Ademar Souza: "A sociedade não está disponível para ouvir"

Publicação: 2019-09-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Bate papo com: Ademar Souza, Voluntário do CVV

Por que você resolveu se voluntariar para o CVV?
Chegou um momento em que eu queria fazer um trabalho voluntário, mas não sabia qual. Um dia eu estava em casa assistindo à televisão, e vi uma chamada procurando voluntários, e avisando que seria feito um curso de formação. Me inscrevi e fiz o curso, e aprendi coisas que não poderia imaginar. Fui selecionado após o curso, e continuo atuando. Isso faz 16 anos.

Como funciona a questão do distanciamento nas ligações, considerando que os voluntários não necessariamente têm formação específica em saúde mental?
O curso vai nos preparando para isso. É importante destacar, também, que há uma seleção de voluntários, com base no perfil, que ajuda nisso. Mas é quando a gente vai começando a atender as chamadas que de fato sentimos o impacto real de como é. Há ligações pesadas, de muitas pessoas que estão em desespero, então não é simples. É importante destacar que nosso trabalho já possui uma abordagem diferenciada, justamente para que não nos envolvamos diretamente no problema daquela pessoa. Quando uma pessoa nos liga, ela está com algum problema, geralmente um problema grande. Mas o voluntário não vai focar nesse problema, vai focar na pessoa e no que ela está sentindo. O ato de ouvir, que fazemos aqui, tem uma proposta específica, e quando atuamos dentro do que nos foi passado no curso, a pessoa pode estar no mais alto grau de desespero, mas conseguimos ouví-las sem absorver aquela tristeza para nós.

No Setembro Amarelo, pipocam textos nas redes sociais sobre como agir ou não com pessoas que apresentam sinais de depressão. Quais são os princípios que norteiam vocês para lidar com pessoas nessa situação?
O indicado, nesses casos, é ouvir as pessoas. As pessoas ligam para nós porque de alguma forma tentaram falar com alguém, até mesmo da família, e não foram ouvidas. Quando elas ligam para nós, temos o preparo e o tempo disponível para ouví-las, que é algo cada vez mais raro na sociedade. Se eu estiver fora do CVV e observar sinais de depressão em amigos ou parentes, eu vou tentar criar um contexto no qual ele sinta que pode falar e ser ouvido. Quando a pessoa fala, ela se esvazia. Ela alivia, mesmo que momentaneamente. A sociedade não está muito disponível para ouvir as pessoas. É muito mais um exercício de ouvir do que de falar, aconselhar ou julgar.

Ao longo desses 16 anos, você observou alguma mudança no perfil das ligações que costuma receber? Houve aumento de demanda pelo serviço?
Aumentou visivelmente a incidência. O nosso maior índice de atendimento era solidão. Hoje, é a depressão. Percebemos que a exigência e a cobrança na sociedade estão cada vez maiores, e as pessoas estão adoecendo. As pessoas estão ligando porque elas estão se deparando com o desemprego e tendo dificuldades de enxergar uma saída em um mundo que só lhes cobra.




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