Acervo do Arquivo Público se degrada a cada chuva

Publicação: 2018-03-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Um vídeo compartilhado recentemente nas redes sociais escancarou a situação precária do Arquivo Público do Estado. Gravado durante as últimas chuvas que caíram em Natal no mês de fevereiro, o vídeo mostra um fluxo de água tão grande caindo de um buraco do teto que não dá nem para chamar de goteira, mas de cachoeira mesmo. A água caía num dos corredores do prédio e era escoada por meio de uma calha improvisada.

Uma calha improvisada foi feita para abrandar os estragos das chuvas. No teto, há furos que se somam aos grandes buracos no gesso. Também há mofo em algumas paredes
Uma calha improvisada foi feita para abrandar os estragos das chuvas. No teto, há furos que se somam aos grandes buracos no gesso. Também há mofo em algumas paredes

Ao verem as imagens, alguns historiadores locais se mostraram bastante preocupados com as condições de armazenamento do valioso acervo de 300 mil itens referentes a memória potiguar – diários oficiais, livros, fotografias, revistas, documentos de órgãos estatais extintos, demonstrativos financeiros, leis e decretos governamentais, dentre outros.

Na manhã de ontem (12) a reportagem do VIVER foi ao Arquivo Público, localizado na Avenida Coronel Estevam, no Alecrim, e pôde observar a gravidade do prédio logo na entrada. A calha improvisada ainda continua no local. Feixes de luz no chão evidenciam pequenos furos no teto, que se somam a grandes buracos no gesso. Também há mofo em algumas paredes. Na parte do acervo não há sinais de umidade – o local é extremamente quente. Os documentos mais antigos e frágeis estão numa sala isolada.

De acordo com a Secretaria de Administração e dos Recursos Humanos (Searh), responsável pelo Arquivo Público, o acervo está preservado. “O acervo está protegido das chuvas e não foi atingido. Não registrou-se perda de documentos”, informou em nota a assessoria do órgão. Ainda segundo a nota, a secretaria já realizou diversos reparos no prédio ao longo dos 14 anos em que o Arquivo Público está ali instalado, mas o local não atende mais as necessidades do Arquivo e um novo imóvel está sendo procurado para servir de sede.

Claudio Galvão se deparou com jornais da República encharcados
Claudio Galvão se deparou com jornais da República encharcados

“Está aberto um processo para locação de novo imóvel. Atualmente estamos realizando pesquisa de mercado com pedido de cotação de imóveis que atendam as especificações que o Estado necessita. Estamos aguardando retorno, uma vez que foi estabelecido prazo de cinco dias para apresentação de propostas”, explica a Searh.

Pesquisador, escritor e professor aposentado da UFRN, Cláudio Galvão conhece à fundo os problemas do local. Ele esteve à frente da coordenadoria do Arquivo Público entre meados de 2013 até novembro do ano passado. Preocupado com a situação do acervo, chegou a visitar o Arquivo no dia posterior às fortes chuvas. “O prédio vem se degradando ano a ano e não há manutenção. Já imaginava que com aquela chuva haveria grandes problemas”, comenta.

Embora a Searh afirme que nenhum documento foi atingido com as chuvas, Galvão conta que encontrou alguns documentos raros molhados. “Um volume com exemplares do jornal A República ficou encharcado. São jornais de 1889, com folhas muito delicadas”, diz o escritor. Ele ressalta outro ponto importante “Não só o lado da história do Estado corre risco de se perder naquele prédio. Mas o da documentação do funcionalismo público também. Há materiais que se deteriorados podem prejudicar a aposentadoria de alguém, por exemplo”, alerta.

Após recente temporal, funcionários improvisam uma canaleta
Após recente temporal, funcionários improvisam uma canaleta

O historiador Rostand Medeiros é outro que utiliza o Arquivo Público para pesquisas há um bom tempo. Desde 2005 ele acompanha a batalha dos funcionários para conseguir uma solução para o local. Em seu perfil no Facebook ele reflete sobre a gravidade da situação. “Para muitos políticos a melhor maneira de conduzir seus eleitores como se fosse gado ocorre quando esse povo não tem nenhuma noção sobre a História e a formação do seu lugar. Como resultado desse desconhecimento o povo dessa terra acaba por não ter muito orgulho do seu lugar, de suas tradições e de sua herança cultural”, escreveu o historiador. E conclui: “No final esse povo acaba sem saber quem ele realmente é, de onde veio e a razão do porque está aqui“.

O que
O Arquivo Público Estadual possui 180 m2 em um prédio onde funcionou um supermercado Superete Queiroz, no Alecrim. O acervo está há 14 anos neste prédio.  Abriga e300 mil itens referentes a memória potiguar, entre diários oficiais, livros, fotografias, revistas, documentos de órgãos estatais do Rio Grande do Norte extintos, demonstrativos financeiros, leis e decretos governamentais, dentre outros.

Detalhes
O espaço está lotado de documentos de variadas espécies — textuais, cartográficos e iconográficos. Destacam-se, entre muitos outros, os Ofícios e Relatórios sobre os índios de Extremoz do século XIX (1822), edições do Jornal A República de 1889, fichas e dossiês do extinto DOPS referente à Intentona Comunista no Rio Grande do Norte e ao período do Regime Militar, além e correspondências originais, do século 19, trocadas entre Nísia Floresta e Isabel Gondim.


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