A voz da guitarra

Publicação: 2020-09-24 00:00:00
Tádzio França
Repórter

O cantor, compositor e produtor potiguar Luan Bates deu um tempo no formato ‘voz e violão’ para deixar a guitarra falar mais alto em “Nothing left to say”, seu segundo trabalho solo e autoral, lançado recentemente em formato digital. O músico, que também dirige o selo alternativo Nightbird Records, viu na intensidade do rock ‘n roll a trilha ideal para sonorizar as atuais reflexões sobre si mesmo e o mundo em volta.  Além de estar em todas as plataformas digitais, o álbum inclui um mini documentário no Youtube sobre sua produção.

Créditos: clara cortêz

“Nothing left to say” é elétrico, cantado em inglês, e destila referências do britpop, indie, e rock alternativo dos anos 90 em geral. Sons que embalam canções sobre saúde mental, religiosidade, amores platônicos, amizades separadas pelo tempo, sociedade, paranóias. O  clima é bem diferente de “The morning sun”, o primeiro álbum de Luan, lançado em 2018. “Cada disco é uma espécie de autobiografia minha. Não que as letras sejam todas sobre vivências, mas refletem o que passei nos períodos em que escrevi as músicas” diz ele à Tribuna do Norte.

O músico explica que o primeiro álbum refletia sua transição da adolescência para a vida adulta, enquanto o novo já é sobre o peso de amadurecer. “O primeiro tem um tom reflexivo, mas esperançoso; o segundo é sobre estar completamente perdido da cabeça. Foi minha forma de lidar com uma depressão profunda pela qual passei anos atrás”, afirma. Apesar disso, ele ressalta que musicalmente o processo de gravação do novo disco foi bem mais profissional e prazeroso.

A ruptura e o avanço também se deram na sonoridade: enquanto o primeiro trabalho ondulava na melancolia folk, o novo se abre para o rock em alto e bom som. ”Essa já era a ideia desde o início. Não daria para tocar meu violão cantando sobre libertar-se de demônios todos os dias, ou sobre sexo. Acho que seria broxante”, brinca. Luan conta que a pegada elétrica o motivou mais, porque ainda há uma noção errônea sobre música tocada no violão. “Quando o som não é rotulado como MPB ou samba, jogam a obra para o rótulo do folk, que nem sempre é uma influência pra determinado artista ou banda. Então foi uma forma de afunilar qualquer definição”, explica.

“O que eu desejo é tirar essa ideia de que, por ter gravado com meu violão antes, obviamente eu sou um artista folk ou de baladas. O disco é uma provação minha visão enquanto artista, ao mesmo tempo que é uma catarse enquanto pessoa. Eu acredito que o álbum será um salto para mim nesses dois lados, e que conseguirei me conectar melhor com quem escutar as músicas”, declarou Luan no material de divulgação do disco.

O processo foi todo feito pelo artista, que assina desde as composições, gravação, produção musical, mixagem e masterização, passando por voz e instrumentos. Há participações de Toni Gregório na guitarra e Leo Fazio no clarinete na música “Casting out a devil”, além de Fernanda Fagundes com vocais em duas faixas. Mas o disco é essencialmente uma imersão solitária de Luan Bates em sua música. Intimista e elétrico.

O primeiro single de trabalho do disco, “Sanity”, é um punk rock que lida com as dualidades da sociedade contemporânea e a paranóia que resulta dessas dicotomias. O segundo single é “Systematic”, que aborda as relações das pessoas comuns com o tempo. Luan também resgatou uma antiga, “Soldier life”, composição de 2007 com claras influencias sonoras de Oasis, e sua primeira reflexão sobre depressão.
Luan afirma que seu momento pedia um disco de rock. Não importa se o mundo ou as paradas musicais não se conectam mais tanto com o gênero. “Não sei qual é a noção geral do público sobre esse tipo de música. O rock está cada vez mais distante de novos ouvintes, principalmente por terem tornado a mentalidade do gênero, digamos, muito fechada”, diz. Ele espera que o disco contribua para que a nova cena musical natalense possa se identificar mais com o rock e diminua o reacionarismo dentro do gênero. “Mas no fim das contas, só vamos saber responder isso daqui a alguns anos”, conclui.

Serviço:
Nothing Left to Say (Nightbird Records), por Luan Bates. 
Disponível em todas as plataformas digitais









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