Adeus, Moisés Domingos

Publicação: 2021-03-03 00:00:00
Alex Medeiros 
alexmedeiros1959@gmail.com

Ele partiu na madrugada de ontem, encerrando uma batalha contra um câncer. Seu nome completo é Moisés Domingos Sobrinho, o garoto das Quintas que se tornou um cientista social de renome nacional e internacional. Um dos grandes intelectuais gerados neste solo potiguar, o estudante dos conflitos nos anos 1970 que se tornou um educador de referência e um formulador de ideias desde os tempos de líder estudantil e militante na construção de um partido.

Moisés, cujo nome é marca de bercinho portátil de bebê, foi a mão que balançou o berço no nascimento do Partido dos Trabalhadores em Natal, na fronteira das décadas de 1970 e 1980. Por muitas vezes, os primeiros filiados foram conduzidos por sua firmeza de argumentos e por um peculiar equilíbrio emocional que o acompanhou pela vida inteira. Na ausência de uma sede, as reuniões eram no pátio externo do Curso Delta e a ele era confiada a chave.

Aquele presidente de diretório estudantil já expunha ali a segurança de uma oralidade que o consagrou na ciência social, com doutorado e pós na Europa. Nas reuniões, com ele aprendi o lustre do roteiro para nortear os assuntos.

Não demorou para estabelecermos uma amizade mais próxima, via uma proposta dele para dividir a tarefa de distribuir as assinaturas do jornal Movimento com uma meia centena de leitores e também cobrar a mensalidade.

A primeira sede do partido, uma saleta num sobrado da Rua Auta de Souza, na Cidade Alta, onde eu ficava um expediente, acabou virando escritório avançado do jornal criado em 1975 por Raimundo Rodrigues Pereira e seus associados.

Os da minha geração eram garotos e garotas na faixa dos vinte ou vinte e poucos anos, enquanto Moisés já era um trintão com vasta experiência na política e na vida acadêmica, mas sem divergência com nossa vida noturna.

Não consumia álcool e cigarros, num oposto de quase todos nós e já tinha uma educação alimentar baseada em produtos naturais. Invariavelmente os garçons trocavam seu copo de suco pelo de cerveja ou uísque da namorada Sheylla.

Em 1982, nas primeiras eleições diretas para governador após o governo militar, compomos a pequena nominata de candidatos a vereador, sendo ele o mais votado e eu o terceiro, numa mísera performance de legenda iniciante.

Nas duas últimas décadas, em que nos encontrávamos nos shoppings e cafés, ele curtia relembrar aqueles anos a partir da minha memória, e sempre cobrava que eu escrevesse, principalmente narrando os fatos pitorescos da campanha.

Ria muito da convenção que homologou os candidatos, encabeçados por Rubens Lemos para governador, em que eu tive que falsificar as assinaturas dos componentes do diretório copiando assinaturas das fichas de filiação.

Seus risos sobre os episódios burlescos de antanho às vezes se misturavam de um sentimento de saudade quando citávamos velhos militantes que já se foram. Este mesmo sentimento que agora desaba sobre mim com sua partida.

- Você tem que juntar tudo isso e fazer um livro, rapaz! Repetia ele a cada encontro. Desde que escapei do mundo da esquerda, em 1985, o abismo ideológico jamais teve a profundeza de atrapalhar a nossa respeitosa amizade.

Moisés Domingos não pertencia àquele padrão em que a arte máxima de um sociólogo é teorizar sobre objetos empíricos onde os fatos acabam enterrando a teoria. Seu senso de realidade, por mais cerebral, continha sensibilidade.

Como orador ou debatedor, era firme sem ser bruto, nunca injusto com os divergentes. Como seu xará dos cinco livros da Bíblia, não cometia injustiça no juízo, nem na vara, nem no peso, nem na medida. Foi um intelectual enorme.

Créditos: Divulgação

Saldo 
Todas as prefeituras têm a obrigação de participar do portal Covid, que está ligado ao Portal da Transparência, para que todos saibam dos recursos alocados no combate ao vírus. E todas viraram o ano com dinheiro no caixa.

Leitos 
A pergunta que cabe é: se há saldo de dinheiro “sem carimbo” para aplicar em toda e qualquer providência que combata a pandemia, por que a maioria das cidades não investiu a grana em novos leitos de UTI, preferindo o lockdown?

Ivermectina 
Pesquisadores da Universidade de Oxford decidiram fazer testes com o medicamento que segundo dezenas de estudos mostrou sinais de redução de contágio por coronavírus em 19 países. A ideia é adotar como profilaxia.

Vacinas 
Vão surgindo os casos de infecção em vacinados e os camelôs do lockdown agora argumentam que é preciso a segunda dose para imunizar. Só está faltando um debate sobre se a eficácia deve é ou não de segunda instância.

Miss 1971 
O saudoso Paulo Macedo publicou em 10/6/1971, na sua coluna do Diário de Natal, uma grande foto da jovem Geysa Barbosa Costa, candidata da Assen no concurso Miss RN. Seu palpite sobre o favoritismo da jovem foi certeiro.

R.I.P. 
Geysa Geysa Costa partiu ontem, 50 anos depois de ser eleita miss RN, numa grande festa no Palácio dos Esportes no dia 18 de junho de 1971, patrocinada pela Colorado RQ. Sucedeu Elna Belém (miss 70) e foi sucedida por Tázia Bezerra.

Ausência 
Em 2016, durante o Beatle Fest, evento com artistas locais tocando hits dos Fab Four, conheci Carlos Alberto Lima, um ex-funcionário da NASA e beatlemaníaco e gêmeo de geração. Ele partiu dia 28 com as águas de março.

Música 
Uma tradição italiana que conquistou o mundo desde 1951, o San Remo Festival começou ontem e prosseguirá até o dia 12 com jovens e veteranos artistas. Foi ali onde em 1968 Roberto Carlos venceu com “Canzone Per Te”.






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