Viver
Adeus ao garimpador da música pop
Publicado: 00:00:00 - 24/03/2018 Atualizado: 22:31:27 - 23/03/2018
Produtor musical, jornalista e ex-jurado de programas de TV como Ídolos e Astros, ambos do SBT, Carlos Eduardo Miranda morreu aos 56 anos, vítima de mal súbito após sentir fortes dores de cabeça, na noite de quinta-feira, 22 - um dia depois de fazer aniversário -, em São Paulo.  Nascido em Porto Alegre, Miranda, quando jovem, chegou a ter de quatro a cinco bandas na cidade, e ajudou a fomentar a cena roqueira de lá. Em 1988, veio para São Paulo assistir a um show do Iggy Pop. E acabou ficando. Militante dentro do cenário da música independente, sempre gostou de garimpar talentos que, muitas vezes, pairavam despercebidos, e os levava à luz do grande público.

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Artistas e críticos de música dedicaram publicações a Miranda

Artistas e críticos de música dedicaram publicações a Miranda


Artistas e críticos de música dedicaram publicações a Miranda

E era sobre grupos independentes que ele escrevia quando passou a trabalhar na extinta revista Bizz, marco do jornalismo musical brasileiro, e descobriu novidades vindas de Brasília (como Raimundos) e Pernambuco (todo o movimento conhecido como manguebeat). Miranda contou, certa vez, que, como repórter da revista, acompanhou as gravações do disco Titanomaquia, dos Titãs. "Eu levava sempre comigo uma malinha cheia de demos, com coisas do Planet Hemp, Chico Science & Nação Zumbi e Raimundos. Foi assim que os Titãs conheceram os Raimundos e toparam a ideia de montarmos o selo Banguela.”

Simpático e bonachão, Miranda trabalhou com outras bandas importantes do cenário do rock nacional, como Skank e O Rappa. Embora tenha lançado discos de Mundo Livre S/A, Little Quail and The Mad Birds, Kleiderman (banda formada por Sérgio Britto e Branco Mello), Maskavo Roots e Graforréia Xilarmônica, o selo Banguela Records ficou marcado mesmo pelo álbum homônimo dos Raimundos, de 1994.

De sua cabeça, encontros como os de Fresno e Chitãozinho e Xororó e Charlie Brown Jr. e Vanessa da Mata foram materializados. "Véio, eu te digo que o Calypso é a banda mais menosprezada do Brasil. Tanto artisticamente como na forma em que os dois (Joelma e Chimbinha) levaram a história da banda até agora."

Miranda criticava o que chamava de "ditadura do não incômodo". "Quem toca em rádio já faz CD pensando nisso ou tem as características do pop. O que não é crime. O Skank, por exemplo, não tem distorções e é bem legal", disse. O disco de estreia dos Raimundos, lançado em 1994 e que ele produziu, trouxe no repertório uma versão acústica da canção Selim.

No mesmo álbum, já havia a gravação original, com guitarra. Foi uma espécie de resposta a uma gravadora que, quando procurada pela banda, exigiu que tirassem os palavrões das letras e diminuíssem as guitarras. "Botei essa música de zoeira no disco. Nada elaborado, para encher linguiça. E acabou sendo a mais tocada nas rádios", lembrou. Sempre vestindo bermuda, chinelo e camisa florida, ele dizia achar normal que as pessoas mais velhas o olhassem com certa reticência. "Elas não sabem que gosto de um bom vinho, de comer bem também. Me visto dessa maneira porque acho confortável Sou assim desde criança. E os maiores picaretas não usam gravata?"

A morte repercutiu no meio musical. O Skank foi um dos grupos que se manifestou por meio de sua página oficial no Instagram: "grande Carlos Eduardo Miranda, foi uma figura seminal na nossa história. Foi ele quem chamou a atenção da imprensa do eixo Rio-SP sobre um quarteto que vinha de Minas Gerais e misturava reggae, pop, ska. Foi a chave que abriu a porta pro que viria depois. Ele teria ainda grande contribuição ao longo da nossa carreira, especialmente no disco 'Maquinarama'. Que sua travessia seja tão leve e divertida quanto a vida que ele levou aqui", diz o texto.

Cena Potiguar
Carlos Miranda também não era um estranho em Natal. Por aqui, veio pela primeira vez já como produtor (Trama) em 2003, numa das edições do Festival MADA, na Ribeira. Foi em Natal que o produtor vislumbrou a ascensão de Pitty e fechou com a banda paraibana Zefirina Bomba. “Miranda sempre foi um grande visionário da música pop brasileira e antecipou muitas cenas musicais pelo Brasil, perdemos uma grande figura”, lembra o criador do Mada, Jomardo Azevedo. Para o produtor Anderson Foca, do festival DoSol, “o Brasil perdeu uma das figuras mais importantes da nossa música. Quando o Festival Dosol ainda era um embrião, ele foi um dos nossos principais incentivadores e divulgadores. Inesquecível.”


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