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Quadrantes
Admiração e desamor
Publicado: 00:00:00 - 08/05/2022 Atualizado: 16:01:51 - 07/05/2022
Diogenes da Cunha Lima 
 [ Escritor, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (anL) ] 

De todos, o acontecimento mais admirável é a vida. Somos habitantes da galáxia. Bilhões e bilhões de corpos inanimados e nós seres vivos. E, ainda mais, pensantes. Por essa razão, admiramos a natureza que Deus nos deu. 

Observando bem, tudo é admirável: os animais e as plantas terrestres e aquáticas; as montanhas, as depressões, os vales, o vento, as nuvens, a cor do céu com os seus habitantes, os pássaros, e a visão das estrelas. Tudo é milagre porque não se pode descobrir a perfeita razão de ser. 

As qualidades que mais enobrecem o homem, o amor e a amizade, exigem a admiração do parceiro. O filósofo pré-renascentista Giovanni Pico della Mirandola recomenda voltar-se para o bem. O amor impede o instinto animal, é a perfeição humana. 

Admirar, do latim Ad mirare, é ver mais longe, significa olhar com encanto, o que leva o ser humano a respeitar, estimar e mesmo simpatizar com o outro. 

A admiração estimula e até torna-se causa da criação da arte, da ciência, da tecnologia, ainda que seja verdade que a admiração exacerbadapode causar inveja e desamor, assim como a admiração excessiva dá corpo à bajulação.

A floração não seria o comportamento das plantas também para serem admiradas? Os intelectuais não trabalham também para serem admirados? Atentemos que o plágio é inveja causada pela admiração. 

O cantador paraibano Manoel Xudu ficou feliz por ter sido convidado por uma senhora para cantar em sua fazenda, no nosso Seridó. Ao chegar, encontrou a mulher, seu marido e mais três pessoas. Perguntou: “Cadê o povo? Cantador quer ser querido por todos e precisa saber de temas admiráveis”. Ela respondeu que o marido havia feito um açude admirável. Por fim,queixou-se de uma dor de cabeça que voltava de meia em meia hora. Xudu seentristeceu, mas cantou porque precisava ganhar a viagem. Finaliza dizendo: “me admira é o pica-pau/ o mês de ouro de Angico/ tem hora que é taco taco/ tem hora que é tico tico/ nem sente dor de cabeça/ nem quebra a ponta do bico”. 

O desamor é sempre omissivo, desafeição, indiferença. A raiva é um desamor doentio e o ódio é um desamor enlouquecido. Ambos são limitações da perfeição humana.

Desamor é desconhecer. Quem admira procura conhecer mais profundamente o objeto amado. Reconhecer a beleza, certamente, eleva o espírito. Quem perde a capacidade de admirar perde o presente e o futuro. 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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