Advocacia ambulante

Publicação: 2020-02-23 00:00:00
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Woden Madruga
[ woden@tribunadonorte.com.br ]

Nos intervalos dos ensaios carnavalescos fui encontrar na gaveta dos papéis desarrumados, presas por um clipe, cópias de três cartas-bilhetes de Hélio Vasconcelos para José Rocha, uma delas assinada também por Danilo Bessa. Isso é coisa de Natal dos anos 1961/62. Os três ainda estudantes de Direito, mas o José Rocha já exercia mandato de deputado estadual e, na época, presidia a ilustre casa do povo.  Colegas, amigos, parceiros das noitadas alegres, se consideravam “advogados do consórcio Rocha, Adauto, José e Rocha”.

As três cartas estão datilografadas em papel timbrado da Faculdade de Medicina (Universidade do Rio Grande do Norte), em cuja secretaria trabalhou o futuro advogado Hélio Vasconcelos, que, lá na frente, chegaria a professor da UFRN, presidente da OAB-RN e também Secretário de Educação do Estado (Governo José Agripino Maia). O   Vasconcelos de Hélio não tem nada a ver com o Vasconcelos de Zé Rocha. Parentesco nenhum, apenas irmãos de papo e farra, companheiros, grandes amigos.  José Rocha, depois de ser político e advogado veio a ser magistrado - juiz e desembargador da Justiça do Trabalho. Presidiu a corte.  Nas horas de folga, presidia o América Futebol Clube.

No meio dessa história aparece também o futuro médico José Arruda Filho, completando o time. O tom formal que se nota nas cartas é uma forma de caçoada, marca do espírito de gozação que predominava entre os amigos e parceiros. A primeira carta é de julho de 1961. Está escrita assim:
“Natal, 28.07.61.
Caro amigo Dep. José Rocha,
Como é do conhecimento de V. Excia, o seu “escritório de advocacia ambulante”, composto pelos signatários do presente se deslocará, esta madrugada, pelo “convair” ARTUR DIAS, rumo ao Caicó, segundo o nosso estimado Dinarte.
E, óbvio que esses causídicos não podem abandonar a sede sem o conhecimento prévio de V. Excia...
Em sendo assim, juntamos o útil ao agradável. Pedimos a V. Excia. enviar, se possível, pelo portador, uma colaboração para a Virgem Santana, padroeira festejada naquela cidade.
Solicitando o mais absoluto sigilo na dádiva a ser por V. Excia. oferecida, firmamo-nos, com amizade e precisão. (Dos dois (2) modos).
Hélio e Danilo (Advogados do Consórcio Rocha, Adauto, José e Rocha). ”
A segunda carta (na verdade, mais bilhete) está datada de 28 de setembro de 1961:
“Meu caro José Rocha,
Pode mandar pelo portador a minha encomenda, se possível. Muito estimaria que ela (a encomenda) se aproximasse de Cr$ 5.000, (CINCO MIL CRUZEIROS), ou mesmo fosse os 5 mil exatos.
Esperei ontem à tarde pelo homem de Arês. Sobre o assunto conversaremos na volta.
O abraço agradecido de Hélio”.
O bilhete seguinte, o terceiro, é do ano de 1962. Escrito assim:
“Natal, 13.07.62
Meu caro José Rocha,
Peço avalizar para o nosso amigo Arruda esta passagem de ida ao Rio, pelo Credi-Panair. Ele é bom pagador. O referido é verdade e dou fé.
Um grande abraço de
Hélio Vasconcelos. ”

Doutor Gentil
Amanhã, 24, vivo fosse, o doutor Gentil Ferreira de Souza faria 119 anos. Engenheiro civil, professor (Atheneu), empresário (presidiu a Associação Comercial), político, prefeito de Natal (de 1931 a 1932 e de 1935 a 1940) e vereador (de 1948 a 1954). Como prefeito, entre tantas obras importantes, construiu a Praça Pedro Velho; como engenheiro, construiu o prédio do Grande Hotel, tombado pelo patrimônio histórico.

Desportista, presidiu o ABC Futebol Clube e o Aero Clube do Rio Grande do Norte, numa de suas fases mais importantes. Nas grandes festas (como o baile do Réveillon) ficava postado, de pé,  na entrada do clube, smoking bem talhado (certamente pelo alfaiate Pompílio), recebendo e cumprimentando os associados. Ao lado, o mordomo Boquinha.

Lembro também dele montado na garupa de uma lambreta pilotada pelo sobrinho Iberê Ferreira de Souza, ainda adolescente, passeando pelas avenidas de Petrópolis.  Nasceu na cidade de Santa Cruz, em 24 de fevereiro de 1901 e faleceu em Natal em 14 de novembro de 1962.

Débora 
A boa notícia da semana: a professora Débora Araújo Seabra de Moura foi homenageada pelo Colégio Porto (Avenida Salgado Filho) que deu o seu nome ao Grêmio Estudantil da escola. Grêmio Débora Seabra. Viva! A homenagem aconteceu no dia 14.

Débora, professora da Escola Doméstica de Natal, é a primeira educadora brasileira portadora da síndrome de Down. Já fez palestra na ONU.

Livro 
A Editora do Senado (Secretaria de Editoração e Publicações) acaba de publicar uma nova edição de “Opúsculo Humanitário”, de Nísia Floresta, integrando a Coleção Escritoras do Brasil. É o terceiro volume da coleção, que começou em 2018 com a Mulher Moderna, da pernambucana Josefina Álvares Azevedo, e seguida de Ânsia Eterna, da carioca Júlia Lopes de Almeida.

A primeira edição de Opúsculo Humanitário é de 1853 (Rio de Janeiro). A segunda saiu em 1989, coedição da Cortez Editora e Fundação José Augusto, no tempo em que a FJA publicava livros.

Inverno 
A grande notícia da semana ficou por conta dos meteorologistas reunidos na Emparn: O Rio Grande do Norte terá chuvas nos meses de março, abril e maio acima da média histórica. Quer dizer: inverno normal. Rios descendo com cheias, açudes sangrando, pasto franco para bois, bodes e ovelhas, feijão e milho à vontade.

Essas chuvas chegaram no começo de janeiro.  Tem município (vários) no Rio Grande do Norte somando mais de 300 milímetros. Somete esta semana, por exemplo, contando de segunda (17) para sexta-feira (21), há acumulada de mais de 100 milímetros em municípios do Oeste (Pau dos Ferros, São Francisco do Oeste, Francisco Dantas, Antônio Martins) e no Seridó: Caicó, Florânia, Timbaúba dos Batistas.

Que o carnaval seja bem chuvoso. Tão bom quanto chuva sertaneja.



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