Abimael Silva e seu Sebo Vermelho

Publicação: 2020-02-18 00:00:00
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Tiago Gonzaga
Escritor

Antes de conhecer a literatura produzida no Rio Grande do Norte, conheci uma figura emblemática das nossas letras, Abimael Silva.  Eu era adolescente, gostava de assistir ao programa do Jô Soares, e numa dessas ocasiões, eis que surge como entrevistado um nordestino, potiguar da cidade de Várzea, radicado em Natal há vários anos, dono de um dos mais tradicionais sebos da capital, editor de um selo que leva o mesmo nome: Sebo Vermelho.

Há trinta anos editando livros, com mais de 500 obras publicadas, Abimael Silva já deu significativa contribuição não apenas à nossa literatura, mas à própria cultura livresca nordestina e por que não dizer brasileira, por ser um caso inédito no pais: além de sebista e editor, Abimael Silva possui uma biblioteca particular com muitas raridades, digamos que é bibliófilo, também.

Mas, voltando à entrevista dada a Jô Soares, foi uma das mais irreverentes que já assisti naquele programa, Abimael Silva, muito à vontade, parecia conhecer Jô Soares desde muito tempo, a conversa fluiu muito bem, e ainda sobrou tempo para Abimael ensinar como preparar caranguejo para o famoso entrevistador, o que gerou muitos risos na plateia.

Nascido em 13 de maio de 1963, Abimael Silva deixou a estabilidade de um emprego formal, para abrir um sebo na década de 1980, época  em que só existiam a livraria Universitária, a Clima e a livraria da Cooperativa Cultural na UFRN. E sebos apenas o de Jácio e o Cata Livros de Benjamim Capistrano. Abimael resolveu vender seus poucos livros, esperando que o seu empreendimento desse certo. O Sebo começou em uma cigarreira (banca de revista), na Rua Vigário Bartolomeu, ao lado do Edifício 21 de Março. Abimael  pintou-o de vermelho e assim nasceu o Sebo Vermelho.

Pouco tempo depois da abertura, já começou a publicar livros com a sua marca, colocando o título da coleção de livros “João Nicodemos de Lima”. Nicodemos foi o primeiro sebista do Rio Grande do Norte. Natural de Goianinha, teve um sebo na Ribeira, de 1932 a 1974.

Tudo começou quando Abimael comprou a biblioteca de Clodomil Cabral da Trindade. Um dos primeiros lançamentos da Editora surgiu  com a ideia de reeditar o livro “Poetas do Rio Grande do Norte”, de Ezequiel Wanderley, obra extremamente importante para a nossa história literária. Reeditou em co-edição com a Editora Clima.  O livro chegou a ser resenhado no Jornal do Brasil, como o livro de poesia do mês. Esgotou em pouco tempo, hoje é uma obra raríssima. Todavia, o posto de primeiro livro publicado pela Editora Sebo Vermelho é do poeta e escritor Anchieta Fernandes, “Écran Natalense - Capítulos da História do Cinema em Natal ”, obra também esgotada e rara.

Abimael Silva, além de editor, organizou também vários livros, dentre eles, “O Guia dos Sebos de Natal e Textos Afins” 1997. Quando recebeu o título de Cidadão Natalense, em 2003 lançou uma plaquete intitulada “Natal e Eu”. Em 2007 organizou “As 14 Mais da Poesia Potiguar”, que podemos chamar de primeira antologia da poesia feminina no Estado. Em 2011 preparou “Lembrando José Helmut Cândido”, uma pequena seleção de textos sobre Helmut, um leitor e amigo do Sebo Vermelho, que sabia tudo sobre Nietzsche e Schopenhauer, e que, curiosamente, foi carteiro de Cascudo.

 Sempre atuante e dinâmico, Abimael também criou o Jornalzinho do Sebo Vermelho, fundado no início dos anos 90, periódico que contribuiu muito para difusão da nossa literatura, e foi a última publicação dos anos oitenta que circulou até o começo do século XXI, 2004.  Saíram cinquenta e cinco números sem nunca ter usado nada do poder público. Abimael é um herói, um guardião da nossa cultura literária, já publicou centenas de autores potiguares, do passado e do presente.

Na maioria das vezes, está ali, na Avenida Rio Branco, sentado em sua cadeira, em pleno centro da cidade, em meio a amigos, livros e estantes, com cerca de trinta mil títulos, dentre estes, mais de dez mil dos autores potiguares. Abimael, já recebeu título de cidadão natalense, como já dissemos, gravou inúmeros outros programas televisivos, além do Jô; também já deu dezenas de entrevistas, já participou de inúmeras feiras e eventos com sua editora, além de distribuir seus livros praticamente em todo Rio Grande do Norte e em várias partes do Nordeste.

Em 2011, anos depois de ter assistido aquela entrevista com Abimael Silva no Jô Soares, tive a felicidade de conhecê-lo pessoalmente. Foi quando eu já estava graduado em Letras e com uma considerável biblioteca de autores potiguares, muitos inclusive editados pela Editora Sebo Vermelho. Na ocasião procurei Abimael para lhe falar de um projeto; um livro em comemoração aos 50 anos de atividades literárias de Nei Leandro de Castro. Entusiasmado, Abimael topou de imediato e não mediu esforços para que o livro fosse publicado e da melhor forma possível.  Ano passado, tivemos a felicidade de levar Abimael Silva, no projeto social Caravana de Escritores Potiguares, para dar uma palestra aos alunos de uma escola do seu município, Várzea, foi um momento marcante, para todos nós. O bom filho à casa retorna, e de forma memorável, na ocasião ele foi ovacionado pelo varzeanos, pela sua história de vida, seu empreendedorismo e simplicidade, que o tornam uma personalidade marcante da nossa historiografia literária.






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