Quadrantes
Além da percepção
Publicado: 00:00:00 - 07/11/2021 Atualizado: 16:25:17 - 06/11/2021
Cláudio Emerenciano
[Professor da UFRN]

A realidade da vida insere o ser humano num universo de ideias, sonhos, sentimentos e percepções. A imaginação fecunda motivações susceptíveis de levar cada pessoa a ascender ou a declinar na essência de sua condição humana. Mas tudo isso se passa em sociedade. Somos, todos nós, interdependentes. Os homens são livres, altivos, dignos e agentes autônomos no percurso de sua existência. Mas podem ser convertidos em marionetes: instrumentos de um sistema político, econômico, social, que os domina e os desfigura. Essa é a síntese da mensagem de André Malraux em “A condição humana”. Mas em “Vozes do Silêncio”, seu legado sobre a evolução da arte, exalta e consagra a ilimitada, renovada e incontrolável capacidade do homem para criar e conceber, enfim, abrir caminhos e ampliar sua visão do mundo e da vida. A obra artística ou literária absorve seu criador. Domina-o integralmente. Confundem-se criador e criação. Michelangelo, extasiado ante uma de suas obras-primas, não se conteve, bateu-lhe com um martelo e disse: “Fala Moisés”. Os gênios buscam o ideal no imaginário. Superam-se para vislumbrar e alcançar o porvir.

Aldous Huxley, em um dos seus ensaios, disse que a imaginação amplia no escritor sua percepção, seu entendimento e suas potencialidades para desvendar, sem limites, o sentido das coisas. À utopia, ou projeção de uma sociedade ideal, inalcançável, chamou de fuga do real: método de aprovação ou condenação, mesmo com subterfúgios ou metáforas da realidade. Os críticos literários têm razão quando dizem que a ficção, invariavelmente, emerge da realidade. O autor impregna suas impressões, suas fugas e suas reações espirituais, psicológicas e afetivas de suas buscas, dúvidas e anseios mais íntimos. É quase impossível disfarçá-los. A criatividade é como a aurora, que se renova em cada amanhecer. Dissemina na “Terra dos homens” um estado de espírito, que oscila entre a alegria de viver e a esperança, a ternura e a paciência, a paz e a segurança, a tolerância e a solidariedade, o desprendimento e a bondade. Coisas a cultivar ou a esquecer. Porque os próprios homens sufocam ou erradicam esses atributos e essas possibilidades quando sucumbem à violência, à estupidez, ao ódio, à inveja, às ambições desenfreadas e à insensatez. Especialmente hoje em dia, neste mundo globalizado, no qual a televisão e as redes sociais difundem, sem qualquer compromisso ético e moral, tudo quanto avilta, perturba, violenta, aliena e degenera a condição humana. Valores e tradições são objeto progressivos de desafios e contestações como se não houvesse outra alternativa. A perplexidade, o desencanto, a insegurança e a egolatria isolam uns dos outros. Assiste-se a erosão vertiginosa de valores que sedimentaram civilizações. Irrompe em muitos pelo mundo afora aquela amargura que atormentou o nobre e culto Petrônio, nos tempos da devassidão de Nero no Império Romano. Edward Gibbon, no clássico “Ascensão e queda do Império Romano”, vaticinou que a humanidade enfrentaria sucessivas vezes ruínas semelhantes. Curiosamente, em 1990, o professor Paul Kennedy, da Universidade de Harvard, em “Ascensão e queda das grandes potências”, atualizou a premonição de Gibbon do século XVIII.  Erros, conflitos, intolerâncias, fanatismos, violências, misérias e desequilíbrio ambiental atestam a marcha da insensatez. A História não se repete, mas...        

Curiosamente, nesta madrugada em que reflito sobre estas coisas, recordo-me do impacto ao ler alguns livros na adolescência, entre os 10 e 14 anos, numa Natal bucólica, pacata, tranqüila (seria “modorrenta”?) e provinciana dos anos 50. Despertaram-me para dramas e questionamentos humanos. Um deles foi “Olhai os lírios do Campo” de Érico Veríssimo. Usando o método de “flashbacks”, Eugênio, seu principal personagem, reconstitui seu passado, dirigindo-se a um hospital onde Olívia, o grande amor de sua vida, está prestes a falecer. Outra ficção, que refletia a realidade da época, foi “Floradas na Serra”, de Dinah Silveira de Queiroz: o sofrimento físico e espiritual de tuberculosos num sanatório em Campos do Jordão, discriminados e segregados. Anos depois, reencontrei-me com esses temas ao ler essa obra-prima de Thomas Mann (filho de uma brasileira de Santa Catarina), que é “A montanha Mágica”, e “Monte Oriol” de Guy de Maupassant. O estigma e o preconceito com doenças e doentes, etnias e religiões, foram denunciados também por outros autores. De certo modo Joseph Conrad, no genial “Lord Jim”, ressaltou a hipocrisia e o indiferentismo de oficiais da Marinha Inglesa, no século XIX, com as condições de vida e a sobrevivência de orientais.   Outro livro que, muito cedo, conscientizou-me do absurdo e da estupidez da violência foi “Nada de novo no Front”, do alemão Erich Maria Remarque. Sua síntese: a inutilidade das guerras e dos conflitos em geral. A sensibilidade do personagem Paul Baumer e seus amigos, identificando a felonia dos que lucram com a guerra, com a violência e o ódio coletivos.

Sempre que os homens renunciam à lucidez e à serenidade, à justiça e à paz, catástrofes sociais convertem-nos em espécies de lobos. Assim se privam de assimilar o sentido da vida e da Criação. O medo das gazelas, ante os   chacais, torna-as maiores em si mesmas, pois saltam mais alto. Os homens também? Repito: há uma erosão moral no mundo. Porém mais abrangente e irrefreável no Brasil. Por quê? Tragicamente as instituições políticas são alcançadas, ampla e profundamente, por esse devastador “tsunami” ético-moral. A fragilidade institucional é latente e irresponsavelmente ignorada. Instalaram-se no poder loucura e histeria, indisfarçáveis, cujos danos são indesculpavelmente atenuados ou ignorados. Até quando?

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