Academia de anti-heróis

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
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Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

São dezenas os personagens dos quadrinhos e do cinema a tirar o sossego dos seus antônimos e dos leitores e espectadores de boa vontade. Tenho uma fidelidade de culto aos super-heróis e aos mocinhos que se estende desde os anos sessenta do século passado. Portanto nunca fui de simpatizar com os caras do contra, exceções feitas ao Namor, o primogênito da Marvel, ao pistoleiro Ken Parker, Pica-Pau e ao Blue, papel de Terence Stamp em 1968.

Alguns arquétipos de anti-heróis que conquistaram milhões de admiradores, nunca me sensibilizaram, como são os casos de verdadeiras lendas como Wolverine, Deadpool, Motoqueiro Fantasma, Spaw, Constantine e até mesmo a sensualíssima Mulher Gato, que talvez não tenha me encantado porque minha queda afetiva sempre foi pela galeguinha filha do comissário Gordon e que saía pela noite fantasiada de Bat Girl surrando bandidos e dando ciúme no Robin.

Confesso mesmo que minha empolgação com os clássicos de quadrinhos Watchmen e V de Vingança, sucesso estrondoso na galáxia, não foi na dimensão da legião de fãs que eles estabeleceram nas revistas e nas telas.

No entanto, mais ou menos em 2010, uma amiga paulistana veio curtir o verão de Natal e me trouxe The Umbrella Academy, uma edição com as desventuras de um grupo de sete garotos superpoderosos e órfãos, lançada 2 anos antes.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a participação brasileira na obra, com as ilustrações a cargo do paulista Gabriel Bá, um dos caras mais premiados do País com trabalhos de alcance internacional, como aquele.

A temática apocalíptica e os poderes extravagantes dos irmãos eram meio que muito divergentes dos superpoderes embasados na “parascience” que eu lia e via nas narrativas Marvel e DC, a que eu estava acostumado desde criança.

Mas o tempo passou, uma década depois, e eis que The Umbrella Academy ganhou versão televisiva, uma série chancelada pela Netflix, e lá fui eu experimentar a nova linguagem, a nova abordagem e os efeitos especiais.

Bingo. Os cinco garotos e as duas meninas me fisgaram com suas trapalhadas e crises de ansiedade, de paranoia, de birra, com os conflitos de afeto e de sociabilidade e, principalmente, com as fugas e voltas pelo espaço-tempo.

Vi a primeira e a segunda temporadas em ritmo de maratona, de um fôlego só – evidentemente em momentos distintos quando dos seus lançamentos. Nem diria que são anti-heróis, mas super-heróis pelo avesso, como o velho Namor.

Criados por adoção pelo estranho senhor Reginald Hargreeves, os irmãos Hargreeves são na verdade tendencialmente azarados com suas bondades internas que aos olhos do mundo parecem mais maldade com superexposição.

A primeira temporada acabou com um apocalipse que o time imagina causado por ele próprio, e cabe ao número 5 (o volante que viaja pelo tempo) salvar a família fugindo para outra época, no caso o passado dos loucos anos 1960.

Mas o salto divide-os em anos diferentes, uns em 1963, um em 1960, outro em 1961 e mais um em 1962, o que os faz esperar o tempo correr para que todos estejam num mesmo lugar e circunstância. Só que o apocalipse os seguiu.

Pelo menos é o que todos os numerados irmãos acham, baseados no poder ilimitado da garota mais jovem, que está desmemoriada na década das viagens lisérgicas. Nada mal para o gay drogado que carrega a alma do irmão morto.

No último segundo, enquanto JFK toma um tiro, eles escapam de outro apocalipse, causado por ogivas russas, e fogem para um futuro distópico, onde os aguarda o pai que comanda outra academia. Sete garotos e um novo destino nos espera na terceira temporada. Que venha logo.