Adeus ao pai da cultura popular

Publicação: 2014-07-25 00:00:00
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Angela Lacerda
Agência Estado

Recife - A despedida do escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, que morreu na noite de quarta-feira, aos 87 anos, teve um misto de dor e de festa, em clima de serenidade e com a participação dos folguedos populares da cultura pernambucana e nordestina que ele tanto defendeu. “Perdemos o pai da cultura popular brasileira”, resumiu Pedro Salustiano, do maracatu rural Piaba de Ouro, da zona da mata pernambucana, que foi até o palácio do Campo das Princesas com rabeca, pandeiro e ganzá. Caboclos de lança e o boneco gigante do carnaval pernambucano do escritor também estiveram presentes. “Viva você, Ariano, você é nosso rei”, exclamou, emocionado diante do seu caixão.
Grupos folclóricos prestam homenagem ao escritor Ariano Suassuna, durante velório no Palácio do Campo das Princesas
Filho do Mestre Salustiano, já falecido, muito ligado a Ariano, Pedro lembrou que quando o pai e Ariano se encontravam, o escritor sempre pedia que tocasse. “Foi o que fizemos agora, na sua despedida”, disse ele. Outros populares cantaram uma música-hino de Pernambuco, o frevo canção “Madeira do Rosarinho”, do compositor já falecido José Lourenço Barbosa, o Capiba. Música preferida de Ariano, com o refrão “nós somos madeira de lei que o cupim não roi”, o frevo foi transformado em tema das campanhas de Eduardo Campos ao governo estadual, em 2006 e 2010.

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Ariano a cantava onde fosse. Em aulas-espetáculos e em comícios. Ela foi entoada algumas vezes durante o velório, assim como o grito de guerra do seu time de futebol de coração, o Sport. A presidente Dilma as ouviu durante os 40 minutos que passou no velório, pouco antes do seu encerramento. Ela foi acompanhada do ministro dos Esportes, Aldo Rabelo, e do governador da Bahia, Jacques Wagner. Cumprimentou e conversou rapidamente com o ex-aliado e agora adversário,o presidenciável Eduardo Campos (PSB), que tem ligação familiar, de amizade e política com Ariano. Ela saiu sem falar com a imprensa.

Autoridades, anônimos, fãs, artistas e populares prestaram homenagens durante o velório. A grande maioria com uma história para contar. Forrozeiro famoso no Nordeste, Santana compartilhou uma delas. Lembrou que o repentista Dimas Filho certa vez intimou Ariano a fazer um soneto. Ariano concordou. Dois meses depois o reencontrou e Ariano disse que estava na primeira quadra.

Passado um ano, em um encontro na casa de Ariano, finalmente o soneto foi entregue a Dimas que olhou, fez um riso no canto da boca e, de imediato, declamou um repente, todo rimado, dizendo achar engraçado um poeta ter um ano de luta fazendo um soneto sem graça. “O sono ele perde a fim de estudar tão minguado produto/ pois desse eu faço dois ou três por minuto cantando a galope na beira do mar”, dizia o final do repente declamado por Santana. Ao ouvir isto, Ariano retrucou: “você não é besta não, me dê o meu soneto” e arrancou o papel das mãos de Dimas. Todos em torno de Santana se divertiram.