Política
'Afirmar que governo federal pagou folha é resquício de feudalismo', diz Jaime Calado
Publicado: 00:00:00 - 23/01/2022 Atualizado: 15:19:26 - 22/01/2022
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Jaime Calado, secretário de Desenvolvimento Econômico
Alex Régis
Jaime Calado, secretário de Desenvolvimento Econômico

Jaime Calado, secretário de Desenvolvimento Econômico

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Há interlocução do governo com os empresários?
Vou dar exemplos claros aqui. Nosso camarão in natura pagaga 18% de ICMS. Foi para 1,5%. Nós perdemos todas as indústrias de calçado do Rio Grande do Norte. Por causa dos incentivos. Hoje, nós temos o maior incentivo do Brasil para calçado. Essa indústria  vai voltar.  No setor de confecções, o senhor Nevaldo Rocha e Flávio Rocha sempre pleitearam uma redução de ICMS para tornar o Rio Grande do Norte mais competitivo. E foi feito isso, no dia que foi o lançamento do RN Cresce Mais. Eu fiquei emocionado de ouvir Flávio Rocha agradecendo. E estão  aumentando aqui as encomendas, os empregos nessa área.

O que mudou na área ambiental? Houve alguma melhoria na interlocução com o empreendedorismo?
Há um diálogo muito forte. A legislação ambiental é complexa,  delicada. Mas tem agilidade por parte do Idema, a licença mais rápida do Brasil em energias renováveis é a do Rio Grande do Norte. Nós temos aqui catorze empresas nessa área que são das maiores do mundo. Então, elas investem aqui, no Ceará, na Itália... O Rio Grande do Norte se tornou um polo mundial nessa área de energia renovável.  Somos o maior produtor de energia eólica do Brasil. Temos o maior potencial. Nós fomos à Dinamarca. Lá o embaixador Rodrigo Azeredo nos recebeu, nos levou ao lugar que a gente precisava ir, o maior fabricante de geradores do mundo, que é a Vestas. Fomos recebidos pela cúpula deles, levamos dois pleitos, um que eles indiquem um técnico para ajudar nos estudos do porto que nós queremos colocar, porque na energia offshore os equipamentos são fabricados no porto. São peças de 150 a 250 metros. Pedimos também para eles aumentarem as instalações aqui em Parnamirim para dar assistência à América do Sul e estão vindo aí em 60 dias para assinar esse [termo de compromisso]. Ele nos levou também à Federação das Indústrias da Dinamarca. Lá nós mostramos não só a questão da energia renovável, mas também o nosso potencial de exportar camarões para lá, frutas, ferro, porque a gente aqui, no Rio Grande do Norte, precisa fazer uma siderúrgica. Então, esse porto está sendo pensado também para ser de exportação, não só de ferro, mas de aço. O RN tem mais de 600 bilhões de toneladas de ferro. Esse estudo agora em fevereiro vai dizer o melhor local. O estudo que nós contratamos à Universidade Federal para fazer. Ela diz o melhor local e aponta a viabilidade técnica, econômica e ambiental.

Como vai ser o projeto para essa obra de infraestrutura? Há estudos sobre a construção de um porto na outra margem do rio Potengi?
Estudos são vários. Nos encontramos três estudos, mas há outras sugestões. Precisa comparar todos. E daqui a um mês, um mês e pouco, vamos ter isso. O Porto da Codern não pega navios acima de 40 mil toneladas. Então, não serve para gente exportar nosso sal. O Porto Ilha de Areia Branca exporta de sal 5,5 milhões de toneladas/ano, mas a gente podia está exportando de 11 a 13 milhões, a quem compre o nosso sal, que desmancha neve em duas horas. O sal do Chile, que concorre para indústria química, leva oito horas para desmanchar a neve. Os americanos importam mais de 50 milhões de tonelada por ano só para neve. Nós estamos deixando de exportar. Falta porto. Temos também frutas. A Ribeira passa seis meses engarrafada, mesmo assim exporta metade das frutas. Na hora em que a China passar, e o Vietnã, a importar melão nossa exportação vai duplicar ou triplicar. Mas exportar por onde? Precisa de um porto. Nós temos seiscentos bilhões de toneladas de ferro medida hoje. A China está crescendo a dois dígitos e o Plano Biden estimou criar agora novas condições para os EUA crescerem. Os dois maiores parceiros comerciais do Brasil. Tudo isso puxa as nossas commodities para cima. A mina de ferro de Cruzeta vai voltar a funcionar.  Por todas as medidas que o Governo está tomando, mas também porque o preço das commodities está lá em cima. Com essa crise de Minas Gerais... Esses grandes exportadores de ferro do Brasil têm contratos de 20 a 30 anos. Se o negócio fechar lá, eles têm que arranjar ferro noutros lugares para atender os pedidos.  Aí nós estamos querendo também, botando no plano do estado, uma siderúrgica para agregar valor ao nosso ferro.  

Como estão as conversas sobre alianças políticas para as eleições de 2022? Estão avançadas para uma definição?
Não tivemos essa conversa, mas, com certeza, vamos ter. Conversei recentemente com o deputado federal Rafael Motta (PSB). Nosso aliado de primeira hora. Já conversamos com o PV, de maneira que, muito brevemente, a gente espera conversar com a governadora Fátima Bezerra, ver como é que vai ser isso.

O PROS pleiteia participação na composição da chapa majoritária?
Sim. Por que não? Já somos da chapa majoritária, a senadora Zenaide Maia é da chapa majoritária. Agora vamos ver como vai ficar.

Mas o senador Jean Paul Prates (PT) é um nome para disputar a reeleição? Se for, sobra a vice...
Não vamos nos precipitar, vamos conversar. Se tivesse conversado, já dizia: Conversamos. Lá na hora, vão saber. Todo mundo está conversando com todo mundo, vamos conversar com o PT e quem mais vir.  Quando fui prefeito (em São Gonçalo do Amarante), foi uma aliança de 10 partidos e quando ganhei, todos participaram do governo.

O PROS, partido que o senhor preside, está perdendo uma deputada federal, numa eleição em que partidos não podem mais fazer coligação...
É ruim perder um voto, mas quando assumi o PROS, a deputada Carla Dickson era vereadora, depois como suplente assumiu a vaga na Câmara dos Deputados, mas essas coisas acontecem. Não vamos prender ninguém, mas se ela quisesse ficar era ótimo. Mas está querendo ir para um partido de direita e a gente respeita. O mais importante é que o PROS tem uma nominata hoje, que elege um deputado federal. Há dois anos anos que a gente costura essa chapa.

O senhor é pré-candidato a deputado federal? Como vai ser concorrer com o seu cunhado e deputado federal João Maia? Como equacionar isso, uma vez que apoiou ele em campanhas anteriores?
Quando digo que 14 meses é muito tempo, 14 anos é muito mais. Se for atrás que Zenaide Maia não se elegeu mais pelo Partido Liberal (PL), qual foi a candidata ao Senado Federal, noutra coligação, noutro partido, quando Zenaide era filiada ao PL? Suspenderam Zenaide, tiram ela de todas as Comissões, porque ela votou contra o teto da morte, que está aí acabando com o país, retirando R$ 22 bilhões do SUS com essa desculpa do teto que não existe em lugar nenhum do mundo, só aqui. É uma piada um negócio desse. Zenaide votou do lado do povo, foi suspensa. No mesmo dia, fui à casa de João Maia, que continua sendo meu amigo, homem de bem e nunca sai de canto nenhum esculhambando com ninguém. Disse a ele: a partir de hoje estou fora do PL, porque o governo Michel Temer vai continuar contra o povo, como foi até o fim e Zenaide vai votar contra esse governo até o fim e, como o maior líder do PL, Valdemar Costa Neto não vai mudar, a gente vai sair. Sabe quanto tempo faz? Mais de quatro anos. Agora Bolsonaro está no PL e quem me conhece, eu e Zenaide, sabe que é uma mistura que não dá certo.

O senhor é pré-candidato a deputado federal ou pode escolher outro cargo eletivo?
Estou trabalhando para ser candidato a deputado federal. Não sou candidato contra A, B ou C.  Sou candidato contra a fome, contra a miséria, contra essas coisas tristes, porque aqui, infelizmente, fica Fulano contra Sicrano. Se isso desse resultado, o Rio Grande do Norte era uma Suíça, porque desde os cinco anos de idade, que acompanho, e é assim. É a briga de Fulano contra Sicrano. Se isso desse resultado, estávamos  no céu. Eu me recuso a fazer isso. Tenho bandeira, trabalho por coisas que a gente acha que é certo e pode ajudar o povo e ajudar as empresas e o setor produtivo do Estado.

Como vai ser essa nominata do PROS? Sozinho dá pare eleger um federal?
Segredo de estado, porque se a gente divulga, sabe o que acontece? Os que têm mais condições e oferece os céus e as estrelas... Tem gente que se encanta com isso e quando a gente vai ver, vai embora. Então, no dia 5 de abril me procurem, que eu digo o nome de todos.

Existe a possibilidade do deputado federal Rafael Motta ingressar no PROS?
Não está se discutindo isso, está se discutindo conversas de aliados. O PSB é um aliado de primeira hora da governadora Fátima Bezerra, o PROS é um aliado de primeira hora e o PV é um aliado da governadora Fátima. Então, nada mais natural a gente conversar, todo mundo está conversando com todo mundo. Mas eu falo do PROS, que não vai fazer federação com ninguém. O PROS avisou, há dois anos a gente faz nominata no Brasil inteiro, estamos aqui fazendo o dever de casa, prontos para fazer um federal e dois ou três deputados estaduais, esse é nosso objetivo.

Mas voltando à questão da majoritária, o PROS vai defender a presença no cargo de vice, tem condições de oferecer um nome?
Nome tem, não falta nome. Mas o velho Ulysses Guimarães dizia que a política é o homem e suas circunstâncias.

Como o senhor avalia essa discussão para levar ao grupo de partidos aliados do governo, um partido como o MDB, por exemplo?
Acho natural, porque é preciso aumentar as bases eleitorais e políticas. Acho que o ex-presidente Lula está certo ao trazer novos aliados, todo mundo sabe que quando ele ganhar, vai chamar. Então, o que Lula está dizendo para o Brasil: Vamos chamar logo, porque quando ganhar, eu chamo, você não vem, mas o eleitor está sabendo que chamei você. E amanhã eu preciso de você para administrar o Brasil, eu chamo e ninguém vai estranhar, simples assim. Acho que o que Lula está mostrando transparência: antes da eleição, mostrar o que é que deve ser feito. Acho certíssimo, agora, uma coisa é chamar um cara para ser aliado e outra é dar o pescoço para ele, é outros 500 mil réis.

O que seria esse pescoço nesse chapa?
O pescoço é importante, não é? O cabra só tem um, tudo que você só tem um é muito importante, não pode dar um e ficar sem ele.

Mas o MDB indicaria o vice na chapa com a governadora?
Essa é uma conversa que ainda não tivemos, eu não vou ter essa conversa com todo o respeito, antes de conversar com a governadora.

O prefeito Paulo Emídio (São Gonçalo do Amarante) vai lhe apoiar para deputado federal?
Claro, o prefeito é do PROS, Paulinho foi eleito pelo 90.

O senhor deixa a Secretaria no começo de abril, já tem algum nome para ficar no cargo, vai fazer uma indicação à governadora do Estado?
Isso vou falar com a governadora, até porque o cargo é dela. Mas na hora certa vão saber.

O ministro Fábio Faria (Comunicações) disse à TRIBUNA DO NORTE, na semana passada, que o governo estadual só conseguiu pagar a folha de pessoal por causa da ajuda que veio do governo federal, do presidente Bolsonaro...
Não existe o dinheiro do governo federal, existe o dinheiro do Brasil, o IPI é um imposto sobre a indústria que o governo federal arrecada, mas uma parte é do estado e outra do município. O Fundo de Participação é formado pelo IPI e pelo Imposto de Renda. Então, aquilo não é do governo federal. Acho que isso é resquício do feudalismo, que ainda está na cabeça de muita gente, querendo manter os privilégios, é como se fazer a coisa pública fosse um favor, não é isso. Desde menino, minha avó dizia assim – “não fale em corda na casa de enforcado”. Quem deixou o Estado na situação que teve, do jeito que encontramos? Essa Secretaria não tinha carro nem próprio e nem alugado e ela distribuía R$ 300 milhões de incentivo do Proadi. Como é que pode ser isso, distribuir R$ 300 milhões e não ter um carro alugado para fiscalizar? Esse Estado foi desmontado peça sobre peça, mas venceu em quatro anos um déficit de R$ 4 bilhões e está recomeçando a recuperar a sua capacidade de investimentos, está investindo R$ 400 milhões na educação com esse programa da nova escola potiguar, que vai treinar novas profissões, um novo horizonte que está na nossa porta, a energia eólica, offshore (fora da costa marítima), hidrogênio verde. Mais de 800 leitos hospitalares foram instalados em plena pandemia de coronavírus, investimentos na segurança, com redução da violência, o turismo, mesmo não tendo o fluxo que gostaríamos de ter, Natal está sendo procurada por causa de um conjunto de medidas, são mais de 14 decretos, todos facilitando a vida das pessoas, desde a redução do ICMS dos pescadores, pequenos e grandes barcos, até atacadista, temos a melhor legislação do Nordeste, por isso, que é Atacadão em todo canto com centros de distribuição, a lagosta que era 18%, agora é 1,5%, o camarão também. Olhe o que é a cultura hoje e no dia em que o governo Fátima Bezerra assumiu. Esse conjunto de medidas melhora a autoestima do norte-rio-grandense e atrai investimentos.

Algumas pesquisas divulgadas ano passado colocam Fátima Bezerra na liderança, mas também apontam a maior rejeição dela entre os pré-candidatos, ela vence a eleição nessa condição?
Há quatro anos diziam o quê? A mesma coisa, ela ganhou ou não ganhou? Tem uma coisa muito simples, Lula teve 70%  nas duas eleições dele aqui no Rio Grande do Norte, Dilma Rousseff 70% nas duas eleições dela e Fernando Haddad, no pior momento e no melhor momento de Bolsonaro, ele teve 64% dos votos e Bolsonaro 32%, a metade, dois para um. Houve algum fato determinante para alterar esse quadro? Não houve, o que está havendo e estou vendo no Rio Grande do Norte, é que se chega na casa de uma pessoa, a mulher diz, olhe, o senhor apoia Lula? Se não apoiar nem entre aqui.

Então, o senhor considera que o percentual Lula puxa a eleição de Fátima Bezerra?
Acho que como as bandeiras que Lula defende, são as mesmas de Fátima, vai ser a mesma posição, é o mesmo eleitor ou não é, simples assim. O eleitor é o mesmo, agora, há variáveis, não há candidato eleito, tem uma campanha pelo meio, senão era só nomear, claro. Precisa ter humildade e saber que tem uma campanha no meio. São muitos interesses, uns contestam, outros não contestam.

A governadora Fátima Bezerra não conseguiu reverter sua imagem no eleitorado de Natal, as eleições de 2018 e 2020 mostraram isso e as pesquisas também?
Natal é muito complexo, moro aqui desde 1976 e conheço isso, nossa mídia tem um ranço histórico contra, a gente sabe, mas é isso mesmo. Do jeito que há uma tendência muito forte pra eleição de Fátima, e estou dizendo que isso não é uma coisa já vencida, a gente sabe que não é. A mesma coisa é a virada de Natal, pode ser, Lula ganha em Natal.

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