Acervos digitalizados e aplicativos motivam busca pelos ancestrais

Publicação: 2018-08-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter
Colaborou: Cinthia Lopes
Editora

A busca pela identidade é uma pauta atual que necessita do passado. A genealogia, ciência que auxilia a história no estudo sobre origens familiares, é um elemento fundamental nesse processo. A pesquisa costuma ser trabalhosa e dificultada pela antiguidade das fontes, mas está contando recentemente com o auxílio da internet para tornar a procura menos difícil, através de sites e redes sociais específicas. A figura do genealogista é importante para conduzir a elaboração da árvore genealógica, mas toda pesquisa é uma iniciativa pessoal.

A genealogia, ciência que auxilia a história no estudo sobre origens familiares, está mais em alta do que nunca
        A genealogia, ciência que auxilia a história no estudo sobre origens familiares, está mais em alta do que nunca


Todo estudo genealógico parte de uma curiosidade sobre as próprias origens. Foi assim que o analista de sistemas Paulo Victor de Oliveira Egito mergulhou em sua ancestralidade e hoje se declara um genealogista autodidata. “Sempre tive curiosidade de conhecer meu passado e saber como meus ancestrais atravessaram a história até chegar ao meu nascimento”, diz. Ele começou há apenas dois anos e meio, já elaborando uma árvore genealógica com todos os trisavós e quase todos os tetra e pentavós.

Árvores na rede
A internet teve um papel essencial no estreitamento entre passado e presente. Foi através do 'FamilySearch', um site de origem Mórmon norte-americana que arquiva dados antigos familiares de todo o mundo, que Paulo Victor pôde iniciar sua pesquisa. O site dispõe de livros de cartórios e igrejas digitalizados para consulta online, além de um buscador.

Outros sítios digitais recomendados são o 'MyHeritage' e 'Geni', onde também se encontram árvores públicas construídas por muitas pessoas. Todos esses sites possuem aplicativos para que se possa ver a árvore pelo celular.

Páginas em redes sociais também ajudam os pesquisadores. No Facebook vários grupos de discussão com milhares de membros, nos quais se pode deixar dúvidas e receber a orientação de estudiosos mais experientes. “No grupo 'Genealogia FB', por exemplo, as pessoas se ajudam mutuamente a transcrever documentos antigos com aquelas letras quase ilegíveis e rasuradas”, ressalta.

Uma fonte que também faz a alegria dos pesquisadores é a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional, composta por milhares de jornais antigos digitalizados, com reconhecimento de textos para buscas – está no site 'bn.br'. O material de cartórios e fóruns digitalizados é outro elemento que enriquece as buscas dos genealogistas. “Os livros digitalizados disponíveis na internet possibilitam a pesquisa de registros de qualquer lugar do país sem precisar sair de casa ou ligar para um cartório requisitando  - o que inclusive custa dinheiro -  registro por registro de dezenas de pessoas”, diz.

Pergunte à vovó!
Antes de recorrer a arquivos seculares ou sites de busca, a pesquisa genealógica tem um ponto de partida bem fácil: pais e avós. “É a melhor maneira de começar. Fale com os mais velhos, e veja seus documentos. Na certidão de nossos pais, encontramos o nome de nossos bisavós, na certidão dos avós, o de nossos trisavós. É importante também colher os nomes dos irmãos de nossos ancestrais, pois em alguns casos avançamos uma geração encontrando documentos de um irmão”, afirma. Só a partir daí procura-se os cartórios e igrejas.

“Geralmente os cartórios cobram para procurar, e cobram para emitir a cópia do documento. O preço varia de cartório para cartório. Esses contatos passaram a ser menos necessários de uns anos pra cá, quando livros passaram a ser digitalizados e disponibilizados na internet, geralmente de forma gratuita”, explica Paulo Victor.

Mesmo com os documentos em mãos, as dificuldades são várias. Os documentos podem estar rasurados ou rasgados, e nem sempre oferecem todas as informações, como o local exato de nascimento do ancestral procurado. “Em certos casos, os pais não eram casados, e assim a criança não era registrada  como legítima, mas 'natural'. Essas crianças apareciam sem o nome do pai”, conta.

Os registros em cartório no Brasil só foram obrigatórios a partir de 1889. Antes disso, os melhores registros vinham dos livros de batismo/nascimento, casamento, enterro, inventários de bens, e doações de sesmarias (terras). “A principal fonte de informação antes da República é a igreja. Só no FamilySearch encontramos registros desde 1700. Uma fonte alternativa à igreja são os inventários e testamentos, nos quais geralmente há nomes de filhos e netos. Infelizmente esses documentos são pouco encontrados online, sem falar que não era todo mundo que podia fazê-los”, explica.

História e sociedade
A genealogia também levanta questões históricas e sociais, como o apagamento do negro e do índio nesse processo. Escravizados e dizimados durante a colônia e o império, é um segmento difícil de ter sua ancestralidade levantada. “Os negros ao serem trazidos para as Américas tinham nomes e história perdidos. E seus descendentes nascidos aqui nem sempre eram registrados.  Já os negros e índios livres faziam parte da população mais pobre, que geralmente não aparece em livros de genealogia e não tinham dinheiro para batismos e casamentos – apesar de existirem poucos registros”, diz.

Sem constar nos livros, alguns descendentes de africanos e ameríndios têm recorrido à genealogia genética, em que um exame de DNA informa as porcentagens de cada etnia do indivíduo através da composição genética. O exame também mostra uma lista de pessoas que possuem trechos de DNA semelhantes e estima o grau de parentesco entre elas. Em alguns sites se pode encomendar um kit de coleta de saliva, levado a um laboratório no exterior. Infelizmente, o processo ainda é caro e burocrático.

Mais do que uma lista de nomes antigos, o estudo genealógico também oferece curiosidades. Paulo Victor conta ter encontrado um ancestral encrenqueiro que viveu pelos anos 1800, envolvido em brigas, conflitos e até mortes. Encontrou ainda um parentesco com Bárbara de Alencar (irmã de duas heptavós suas) que participou da revolução de 1817, e que também era avó do escritor José de Alencar. “Até descobri pelo DNA de meu pai, que vem de uma família branca, uma ancestral materna negra. Encontrei histórias tristes, histórias bonitas e até uma poesia escrita por um funcionário emocionado em um antigo livro de óbitos”, conta.

Casos de família
O professor universitário aposentado João Felipe da Trindade já lançou cinco livros dedicados à genealogia potiguar, em oito anos de pesquisas. O ponto de partida, claro, foi o interesse em descobrir as ascendências de sua numerosa família. “Comecei para tirar minhas próprias dúvidas familiares, e não parei mais”, conta ele, que iniciou as pesquisas na ancestral Angicos. “Parti de um livro antigo do Aluízio Alves sobre Angicos. Já havia um trabalho genealógico por ali. Depois fui às igrejas, as melhores fontes”, conta ele, que atravessou Santana do Matos, Assu e Macau para pesquisar.

O material apurado por João Felipe foi além dos laços de família e se espalhou por variadas histórias do Rio Grande do Norte. As pesquisas do professor viraram textos publicados no jornal Dois Pontos, e logo precisaram ir para a internet, já que não cabiam mais nas páginas do periódico. Primeiramente no blog Utinga, e depois no Hipotenusa. A repercussão online foi imediata.

Historiadores Olavo de Medeiros Filho e Hélio Galvão também se dedicaram a pesquisar sobre origem de famílias. São deles, respectivamente, os livros “Velhas Famílias do Seridó” (ed Sebo Vermelho) e “Velhas Heranças” (Funcarte, 2013).

FamilySearch em Natal
“Muita gente viu meus textos e passou a querer saber mais sobre suas famílias também. E me enviavam sugestões pelos comentários. Não todas, mas algumas eu conseguia desvencilhar e fiz boas pesquisas a partir delas”, conta ele, que destaca atualmente as fontes da Hemeroteca Nacional e do poderoso FamilySearch. “Encontrei um trisavô de 1828 num jornal de Pernambuco”, diz, ressaltando que o site Mórmon já está em Natal coletando dados na cúria da catedral natalense.


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