Adeus à Noite aborda sedução da violência

Publicação: 2019-09-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Em sua oitava parceria com a estrela Catherine Deneuve, o diretor André Téchiné volta-se para um tema visceral - a radicalização política e religiosa que está no centro dos talvez maiores cataclismos atuais. Catherine interpreta uma avó e Muriel ainda é uma bela mulher, como a própria atriz, de 75 anos. Possui uma fazenda de criação de cavalos, uma escola de equitação. Tudo nos conformes, e aí chega o neto, que vem se despedir. Diz que está indo para o Canadá, mas Muriel o surpreende fazendo suas orações. Descobre que ele se converteu ao islamismo e, na verdade, está partindo para a Síria, para se integrar à Jihad muçulmana.

Deneuve vive uma avó diante de um dilema. Se despedir do neto que se vai embora para a Síria
Deneuve vive uma avó diante de um dilema. Se despedir do neto que se vai embora para a Síria

L’Adieu à la Nuit, Adeus à Noite, título do filme que estreia hoje nos cinemas, dialoga muito bem com Meu Filho Querido, do tunisiano Mohamed Ben Attia, um dos mais belos filmes lançados este ano no País. O de Ben Attia era sobre um pai desesperado que seguia a trilha do filho na Síria, depois que o garoto partia, sem sequer dizer adeus. Se pudesse, ou se soubesse dos planos do jovem, ele muito provavelmente faria o mesmo que Muriel - teria, a qualquer custo tentado impedi-lo de partir. Para complicar, no de Téchiné, o neto se apropria de dinheiro da avó para entregá-lo ao grupo que financia os jihadistas e, com isso, a narrativa ganha uma dimensão de thriller.

Deneuve, na coletiva do filme, em fevereiro, em Berlim - Adeus à Noite concorreu ao Urso de Ouro -, disse que não via nada demais em sua idade, em interpretar uma avó. Como atriz, os anos de A Bela da Tarde ficaram para trás.

Encarar o tempo não é uma dificuldade - difícil é expressar o sentimento dessa avó. "É um dilema hamletiano que ela vive. Ao impedir o neto de partir, ela pode achar que está agindo certo, mas o está impedindo de viver a vida dele, de ser ou não ser o que quer." E Téchiné: "Esse filme nasceu de um mal-estar profundo. Cresci meio isolado, numa pequena cidade do sul da França, numa família de ascendência espanhola. Era como se a gente vivesse num feudo. Foi o cinema que me fez descobrir o mundo, e a cidadania, primeiro como crítico, depois como diretor. Sempre gostei desses personagens que não se integram e carecem de pertencimento, porque eu próprio muitas vezes me senti assim".

Intelectual de formação católica e marxista, ele naturalmente se interessou pelas questões dos refugiados e imigrantes, dos povos do Magreb na França. "Como todo mundo da minha geração, sofri com todos esses ataques da Jihad, que colocam à prova noções de humanidade e tolerância. Tentava me informar, manter atualizado. O filme nasceu da convergência de vários fatores. Havia esse desejo de entendimento, mas creio que fundamental foi o livro de David Thomson, Les Français Jihadistes, feito de entrevistas com jovens que aderiram à causa islâmica e à Jihad. São diálogos muito crus, muito diretos, que ficaram comigo. Comecei a pensar se seria capaz de criar uma mise-en-scène para eles, se seria possível transformar esse material de reportagem em ficção cinematográfica. E foi assim que o filme começou a nascer."

O que realmente lhe interessava era entender a psicologia desses jovens. "Numa era de tanto individualismo, eles elegem o sacrifício. Morrer por uma causa - por quê?" Embora a palavra dos jovens tenha lhe fornecido o impulso inicial, Téchiné explica seu ponto de vista. "Sentia que só conseguiria ser honesto adotando o olhar de uma pessoa da minha geração, e foi assim que Muriel se foi delineando. Antes mesmo de contatar Deneuve, sabia que teria de tê-la nesse projeto. Conheço Catherine há muito tempo e conheço sua inquietação. Nisso somos iguais - gostamos de arriscar, de nos renovar. É um tema perigoso, e sabia que teria de contar com ela." E Téchiné disse mais: "Foi, de nossa já longa colaboração, o filme em que mais exigi de Catherine. Espero que não tenha sofrido muito (Ela retrucou que não foi nada que não pudesse aguentar).

Muriel é muito forte no seu lado profissional, mas é vulnerável no afetivo, em relação a esse neto que desconhece. Era o que queria colocar na tela, e sem carregar na boa consciência da nossa geração. Esse filme não é para dizer como somos melhores."

Análise: Vontade de mudar de vida
Depois de recentes atos de violência praticados em seu território - em especial ao jornal Charlie Hebdo e à boate Bataclan, ambos em 2015 -, os franceses começaram a se preocupar com uma questão indigesta. O que levaria jovens franceses a filiar-se ao Estado Islâmico e praticar atentados em seu próprio país?

A sua maneira um tanto clássica, André Téchiné busca explicações através da ficção em Adeus à Noite. Muriel (Catherine Deneuve) mora numa fazenda e fica feliz ao receber a visita do neto, Alex (Kacey Mottet Klein). O que ela não sabe, de início, é que se trata de uma despedida. Ao lado da namorada, Lila (Oulaya Amamra), Alex pretende aderir à Jihad.

Pode-se dizer que um dos méritos de Téchiné é evitar respostas fáceis para uma questão intrincada. Muriel estranha quando o neto a informa de que se converteu ao Islã. Até aí nada de mais. Cedo ela descobre que esse novo horizonte religioso escondia outro tipo de intenção. Há algo no comportamento de Alex que funciona como alternativa um tanto alucinada: o que é melhor? Uma vida de tédio ou uma morte gloriosa? Ele pergunta à namorada o que ela iria sentir quando ele estivesse morto. A resposta: "Orgulho".

Há outras questões envolvidas. Como fica o livre-arbítrio quando uma pessoa decide cometer atos de violência e morrer em ação? Deve-se deixá-lo levar esse desejo às últimas consequências ou impedi-lo a qualquer custo, violando seu direito de escolha?

Há uma passagem interessante, quando Muriel pede ajuda a um "arrependido", para que ele fale com o neto e o convença a desistir. Não importa aqui dizer como isso termina. Apenas destacar a resposta que o rapaz dá a Muriel quando ela lhe pergunta por que havia aderido ao radicalismo? Ele responde simplesmente: "Porque esse caminho oferecia a possibilidade de mudar completamente de vida".

Eis aí algumas pistas que esse filme oferece, porque o cinema não é apenas emoção mas também uma forma de compreender. A religião pode fornecer um sentido à vida - "são as grandes provedoras de sentido", dizia o psicanalista Jacques Lacan falando das seitas religiosas, em particular do catolicismo. Pode-se entender que, no caso específico da Jihad, se juntam a essa aspiração ao sentido o exercício da violência (no que ela tem de pulsional) e a sensação de estar reparando injustiças históricas. Parece bastante sedutor para um jovem que vê sua vida como tédio sem fim.



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