ABA: como funciona a terapia que melhor trata o autismo

Publicação: 2020-11-01 00:00:00
Tádzio França
Repórter

O autismo impõe uma barreira difícil de ser atravessada. Segundo uma pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos estima-se que uma a cada 54 crianças tenha o transtorno diagnosticado em 2020. Utilizar terapias comportamentais para tratar os sintomas do autismo tem sido uma opção adotada por muitas famílias, e uma das mais aceitas atualmente é a Análise do Comportamento Aplicada (ou ABA, do inglês ‘Applied Behavior Analysis’), cujos resultados positivos têm ajudado a melhorar a qualidade de vida entre pais e filhos que convivem com o transtorno.

Créditos: Alex RégisRogério de Lima afirma que avanço do filho Gabriel está ajudando a tornar melhor outro desafio para pais de crianças autistas: a escolaRogério de Lima afirma que avanço do filho Gabriel está ajudando a tornar melhor outro desafio para pais de crianças autistas: a escola


A ABA é uma ciência com base na psicologia e no ‘behaviorismo’ (comportamento) que trabalha a modificação de condutas e modos para trazer melhoria na qualidade de vida da pessoa com autismo ou outro transtorno de desenvolvimento. É a única terapia com comprovação científica de eficácia, sendo indicada pela OMS e Ministério da Saúde como tratamento para o transtorno autista. “O objetivo é o ensino de comportamentos socialmente relevantes, ou seja, que vão contribuir com a qualidade de vida da pessoa”, afirma Juliana Santos, psicóloga especializada em psicoterapia infanto-juvenil.

A ABA é aplicada a partir de uma avaliação individual do paciente, para identificar suas particularidades. A psicóloga explica que o tratamento é de um para um, ou seja, cada criança tem suas particularidades e a partir disso é criado um currículo de ensino baseado na avaliação dela. “Dentro na análise do comportamento temos várias formas de ensinar, mas ensinamos da maneira que a criança aprenda, preenchendo déficits que ela possa ter”, diz Juliana, que também é coordenadora da ABA na Clínica de Atendimento Personalizado em Terapias Avançadas (Cliap).

A terapia procura ocupar de forma intensa o cotidiano do autista. Um dos seus diferenciais é que a ABA não é aplicada somente no consultório fechado, pois procura trabalhar o máximo possível próximo ao ambiente natural da criança, em casa, na escola, na praia, e no supermercado, entre outros. A idéia é que o aprendizado possa ser generalizado e ela se sinta inserida na sociedade. Além do ensino abrangente, a ABA também se sustenta na intensidade do tratamento e no rigor da coleta de dados.

Juliana fala do exemplo de uma paciente que tem acompanhamento de oito horas por dia. “Ela vem pra clínica pela manhã, passa quatro horas em terapias como fonoaudiologia, integração sensorial, psicomotricista, psicopedagogia, sempre acompanhada pelo assistente terapêutico da ABA”, explica. Nas horas restantes, são trabalhadas em casa as ações da vida diária, como banho, alimentação, o vestir, escovar os dentes, arrumar a própria roupa, entre outras atividades que contribuam para que conquiste a autonomia da pessoa.

Apesar de a ABA poder ser aplicada em pessoas de qualquer idade, quando se fala em autismo, há a questão da neuroplasticidade, ou seja, quanto mais cedo, melhor. “As pesquisas mostram que uma criança que começa o tratamento aos dois anos de idade vai evoluir até 70% mais do que um adolescente que ainda vai iniciar o tratamento. O que uma criança com três anos aprende em um dia, com dez anos ela levaria um ano”, relata.

Quando o acompanhamento é feito desde a primeira infância, os resultados são notórios. “Nós já tivemos paciente que aos quatro anos não falava nenhuma palavra, não interagia, só se alimentava com mamadeira e tinha muitos déficits sensoriais. Após cerca de oito meses, ela já falava 89 palavras”, disse a psicóloga. A terapia se volta diretamente para as áreas em que as crianças têm déficits, e também procura diminuir os comportamentos nocivos.

Erros
Juliana explica que a ABA pode ser aplicada pelos pais, mas recomenda-se o acompanhamento de um analista do comportamento, um profissional com formação para avaliar e definir os programas de ensino da criança. O analista deve acompanhar pais e cuidadores para que o tratamento seja realizado da forma correta, seguindo os princípios da ciência.

Aliás, aprender alguns fundamentos da terapia pode ajudar os pais a não cometerem alguns erros comuns a quem convive com o transtorno. As pessoas com autismo têm um funcionamento específico e uma forma de compreensão específica, portanto, segundo Juliana, muitos pais erram ao achar que o filho não tem condições de realizar algo, e estar sempre fazendo por ele ao invés de dar o suporte necessário. É errado também prometer algo para acalmar, já que a criança autista entende o que é dito como verdade absoluta, o que gera ansiedade e desregulamento.

Os pais devem dar o suporte necessário para que a criança realize coisas que não consegue fazer só. Outro erro cometido é responder pela criança quando ela não é verbal. Juliana ressalta que usar dicas visuais e ensinar comunicação alternativa é de extrema importância para modificação e diminuição de comportamentos indesejáveis, ganho de autonomia e aumento da socialização.

A ABA ainda é uma terapia relativamente nova, tendo sido aplicada pela primeira vez em 1987, pelo psicólogo norueguês-americano Ivar Lovaas. Juliana Santos afirma que a aplicação correta dela ainda é uma luta no Brasil. “Em Natal é percebido um crescimento muito rápido na oferta desse serviço, porém, há muita irregularidade nos serviços que são ofertados por alguns órgãos”, diz. Entre os erros, estão a quantidade de horas insuficiente, e a falta de conhecimentos teóricos e práticos sobre o assunto. Os familiares precisam saber mais para cobrar o uso correto.

Em família
Ao notar um atraso na fala do filho mais novo, o corretor Rogério de Lima e a esposa perceberam que havia algo fora do roteiro. Descobriram o autismo de Luiz Gabriel, e viram a vida mudar de uma forma inesperada. “Não foi fácil. Percebemos que deveríamos ser assertivos. Então, procuramos saber sobre o que é autismo e como ele iria impactar nossas vidas”, diz ele, que conta ter tido uma crise de ansiedade durante o processo.

No início foi difícil até obter um diagnóstico precoce, pelo fato de o menino ainda ser muito novo e os neurologistas preferirem aguardar mais sinais – além do atraso de linguagem e comportamento disruptivo. O tratamento com psicólogo e fonoaudiólogo não estava obtendo o resultado esperado. Até que em suas pesquisas, os pais descobriram a ABA e uma possibilidade de avanço. Resolveram tentar.

Gabriel já estava com dois anos e meio quando o tratamento intensivo com ABA começou. “Uma terapia que antes era de 30 minutos nas outras clínicas passou a ser diária e em vários contextos. Hoje, nosso filho tem um acompanhamento de 96 horas por mês. Um salto quantitativo, e o melhor, um salto extremamente qualitativo”, afirma Rogério.

O avanço de Gabriel, agora com quatro anos, está ajudando a tornar melhor outro desafio para pais de filhos autistas: a escola. “De início, a falta de conhecimento e entendimento por parte da escola nos fez desanimar. Mas, passo a passo, conseguimos o apoio e a inclusão”, diz. “É difícil, confesso, mas é uma alegria indescritível vermos nosso filho ampliar seu repertório a cada dia, fazer novas descobertas, melhorar cada vez mais suas interações. Isso não tem preço”, completa.

Foi numa conversa entre pais de autistas que a professora Elisabete Silveira ouviu falar da ABA pela primeira vez. Ela é mãe de João Vicente, de 10 anos, que é autista severo e surdo. De início, acho que fosse “mais uma” entre tantas que já havia experimentado com resultados ainda incipientes. Até que no final do ano passado, ela resolveu iniciar o tratamento nessa área.

“Percebemos o quanto essa terapia é poderosa”, diz Elisabete. Segundo ela, João Vicente tem melhorado em comportamentos inadequados muito sérios no comprometimento da sua vida social. Melhorou, por exemplo, na sua agressividade, tempo de espera e, recentemente, passou a apontar com o dedo para coisas de seu interesse. "Apontar para o autista, em vez de levar você até o objeto de seu desejo, significa muito para pessoas de sua condição”, ressalta.

A professora considera que o grande potencial da ABA está em canalizar esforços na alteração dos comportamentos disruptivos e inadequados e sua substituição por comportamentos socialmente saudáveis. “Isso se dá em função da análise do comportamento de cada autista e adoção de um plano individual para cada um especificamente. Nossas expectativas estão amplas. Entendemos que o caminho é longo, mas estamos agora no rumo certo”, conclui.