Academia e indústria buscam sintonia

Publicação: 2014-05-25 00:00:00
Qualificação, requalificação, especialização... Essas palavras estão entre as mais citadas, hoje, em qualquer discussão que envolva a expansão e implantação de projetos de energia eólica no Brasil. O desafio é grande: o mercado  sofre com a falta de pessoal qualificado para desenvolver os projetos e a academia e institutos de formação de mão de obra tentam se adaptar para garantir quantidade e qualidade no ensino nessa área nova e ainda pouco explorada no Brasil. “Na verdade, temos que reconhecer... é uma área muito nova. Mas, tenho certeza que a academia vai dar a resposta esperada ao mercado”, diz o professor aposentado da UFRN, Wilson da Mata, que agora trabalha com o desafio de implantar no RN o Instituto Senai de Inovação – Energias Renováveis, que será o único entre os 25 que estão sendo criados pelo ‘Sistema S’ para desenvolver pesquisas e impulsionar a formação de mão de obra especializada  para o setor. “Há um fosso entre as áreas acadêmicas e a indústria em geral no Brasil. Mas vamos trabalhar forte para encurtar essas distâncias e ajudar a formar o profissional e pesquisador que o setor merece”, afirma.

A expansão acadêmica voltada para a área de energias renováveis está longe de acompanhar a dinâmica do setor no Brasil. Hoje, segundo dados publicados no site do Ministério da Educação, há apenas 12 cursos de graduação específicos para a área de energia eólica. Maria do Carmo Martins Sobral, pós-doutora em Tecnologia Ambiental, professora da UFPE e membro da Capes, reconhece o desafio da academia para atender essa demanda de profissionais e afirma que “as ações ainda têm se restringido às áreas das engenharias”.

Wilson da Mata ressalta  que as mudanças curriculares de universidades não ocorrem na mesma velocidade que as transformações do mercado. “É assim em qualquer área... Educação não é uma produção em série. Mas, o importante é que a academia consiga acelerar a resposta para os setores importantes da economia. E esse processo - para as energias renováveis - tende a acelerar muito de agora em diante”, argumenta.

Esse descompasso entre a velocidade de crescimento econômico e qualificação de especialistas  não chega a impedir o desenvolvimento da industria eólica, mas atrasa e encarece projetos. O diretor executivo da BioConsultants, Hugo Alexandre, afirma que praticamente ‘forma’ todos os seus profissionais. A consultoria atua no licenciamento de projetos eólicos em cinco estados (RN, CE, PE, BA e PI) e tem hoje cerca de 50 funcionários (entre fixos e temporários).

São profissionais como biólogos, arqueólogos, geógrafos, geólogos, engenheiros e administradores que receberam das universidades pouca qualificação específica  para a área que hoje atuam. “Os alunos saem das faculdades sem a mínima condição de atuar no mercado de trabalho. Os alunos são formados para o meio acadêmico, não para o mercado”, analisa Hugo Alexandre.

O tecnólogo em Petróleo e Gás, Luciano Medeiros, corrobora com essa opinião: “O que aprendi na área de eólica, aprendi na marra, aprendi fazendo, já atuando no mercado”, revela. Luciano hoje faz uma especialização em Petróleo e Energias Renováveis e atua na BioConsultantes como gerente  de logística. Entrou na empresa como estagiário e já recebeu diversas promoções. Mesmo confirmando a pouca noção de prática profissional adquirida na academia, ele ressalta: “A universidade nos dá a chave... mas é preciso saber qual porta abrir no mercado de trabalho”.

Sem Fronteiras

Além da formação, há escassez também da pesquisa para a área de energia eólica. Dados publicados no site do programa Ciência Sem Fronteiras revelam que, das mais de 50 mil bolsas de graduação e pós-graduação que já foram liberadas para estudantes universitários, apenas 1,2% (630 bolsas) são para pesquisas nessa área. Das 630 bolsas distribuídas para a área no País, apenas sete (7) foram para estudantes potiguares. Isso representam menos de 0,6%  do total de bolsas distribuídas nas universidades do RN.

CTGaS-ER

O CTGAS-ER tem como meta se transformar em referência nacional e internacional na formação de mão de obra na área de energias renováveis, com ênfase para a indústria eólica. Para isso a escola vem tentando ultrapassar um dos maiores desafios desse setor de formação: encontrar professores com conhecimento específico. “Como a área é nova, temos que capacitar, também, os formadores, os professores para esse setor bastante específico e ainda novo em nossa indústria. E como esse mercado tem pressa, precisamos oferecer essa capacitação em paralelo à formação de mão de obra”, explica a diretora Executiva do CTGAS-ER, Cândida Amália Aragão de Lima. Para tentar expandir o conhecimento no setor eólico e capacitar os formadores, o CTGAS enviou professores especialistas para aperfeiçoamento na Alemanha. O centro oferece cursos técnicos presenciais e a distância, voltados para a área de energia eólica. Mas também já formou uma turma de pós-graduação (especialização lato sensu em energia eólica) com quarenta alunos graduados em Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica, Engenharia Civil e áreas afins.

John Edward Neira Villena - pesquisador e professor CTGAS-ER

Foi observando esse novo campo de atuação acadêmica que o engenheiro mecânico, especialista em petróleo e gás e doutor em materiais compostos, o peruano John Edward, enveredou pela área de energias renováveis.  Após a especialização, e com objetivo de aprofundar conhecimento, foi enviado pelo CTGAS-ER para um intercâmbio na Alemanha. Embora esteja de partida para outro Estado, vai continuar dando aulas a distância.

Aldemir Maia da Silva - especialista em eólica

Após o primeiro curso técnico na área de gás natural, ele concorreu com mais de 500 alunos e conseguiu uma das vagas de especialização técnica em energia eólica. Aldemir ainda não conseguiu vaga no mercado de trabalho das eólicas. “Todas as empresas perguntam: você tem experiência? Não, tenho qualificação”. Mas ele diz que não vai desistir. “Serei um profissional dessa área. Quero isso, estudo para isso e vou conseguir”.

Pedro Alves - pedreiro, estudante e ex-agricultor

O pedreiro e ex-agricultor Pedro Alves de Souza, 35, faz curso de almoxarifado, mas já prepara um passo maior: “Quero fazer curso de eletrotécnica”, diz. A busca por qualificação é inspirada nas oportunidades que “invadiram” o município de João Câmara com os projetos de eólica. “É importante me profissionalizar porque o que vale não é dizer eu conheço, mas ter um papel para mostrar que estou qualificado”.

Kaline Fernandes - estudante do IFRN

Nasceu e cresceu em João Câmara, onde a agricultura e o comércio são as principais opções de emprego. Para tentar carreira no setor de energia, aposta em um curso de tecnólogo em Energias Renováveis que funciona desde 2012 no município – um dos polos que mais atraem investimentos em energia no RN. A expansão do setor pesou, mas não foi o único chamariz para a estudante. “O salário no mercado também é bastante atrativo”.

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