Adeus às ilusões

Publicação: 2020-10-24 00:00:00
Ivan Maciel de Andrade                                                                                                            
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Leonardo Padura é um escritor cubano que vive em seu país e lá exerce o magistério, na Universidade de Havana, onde ensina uma disciplina dedicada à literatura latino-americana. É autor de vários romances policiais, quatro deles (pertencentes à série “Estações Havana”) foram transpostos para o cinema e televisão e divulgados pela Netflix. O personagem que ele criou para conduzir as investigações policiais, Mario Conde, está entre os melhores – em termos humanos e carismáticos (alguém que passamos a admirar e gostaríamos de conhecer) – da literatura policial contemporânea.

Seu livro mais importante é o “O homem que amava os cachorros” (2009), em que narra a trama de espionagem e traição que envolveu o assassinato de Leon Trótski por Ramón Mercader, agente a serviço da longa mão vingativa e genocida de Stalin. Esse livro proporciona uma leitura eletrizante, arrebatadora, além de representar uma visão histórica do stalinismo que é indispensável ser conhecida ou relembrada. Além de testemunhar, sem viés ideológico, sobre os fracassos e frustrações do regime dos irmãos Castro. A visão de quem ama o seu país e desejou muito que as promessas do comunismo dessem certo e tivessem se concretizado. Tanto assim que continua vivendo no mesmo bairro em que cresceu, pois confessa que sua criatividade literária tem raízes cubanas poderosas e irrenunciáveis.   

A repercussão dessa obra popularizou Padura mundialmente. Em razão do êxito que obteve com esse e com outros romances traduzidos e bem-aceitos por leitores e pela crítica de vários países, recebeu expressivos prêmios internacionais e até mesmo o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba. 

Seu romance mais recente é “A transparência do tempo” (2018). O autor ressalta, no final, que “os episódios do presente cubano apoiam-se no conhecimento vivo e no questionamento de uma realidade que faz parte da minha própria vida”. O romance foi escrito num bairro de Havana que tem o nome de Montilla, a que Padura se acha vinculado nostálgica e emocionalmente, entre 2014 e 2017. 

Deve-se reconhecer que a ilha sofre os efeitos danosos e injustos do embargo comercial, econômico e financeiro imposto pelos Estados Unidos. Ainda mais: o país entrou em recessão em 1989-93, com o fim dos subsídios que lhe eram concedidos pela antiga União Soviética. Por último, sua economia sofreu novo colapso em 2016, devido à crise da Venezuela, que concedia substancial ajuda financeira ao governo cubano. Apesar disso, Cuba apresenta índices excelentes na área da educação, do saneamento básico, do controle da mortalidade infantil e da pesquisa médico-científica.  

O que Padura denuncia é a desagregação moral de um governo ineficiente, blindado por uma falsa ideologia. E sobretudo a desigualdade social, que voltou (não na proporção abissal, diz ele, que existe em países latino-americanos) tornando cada vez mais “populosa” uma classe privilegiada que desfruta de conforto e requintados bens de consumo. Enquanto isso, a grande maioria vive na penúria, com acesso problemático a alimentos de inferior qualidade. Os “assentamentos” de Havana parecem piores do que as favelas brasileiras. Constata Padura: é um adeus às ilusões da pregação igualitária.






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