Adivinhe quem não veio para o jantar?

Publicação: 2018-03-13 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Valério Mesquita*
mesquita.valerio@mail.com

Era um homem cheio de temores e a maioria dos quais guardava para si mesmo. Frequentava a sociedade como se buscasse amores perdidos. Mostrar-se, havia se tornado a melhor maneira de conseguir o irrevelado. Estatisticamente já ingressara e saíra, com perdas e danos, da vida de muita gente. Certa noite, fui encontrá-lo num bem frequentado restaurante da cidade. Entrou sem me perceber. O seu olhar vagava pelas mesas como se quisesse ali evitar mexericos. Ou, até mesmo, fugir da observação sagaz do meu amigo Hemetério Gurgel que gostava de surpreender convescotes indigestos nos restaurantes da cidade e os publicava no jornal sem citar nomes.

Ao se acomodar, ainda girou seu periscópio pelas mesas vizinhas. Estava aparentemente tranquilo apesar de só. “Quem virá para o jantar”? Imaginei. Algum político para falar açodadas previsões acerca da sucessão estadual de 2018? Por que essa inquietação antecipada de fatos que só ocorrerão ou não, no seu devido tempo? Vive-se agora a estação das candidaturas postas e depostas, em seguida. Deus não toma iniciativa nem rege destinos eleitorais na terra. Não simpatiza a política. Ela é manipulada por um astrólogo arbitrário da côrte do anjo mau decaído. Quem diria ou imaginava, que um dia, após o regime de 1964, Lula seria presidente, Zé Dirceu, Dilma Rousseff, Geddel Vieira, Sérgio Cabral e tantos outros, protagonizariam crimes comuns, em nome da república, ou se tornariam eminentes figuras da democracia? O meu personagem já estava no couvert quando dissipei as ilações. O convidado ou convidada ainda não dera o ar da graça.

Quando vi o mossoroense Tião da Prestação pensei que fosse a sua companhia. Ah, meu Deus, vai tratar da sucessão estadual, deduzi. Há pessoas que encarnam objetivos pontuais nesta Natal. Como dissociar as saudosas figuras de Enélio Petrovich do Instituto Histórico, de Ticiano Duarte da Maçonaria, de D. Noilde Ramalho da Escola Doméstica? Diógenes da Cunha Lima da Academia de Letras? Com a demora, passei a matutar nomes do círculo de amizade do solitário natalense. Estariam atrasados para o jantar: o mergulhador de águas submarinas do Blog do BG ou, alguém do colunismo social? Suspendi as cogitações ao ver adentrar-se um grupo de mulheres jovens e bonitas. Pelos meus parcos conhecimentos cartoriais as certidões civis variavam de solteiras à divorciadas. E por que não conjeturar que, de repente, uma das beldades poderia sentar naquela mesa triste e ansiosa? As observações desapareceram ao escolherem mesas distantes. Mesas separadas, como no filme: “Separate Tables” de 1958.

Enfim, conclui que estava retardando o meu jantar com tantas divagações. Inclusive, me mostrei desatento para com meus convidados. Minha focalizada fonte de suspeitas previsíveis saboreava o prato principal e, pelo visto, ele queria apenas ficar só. A inquietação que demonstrou ao chegar pode acontecer o mesmo com qualquer um. Talvez, tudo fosse fruto de minha fantasia. Mesmo assim, eu não estava satisfeito com as conclusões finais. Ao vê-lo pedir a conta, não resisti me apresentar. Vou lá matar a curiosidade, ora bolas. Pedi licença ao passar da mesa, cumprimentei os vizinhos, mas não previ a surpresa. A misteriosa personalidade se escafedeu. Incrível. Ainda de pé, vasculhei os cantos e recantos. Quem teria faltado ao jantar? Quanto ao seu nome deixo-o inscrito no rol dos desconhecidos e furtivos personagens de Hemetério Gurgel que sempre escapavam à identificação.

Ah! Tanta imaginação fugidia. Tudo descendo pelo declive dos sonhos e das ilusões da crônica. Valeria dizer o nome do personagem? Ou repetir a estrofe “de quem eu gosto, nunca falo”? Eram os habitantes da noite. Tudo como identidade e currículo. Todos vítimas da fria solidão dos despossuídos. Talvez, escondendo profundezas abissais de prazeres irrevelados, repletos de naufrágios conjugais ou políticos.

(*) Escritor.


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários