Acari: quando o rio Acauã corria debaixo da ponte

Publicação: 2017-04-23 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

A caatinga do sertão seridoense foi a primeira visão de mundo de Titina Medeiros. “A caatinga é misteriosa. Ela morre e renasce todo ano. Temos muito que aprender com ela”, conta a atriz, grande nome do teatro potiguar. Aos 39 anos, reconhecida nacionalmente por seus papeis tanto no teatro quanto nas novelas da Globo – “Cheias de Charme”, “Geração Brasil” e a mais recente “A Lei do Amor” -, Titina lembra com carinho de suas origens, em Acari, quando desbravava o sertão com os amigos, em cima de jumentos, fazendo piquenique, contemplando a vegetação rural e nos banhos de rio Acauã, ou pulando corda na biblioteca pública – um de seus espaços prediletos da infância.

“Meu lugar no mundo é minha geografia humana. Mas esse corpo foi forjado em Acari. Eu sou uma pessoa sertaneja. Sou seridoense de pai, mãe, avós. Se eu tenho um lugar do mundo, é o Seridó”, diz a atriz, cujos primeiros passos na arte foram dados na pequena cidade do semi-árido potiguar.
Na tv, no teatro ou no audiovisual, Titina deixa sua marca de talento e simplicidade
A atriz vive em Natal desde a década de 90, mas não deixa de visitar sua terrinha. Às vezes o trabalho não deixa, mas a ideia é sempre estar presente no mês de agosto, quando acontece a festa da Nossa Senhora da Guia, padroeira da cidade – momento de fé e encontro que emociona a atriz.

Para ela, a cidade perdeu pouco do espírito de anos antigos. Mas as casas ainda são do mesmo jeito, a escola, a igreja, tudo está no mesmo lugar. Maria Benta, sua madrinha que tanto a incentivou na arte, ainda vive na cidade, assim como a Muda, figura conhecida dos acarienses, que não envelhece nunca. No entanto, de tantas coisas permanentes, uma a preocupa bastante: A desertificação do bioma da Caatinga. O problema tem avançado muito e permanece sem solução.

Crescer no Sertão

Na infância o Rio Acauã ainda corria debaixo da ponte. As mulheres iam lavar roupa e a gente ia junto tomar banho de rio. Na chuva, a gente ia à pé para o Gargalheiras, com a meninada. Fazíamos piquenique, levávamos bolo, nada rebuscado. Também íamos para o Poço do Felipe tomar banho. Tinha os sítios da família. Éramos crianças rurais, que andávamos de cavalo, de jumento, colhíamos algodão, não como profissão, mas como brincadeira na época da colheita. Apanhávamos algaroba para alimentar o gado. A gente explorava a vegetação, saia pra pegar rolinha.

Festa da Padroeira

A coisa mais esperada do acariense é a festa Nossa Senhora da Guia, a padroeira que alumia os caminhos. Agosto é quando todos os filhos de Acari retornam. E se não dá pra voltar, você lembra que no dia 5 de agosto, em Acari, está começando a festa, e no dia 15, em determinada hora você sabe que sairá a procissão. É uma coisa muito forte pra nós e me emociono em lembrar.

Saudades

Em cidade pequena tudo é muito comemorado, São João, Dia das Crianças, Natal. O sertão tem uma coisa muito bonita. Ele é muito melancólico e ao mesmo tempo muito festivo. Sei que aqueles anos não voltam mais. Foram tantos dias de alegria, que tenho saudade, mas uma saudade boa, de agradecimento, de gratidão pela minha infância. A melancolia e a festividade moram juntas dentro do sertanejo.

Um lugar especial é...

Uma coisa que me marcou muito foi a biblioteca pública de Acari. Antes de lugar de livros ela foi cadeia e hoje é o museu da cidade. Na juventude frequentávamos o espaço todos os dias. Era nosso lugar de pular corda, contar histórias, estudar, trocar livros. A biblioteca era uma praça, de tão vivo que era. Quem tomava conta do espaço era Corrinha. Ela faleceu há um ano e meio. Era muito querida. Seu espírito doce, agregador, era o que fazia com que a meninada sentisse que a biblioteca fosse mais que uma biblioteca, mas um espaço diversão.

Acari de hoje

Na forma prática a cidade mudou muito. Mas a essência está preservada. O acariense tem uma coisa muito bonita, ele cuida da sua cidade, das suas pessoas. Isso ainda existe lá. Acari é simples, não tem muito dinheiro, mas se você for no museu o verá limpo, no abrigo dos velhos tudo está bem cuidado, no hospital as pessoas são bem atendidas. É uma cidade que se socializa muito bem, até hoje.

O passado ainda está presente
A casa onde cresci, a escola, a igreja, continuam do mesmo jeito. Meus vizinhos de rua, tios, meus primos, músicos da época que toquei na Banda, muitos ainda estão lá. Maria Benta, minha madrinha que me colocava para me apresentar no teatro, no pastoril, comprava roupa pra mim, me estimulava, está lá até hoje. Assim como a Muda. Ela é conhecida em toda a cidade, pegava comida de porco lá em casa. Fico impressionada, sempre que vou na cidade vou no abrigo dos velhos e ela está lá, não mudou nada, não envelhece, está com a mesma energia.

Alguém especial

Se tem uma pessoa que me conhece, essa é a minha amiga/irmã Guia Dantas (ex-repórter desta TRIBUNA DO NORTE). A gente é vizinha desde criança. Arengamos a vida inteira, mas nunca nos desgrudamos. Fizemos muitas coisas juntas, desde aprender a ler, brincar no sítio, fazer faculdade, viver a época de namoro. Fora minha família, ela é uma pessoa que carrego forte em mim.

Um bom lugar para conhecer

O Mercado Municipal é bem pequenininho, mas vale a visita pra comer uma galinha, um bode com cuscuz, depois de um festa, no café-da-manhã. Adentrar na zona rural e contemplar a caatinga, o Bico da Arara, o Gargalheiras é outra coisa legal de ser feita. A caatinga é misteriosa. Ela morre e renasce todo ano. Foi minha primeira visão do mundo. Temos muito que aprender com ela. Ariano Suassuna falava que a zona da mata tem a beleza graciosa, mas o sertão tem a beleza do grandioso, do misterioso. Acho isso incrível.

Faz falta em Acari...

Falta um festival de Teatro. Mas não só isso. O que precisa no Seridó é um maior cuidado com a Caatinga, que sofre com a desertificação. É uma questão antiga e não vejo nenhuma atitude efetiva quanto a isso. É um problema que ocasiona a seca. Não se chove, nas se planta. Dá uma tristeza muito grande ver as coisas morrendo porque não tem mais água. É preciso se preocupar com essa questão sim, tanto população, quanto Estado.

Colaborou: Cinthia Lopes, editora

continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários