco que se alinha à centro-direita se sagrou vitorioso. Num pleito que envolveu os mais 5 mil municípios brasileiros, os detalhes turvam a análise. A esquerda pode ter levado uma capital aqui, uma cidade mais populosa ali, mas resultados pontuais não estabelecem uma tendência.

A impressão errada – a de que a direita teria perdido espaço – deveu-se ao desempenho de vários candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro. O que ocorreu nesse caso foi uma eventual falha de articulação política, somada a apostas baseadas em simpatias pessoais e que careciam de estratégia partidária. Mas se trata de um revés que, além de poder ser revertido mais adiante, não pode ser confundido com o quadro geral.

Anoto alguns números registrados antes da realização do segundo turno. Em termos agregados, a direita conquistou mais de 700 prefeituras Brasil afora, em relação às que detinha anteriormente. A conta inclui todos os partidos que, apesar de algumas divergências, podem ser considerados de direita ou centro-direita, como o DEM, o PSL, o Republicanos e outros.

Quando limitamos a análise às capitais, a conclusão é a mesma. A direita elevou sua participação substancialmente, mais do que dobrando a presença em prefeituras, de cinco para doze. Apesar da maior e bem-vinda diversidade nas representações municipais, a taxa de reeleição também foi elevada – passou de 47% na eleição anterior para mais a de 60%.

Não é um resultado desprezível, sobretudo quando comparado ao desempenho das legendas de outros matizes ideológicos. O centro, representado pelo PSDB, MDB e Cidadania, entre outros, perdeu mais de quinhentas prefeituras. E a esquerda – PT, Psol, PSTU, PCdoB etc – amargou encolhimento de mais de trezentas cadeiras nos executivos municipais.

Quando forem apuradas as urnas referentes ao segundo turno, o resultado numérico será diferente, mas é matematicamente impossível que a conclusão geral sofra qualquer alteração significativa.

Cientistas sociais classificam as eleições entre as que representam guinadas e as que são mantenedoras. O pleito de 2018 foi uma reviravolta radical em relação às quatro administrações anteriores. Já o recado principal das urnas deste ano foi a consolidação de uma tendência que já havia sido registrada.

Os estragos que a esquerda provocou na sociedade brasileira ainda são muito recentes para terem sido esquecidos pelo eleitor. Do ponto de vista econômico, foi um período de gigantismo do Estado, cuja função precípua era a distribuição de cargos a apaniguados, para aparelhamento da máquina pública. Do ponto de vista dos costumes, foi um tempo em que a ideologia se sobrepôs aos reais valores do brasileiro. Tudo isso para não falar da corrupção sistêmica. Enfim, um desastre que foi varrido da cena política em 2018.

As eleições deste ano sinalizam que o eleitor fez as pazes com a política tradicional. Rejeitou os extremos do espectro ideológico e referendou o que setores da mídia chamam, pejorativamente, de Centrão.

A crítica embutida na expressão, no entanto, não se justifica. O fato é que a redução do Estado vem diminuindo o espaço antes usado para abrigar correligionários. É uma tendência que, na prática, limita a política do toma-lá-dá-cá. Estelionatos políticos existem onde têm condições de prosperar. Quanto mais enxuto o Estado, menor as oportunidades de a máquina ser usada indevidamente.

As eleições municipais significaram um aval da população para o governo seguir em suas diretrizes principais. A causa do liberalismo, mais uma vez, saiu fortalecida das urnas. A guinada anterior à direita não foi apenas algo cíclico. Houve um nítido salto evolutivo do eleitor, que defendeu um sistema baseado no mercado, independentemente de quem seja o protagonista do processo.

O discurso simplista da esquerda foi compreendido como algo que, mais do utópico, é danoso para o crescimento do país, o que prejudica a todos – empreendedores, trabalhadores, profissionais liberais, comerciantes, agricultores etc. A distribuição da renda é importante, mas deve ser filtrada por fatores que levem em conta a meritocracia, num contexto de economia de mercado.

Quando, no futuro, os historiadores se debruçarem sobre esta eleição, provavelmente registrarão que o país decidiu se manter nos trilhos da prosperidade, da modernidade e da democracia.