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Artigos
Aforismo sobre Celso Furtado
Publicado: 00:00:00 - 31/07/2022 Atualizado: 16:20:29 - 30/07/2022
Tomislav R. Femenick
Jornalista e historiador, membro do membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN)

Naquele ano choveu muito mais do que simplesmente muito. Choveu além do que Deus deveria permitir. Mas a sina do Nordeste tem sido essa: alternam-se os períodos de seca e de inundações. É quase um círculo vicioso, pois, enquanto a seca é provocada por fenômenos internos e externos à região, as enchentes são causadas pela baixa profundidade e pouca largura dos leitos dos rios, majoritariamente rasos e estritos pela pouca frequência de correnteza de águas que os aprofundem e alarguem. 

O ano de que estou a falar foi 1961. Em abril as chuvas se deram em toda a bacia do rio Mossoró, principalmente na parte baixa, onde ficam os seus afluentes, rios do Carmo, Morro Branco e João do Rocha. Mas, desde o alto do rio, era chuva demais, arrombando os açudes. Primeiro, as águas se espalharam pelas lavouras ribeirinhas. Depois, invadiram o centro da cidade de Mossoró e a zona salineira. Aí o estrago ficou feio. Foram destruídas 227 mil toneladas de sal, que estavam estocadas nas salinas de Mossoró, Grossos e Areia Branca. Mais de 65% do sal ali existente voltaram a ser água.

Nessa época eu era funcionário do Banco do Nordeste e um dos principais clientes da agência local era a S/A Mercantil Tertuliano Fernandes, responsável por um dos maiores financiamentos concedido pelo BNB até então, cuja garantia era suportada, inclusive, por algumas das salinas inundadas. Por isso fomos escalados – eu e o meu colega José Paula de Souza – para fazer uma visita às salinas danificadas, pois quase todas eram de clientes. Na volta, apresentamos nosso relatório, detalhando os fatos que constatamos. Missão cumprida, voltamos às lides corriqueiras. Eis que fui incumbido pela Direção Geral do banco para participar de uma reunião em Natal, no Palácio do Governo.

Foi o primeiro encontro que tive com o Dr. Celso Furtado, então Superintendente da Sudene. Uma figura carismática. Por mais que se fale de sua importância na disseminação dos estudos de economia no Brasil, é pouco. Seu livro “Formação Econômica do Brasil” está na galeria das obras obrigatórias para quem deseja conhecer, compreender e entender o nosso país. 

Naquela reunião de 1961 eu presenciei a força da argumentação de Celso Furtado e a sua capacidade de convencimento. Ele convenceu a quase todos os presentes (o governador Aluízio Alves, os proprietários de salinas e as “autoridades civis e militares”) de que a melhor solução para a indústria salineira do Estado era a construção de uma única e megassalina, de cuja empresa o governo federal poderia participar como sócio e com financiamento. Aí estava o seu viés ideológico, a sua marca. Celso Furtado era um homem de esquerda, cuja formação estava vinculada à esquerda romântica francesa do pós-guerra. E nunca mudou a sua estrutura de pensamento, segundo o qual a economia do país tem que seguir diretrizes traçadas pelos governantes, com o que eu sempre discordei. 

Participamos de alguns eventos sobre economia, no Rio, em São Paulo. Uma vez o visitei em Paris. O nosso último encontro foi na livraria Francisco Alves, na Rua Marconi, em São Paulo, a mesma onde nos vimos quando do seu regresso ao Brasil, depois de cassado pelo regime militar. Conversamos sobre o Rio Grande do Norte. Fez-me algumas perguntas sobre a continuidade dos estudos feitos por Câmara Cascudo e eu não soube responder. Chegaram outras pessoas, seus amigos, e o levaram.
Estas são algumas das lembranças a mim deixadas pelo pensador Celso Furtado.

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