Quadrantes
Além da turbulência
Publicado: 00:00:00 - 19/09/2021 Atualizado: 15:55:15 - 18/09/2021
Cláudio Emerenciano
[ Professor da UFRN]


Todas as pessoas, em todos os tempos, povos e culturas, realizam, pelo menos um dia em suas vidas, uma espécie de voo na noite. Contemplam o mundo e a vida com o coração. Visão espiritual, alçando-se às alturas que lhes permitam divisar e identificar o essencial da vida. Eis quando as ilusões se dissipam com a mesma rapidez das amarguras e dos desencantos. Os sonhos, as esperanças e os sentimentos guiam esse vôo em cada homem. Estado de espírito fascinante e personalíssimo. Suas características são individuais, genuínas e particulares. Como se cada um possuísse, a seu modo, novamente a pureza e os encantamentos da infância. Pois dentro de nós habita a verdade, que a perdemos ou a ignoramos quando nos submetemos ao jogo e às variáveis da malícia, dos egoísmos, das vaidades, da mentira, da covardia, da inveja e do medo. Se a fragilidade e as contradições humanas de Pedro, o “Grande Pescador”, revelaram-se ao negar o Cristo três vezes, antes do galo cantar também três vezes, sua grandeza se projetou no infinito, reconhecendo seu ato pusilânime e, ao mesmo tempo, acreditando no poder ilimitado, infinito e libertador, do amor e do perdão.

A fé exorciza todas as vulnerabilidades, conferindo, singularmente, a percepção da infinitude do tempo.  Não importa o que é efêmero, fugaz e inconsistente. O mal não tem substância. Fundamento e perenidade. Seu conteúdo é falso. Sua forma e seus objetivos desaparecem e se perdem na poeira do tempo. Porque o mal é incompatível com a grandeza e a vocação do homem. A madrugada ´acolhedora do silencio da mente e do espírito, da tentativa de imaginar e desvendar a ilimitada multiplicidade de sonhos, que se sucedem entre o crepúsculo e a aurora. A noite se renova em seu sentido, envolta pelo manto da esperança e das aspirações, que se repetem ou se sucedem. O amor, sempre assumindo tantas feições e tantas formas. Especialmente ternura, êxtase e pureza ao contemplar uma criança a dormir. Cena de conteúdo personalíssimo e sem fim. Renovadora da condição humana. Momento mágico, que exorciza brutalidade e medos.

Entretanto, há homens que, em tempos incertos, inseguros e imprevisíveis, costumam esquecer ou ignorar sentimentos, valores e sonhos que lhes dão substância. É a perda da fé em si mesmo. Ressalte-se o peso da fé na busca que o homem empreende para assimilar o mundo e a vida. Não se ama a quem não se conhece. Dentro de cada um se abrigam percepções e sentimentos. Os laços verdadeiros e legítimos não subjugam. Pelo contrário. Vicejam e libertam sem fim...     

O desejo de viver e desfrutar a vida em paz, em liberdade e com dignidade. O pesadelo da insegurança, da miséria, do abandono, da fome e do desalento. A noite que se desvia do seu fim. Aquela que não pacifica. Atormenta. Onde, em qualquer lugar, os homens sofram, submetidos às circunstâncias que os vitimam e os penalizam, subverte-se o sentido de suas vidas. A razão se submete, então, ao instinto e à insanidade. Mas desde os tempos de Abelardo, Dante e Petrarca, a sabedoria popular delineou o espaço da maldade, confinando-a em si mesma: “o mal por si só se destrói”. Sempre foi, é e será. Assim Winston Churchill vaticinou como ninguém a destruição do terror nazista: “As trevas jamais resistirão à luz. É apenas questão de tempo”.

Enquanto chove na madrugada de Natal, realizo uma espécie de vôo pelo tempo. Retorno à infância. Ouço o tremular, os barulhos que a chuva e o vento provocavam nas arvores do Tirol. Vivíamos numa espécie de pomar. A quietude, a placidez e o bucolismo não eram apenas traços da cidade. Refletiam-se no temperamento e na maneira de ser das pessoas. A fé cristã irmanava todos ou quase todos. Fraternidade, solidariedade, caridade e amor eram explícitos e autênticos. Não havia hipocrisia nem farisaísmo. Ninguém se envergonhava de amar nem de testemunhar o amor pelo próximo. As pessoas não eram ingênuas. Eram verdadeiras. Hoje, setuagenário, convenço-me de que esses atributos e dons de Deus não eram exclusivos da minha cidade. Revelavam-se em todo o Brasil. Em todas as cidades do país. Dos centros cosmopolitas às mais simples e humildes vilas do interior. As pessoas se pareciam mais. A nação era mais homogênea do que hoje. Valores espirituais, éticos e morais se professavam indistintamente. Havia simplicidade e paz no viver.

As nações não se diferem dos homens. O sentido da nacionalidade é a síntese dos ideais, sonhos, sentimentos, valores, crenças, buscas e maneira de ser de todos os homens. Há, predominantemente, no Brasil, uma visão do mundo e da vida. A crise moral, que persiste há anos, afronta a nação. Renega o que lhe dá substância e fundamento. Debilita e enfraquece o que Renan chamava de alma e cultura nacionais.

Há uma dúvida hamletiana na consciência das pessoas. Em todo o mundo. Sem distinção. O homem do campo ainda desfruta, mais estreita e generosamente, do percurso do dia e da noite. O cidadão urbano, na sempre atual prefiguração de Eça de Queiroz em “A Cidade e as Serras”, sublima o progresso e o bem-estar. Mas deixa de partilhar, de maneira mais tranquila e lúcida, do sentido da vida, dos laços e das pequenas coisas. As incertezas remetem cada um para o enigma.  A humanidade será de novo presa fácil da mentira, da mediocridade, do fanatismo, da histeria e da vulgaridade? Subsiste, então, o contraponto.

Pois o homem ainda preserva a irreprimível vontade de desafiar o desconhecido. Vocação e atributos que Homero identificou em Ulisses na “Odisseia”. Mantendo dentro de si o liame entre o sonho e a realidade: a esperança. Sua dimensão é inesgotável. Seu conteúdo consagra o amálgama entre os sonhos e os avanços, a harmonia e a serenidade. Por isso George Bernard Shaw, gênio, dizia ser vital ao homem sonhar, buscar e projetar. Enfrentar desafios. Sem medos nem vacilações. Nunca recuar. Ampliar os caminhos de sua ascensão sem fim...

Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte