Esportes
ABC x Flamengo: drama, tragédia e arte
Publicado: 00:00:00 - 18/07/2021 Atualizado: 09:06:54 - 17/07/2021
Rubens Lemos Filho
Especial para a TN

Chocou o país inteiro  a declaração do jornalista João Saldanha, botafoguense, técnico da seleção brasileira em 1969 e  que conquistou seu único título graças a Garrincha no Botafogo em 1957, um olé de 6x2 no Fluminense: “Garrincha está bebendo até querosene!”. Cruel e desnecessária declaração de Saldanha, que tanto usufruiu do Garrincha inteiro. Garrincha estava, de fato, destruído. Pelo alcoolismo, por desgraças como o acidente que matou a sogra,mãe da cantora Elza Soares e pelo joelho devastado por infiltrações que permitiram o Botafogo encher seus cofres. Garrincha era o espectro de si mesmo no final dos anos 1960. Degradado, como todo alcóolatra.

Arquivo
Em 1969, o craque Garrincha jogou pelo Flamengo em Natal

Em 1969, o craque Garrincha jogou pelo Flamengo em Natal



Com toda o risco , o Flamengo resolveu usar Garrincha com o que restava de popularidade numa excursão de 18 dias a partir de janeiro de 1969, passando por Guiana Holandesa (Suriname), Manaus, Belém, Natal e Salvador. Garrincha, por vias tortas infames, retornaria ao Estádio Juvenal Lamartine onde jogou em 1968 um amistoso pelo Alecrim (0x1) contra o Sport.

Enquanto o Flamengo desembarcava em Natal, no dia 8 de fevereiro, indo descansar no Grande Hotel, na Ribeira, bairro boêmio da cidade, o noticiário político explodia com a cassação do ex-governador Aluízio Alves pela Ditadura Militar, em ato do General-Presidente Costa e Silva, atingindo 33 políticos.

Garrincha, que ganhava um extra de 3 mil cruzeiros novos por partida,  formava num belo time. O Flamengo tinha dois jogadores internacionais de alto nível em sua defesa: o goleiro Dominguez, argentino com passagem pelo Real Madrid e o zagueiro paraguaio Reyes, de extrema categoria. Tão bom, que fora adiantado para a meia para os jogos em Natal. O uruguaio Manicera, titular da Celeste na Copa de 1966, também luzia no elenco rubro-negro.

O ABC perdera seu ídolo Alberi, que veio do Santa Cruz no ano anterior, explodira como craque e voltara ao tricolor. Retornaria em breve ao alvinegro.  Ainda não estava pronto o meia Esquerdinha, emérito driblador e criador de casos. O técnico Edmilson Piromba, prestigiado no Rio de Janeiro, pelo belo futebol jogado de volante pelo Fluminense,  lutava por reforços. A diretoria acenava com Jairo, atuando no Botafogo da Paraíba.

O Juvenal Lamartine estava simplesmente tomado na tarde de 9 de fevereiro. Jogo duro nos primeiros minutos até que aos 28 da etapa inicial, Jairo superou Manicera e o temível Onça e bateu seco, no canto direito do goleiro Dominguez.

Aos 11 minutos do segundo tempo, em trama de todo o ataque, o árbitro Afrânio Messias marcou pênalti a favor do Flamengo. Até a torcida do ABC gritou o nome de Garrincha. Ele, que ensaiara dribles velozes como num milagre, sobre a defesa alvinegra, cobrou sem tanta perícia. A impressão que se teve foi a de que o goleiro Floro não se empenhou em buscar a defesa:1x1.

O rubro-negro manobrou como quis no segundo tempo, seguindo as ordens do seu técnico, o estrategista Elba de Pádua Lima, o Tim, sufocando o ABC no meio-campo e marcando a saída de bola da defesa local, a cargo dos zagueiros Piaba e Babau, bons de rebotes e sem intimidade para lançamentos. No ABC, destaque para a raça de um atacante destemido e goleador: João Galego, que se tornaria bastante conhecido em 1969.

Aos 45 minutos, no finalzinho, Dionísio, o Bode Atômico, decretou a virada do Flamengo:2x1. Reclamação unânime dos vitoriosos quanto ao gramado. “É horrível”, sintetizou o autor do gol da vitória.

O Flamengo venceu com Dominguez; Murilo, Manicera, Onça e Paulo Henrique; Carlinhos, Liminha e Reyes(Cardosinho depois Dionísio); Garrincha, Luís Carlos e Arílson. O ABC perdeu com Floro; Batista, Piaba, Babau e Otávio; Arandir, Beto e Tonho Zeca; Babá(Izulamar), Jairo(Cocó) e Burunga. Técnico: Edmilson Piromba.

A tragédia  também se fez presente a ABC 1x2 Flamengo. Torcedor fanático do ABC, Manoel Pedro da Silva, 63 anos, assistia ao jogo do alto de uma mangueira por trás das arquibancadas do Frasqueirão do Juvenal Lamartine.

A árvore não suportou o peso de pelo menos oito pessoas em seus galhos que partiram. Manoel Pedro caiu, bateu com a cabeça no chão, sofreu traumatismo craniano e morreu no Hospital das Clínicas(atual Universitário Onofre Lopes), à época, o serviço de emergência da cidade.  

O Juvenal Lamartine receberia o Flamengo outra vez em 18 de dezembro de 1970. O rubro-negro disputava a Taça Roberto Gomes Pedrosa, equivalente ao Campeonato Brasileiro da época e, numa folga, aceitou o convite para enfrentar o ABC, campeão local.

A atração do Flamengo nem estava em campo. Era o truculento técnico Dorival Knipel, Yustrich, o Homão, famoso por disciplinar jogadores à base de espancamentos. Em 1969, Yustrich foi um dos responsáveis pela queda do então técnico da seleção brasileira, João Saldanha.

A antipatia de Yustrich começou a ser manifestada no aeroporto. Perguntou, em tom de menosprezo, se havia em Natal um hotel capaz de hospedar o Flamengo. Ao conhecer a beleza do Reis Magos, na orla marítima, não tocou mais no assunto.

O Flamengo trazia um jovem armador loiro e inteligente: Zanata,  maior aposta rubro-negra. Também estava na delegação o folclórico centroavante Fio Maravilha, desengonçado e imprevisível. Seus dentes incisivos proeminentes e a maneira trôpega de correr eram atrações à parte.

Na noite de sexta-feira, 18 de dezembro, o ABC – que havia perdido cinco dias antes para o Botafogo(RJ) por 2x0 – não viu a cor da bola. O público de 4.500 torcedores saiu decepcionado. O Flamengo liquidou o jogo brincando: 4x0, dois gols do meia Nei Oliveira, um do volante Liminha e outro do atacante Milton.

O ABC foi goleado com Erivan; Preta(Otávio), Edson, Josemar e Anchieta; William e Gonzaga; Maia (Erivan Segundo), Edvaldo Araújo, Alberi e Burunga, com o dirigente José Prudêncio Sobrinho improvisado de técnico. O Flamengo de Yustrich ganhou com Sidney; Murilo(Fred), Onça, Vânder e Rodrigues Neto; Liminha e Zanata(Chiquinho Pastor); Doval(Ademir), Fio Maravilha(Nei Oliveira), Milton e Caldeira. Técnico: Yustrich.

Já no Colosso da Lagoa Nova, o Castelão, dia 4 de outubro de 1972, o Flamengo pisou para sofrer com a maior atuação individual de um jogador nos 39 anos do estádio assassinado. Alberi, Deus de Ébano, amassou o Flamengo de Paulo Cézar Caju, Doval e de Renato, goleiro da seleção brasileira.

Em transe, para estupendo público de 32.707 pagantes, Alberi rebaixou o Flamengo a seus pés. Deixou transformada em pó a arrogância de Zagallo, menor que o próprio ego pelo tricampeonato no México e pela conquista da Mini-Copa naquele ano em que topou com Alberi. O Castelão foi uma das subsedes da Mini-Copa recebendo Portugal, do astro Eusébio, que seria vice-campeã perdendo para o Brasil de 1x0, gol de Jairzinho.

Alberi androide, Alberi enfeitiçado, Alberi fúria. Alberi arte. Zagallo berrava a cada finta do Negão sobre seus marcadores, o limitado Liminha e o talentosíssimo Zanata. Liminha ia de vez. Alberi dava o breque e o corte seco, humilhante. Arrematava o torpedo de pé direito. “Marca a direita desse homem”, desesperava-se Zagalo.

Alberi mudava o repertório. Bola dominada, só dele, partia para cima dos dois pobres vigilantes, Zanata chegou a ser substituído por Zé Mário e, então, dava o gancho para a esquerda e fuzilava de canhota. “Marca a esquerda desse monstro, ele chuta com as duas”, esgoelava-se Zagallo, contando com a elasticidade de Renato e a cumplicidade do travessão do antigo gol do placar do Castelão. Pura sorte, a bola não entrou e, pelo desempenho anormal, Alberi recebeu nota 10, decisiva para a conquista de Sua Bola de Prata.

O ABC do técnico Célio de Souza: Tião; Sabará, Edson, Nilson Andrade e Rildo; Maranhão, Danilo Menezes e Alberi; Libânio, Petinha(Everaldo) e Soares. Flamengo: Renato; Moreira, Chiquinho Pastor, Tinho e Mineiro; Liminha, Zanata(Zé Mário) e Humberto; Vicentinho, Doval e Paulo Cézar Caju.  Reza a lenda urbana, jamais constatada, que Paulo Cezar despejou no sanitário do Hotel dos Reis Magos, a camisa de Alberi, trocada pela do Flamengo após o jogo. Um fato que ninguém jamais comprovou. Nem Alberi disse nada sobre o assunto.

Tragédia
No trecho desolador do filme sobre a história de Zico, ele está caminhando na praia com Geraldo Assoviador, seu companheiro de clube e um solista de meio-campo. Zico e Geraldo formavam a dupla-sensação do futebol brasileiro em 1976. Jogavam juntos desde os juvenis e Geraldo era conhecido como o “ïrmãozinho preto” de Zico. Os dois, interpretados por figurantes de talento duvidoso, sentam na areia e refletem num exercício premonitório. O filme é uma coletânea de gols e uma tentativa de documentário de baixo nível  vendido   em 2003,  encartado na Revista Placar.

Geraldo deita, cruza as mãos na cabeleira Black Power, olha ao infinito numa tristeza destoante do seu estilo de jogar como pássaro, brincando, circulando por entre adversários aos dribles. Geraldo diz a Zico, mais ou menos assim:

Arquivo
No ano de 1977 o Alvinegro voltou a encarar o time carioca

No ano de 1977 o Alvinegro voltou a encarar o time carioca



Flamengo: Cantarele; Toninho, Rondinelli(Vanderlei Luxemburgo), Nelson e Júnior; Carpegiani, Adílio e Zico; Osni, Cláudio Adão e Luís Paulo. ABC: Hélio Show; Orlando, Pradera, Cláudio Oliveira e França; Baltasar, Moreno e Maranhão Barbudo(Paulo César Cajá); Gilvan, Santa Cruz(Zezinho Pelé) e Noé Macunaíma.

É a história emocional de ABC x Flamengo. Que não mais se enfrentaram com frequência com a separação dos clubes por divisões. Houve jogos pela Copa do Brasil na década de 2000, mas sem a magia e a dramaticidade dos confrontos anteriores (RLF).

Essa é a primeira de uma série de reportagens sobre o duelo. A rádio Jovem Pan News Natal e a TN estarão ao vivo no Maracanã para acompanhar o jogo da Copa do Brasil.

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