Alcaçuz vive rotina de fugas

Publicação: 2015-04-23 00:00:00 | Comentários: 1
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Nadjara Martins
repórter

Se mantiver o ritmo de fugas registrado nos últimos 16 dias, em um mês e meio, o Pavilhão 2 da Penitenciária Estadual de Alcaçuz estará esvaziado. Em abril, durante duas fugas, 67 apenados escaparam do presídio utilizando a mesma estrutura: um túnel subterrâneo ligando o pavilhão à parte de trás do presídio. A fuga mais recente – e a maior da história da unidade –  ocorreu na madrugada desta quarta-feira (22), na qual 35 homens deixaram o presídio. Para o Governo do Estado, não há solução à vista para diminuir as evasões. “Não tem o que fazer, porque os presos estão soltos e dispostos a fugir. Não entra ninguém [nos pavilhões]”, afirma o secretário estadual de Justiça e Cidadania, Edilson França.
Emanuel AmaralEm 15 dias, 67 apenados fugiram usando um túnel, que liga o pavilhão 2 e a parte de trás do presídioEm 15 dias, 67 apenados fugiram usando um túnel, que liga o pavilhão 2 e a parte de trás do presídio

Apenas dez apenados foram recapturados desde a primeira fuga, em 6 de abril. Apesar de a entrada do túnel ter sido obstruída com concreto, os apenados refizeram a abertura e construíram uma nova passagem. Pouco mais de três metros separam os dois túneis. Por volta das 3h desta quarta-feira (22), os agentes penitenciários notaram a movimentação no Pavilhão 2. Naquele momento, sete das dez guaritas do presídio estavam ocupadas por policiais militares e sete agentes penitenciários cuidavam de 950 apenados. No início da manhã, dois presos foram recapturados nas proximidades de Cajupiranga, em Parnamirim.

De acordo com a diretora do presídio de Alcaçuz, Dinorá Simas, hoje os presos circulam livremente dentro dos pavilhões. Durante os motins nas unidades prisionais do Estado, em março, celas e grades foram completamente destruídas – o que dificulta, inclusive, a entrada dos agentes penitenciários para revistas. “Isso facilita [a fuga]. Se fechado eles ainda conseguem escapar, imagine livres”, comentou a diretora. “A última revista no pavilhão 1 aconteceu há 15 dias”, acrescentou. Mesmo com a fuga, foram mantidas as visitas íntimas, programadas para as quartas-feiras, nos outros pavilhões do presídio.

Ainda na manhã de ontem, os agentes penitenciários fizeram novamente a cobertura do túnel com ferro e concreto. Entretanto, para vice-diretor da unidade, Cleibson Câmara, isso não evitará novas fugas. “O rol central do pavilhão está oco. Eles retiram a areia e guardam dentro das celas. Não adianta fazer a entrada e a saída, mas não fazer o caminho”, comentou. Uma das deficiências para destruir os túneis é a falta de maquinário. “Não está tendo revista, eles estão à vontade. Olhe que vão fugir mais, não sei como ainda não fugiram”, avisou.

Em entrevista por telefone, o secretário de Estado da Justiça e Cidadania se disse “frustrado” com a notícia de nova fuga. Entretanto, segundo ele, todas as medidas possíveis já foram tomadas. A Sejuc aguarda a finalização das reformas nas unidades – incluindo no pavilhão quatro de Alcaçuz – para fazer a redistribuição de presos. Ele garante que são feitas revistas nas unidades a cada três dias.

“A direção de Alcaçuz está desinformada, como sempre. Estabelecemos um cronograma de revistas de, no mínimo, três dias, e já começamos desde a última fuga. Inclusive houve resistência e tivemos que usar a força”, afirmou. “Mas não tem o que fazer porque os presos estão soltos e dispostos a fugir. Não entra ninguém, só com apoio do Batalhão de Choque e do Grupo de Operações Especiais. Não posso deixar um agente dentro de cada pavilhão”, acrescentou.

Entretanto, o coordenador de Administração Penitenciária, Durval Franco, reconheceu que, com a defasagem nos efetivos de agentes penitenciários, que compõem o Grupo de Operações Especiais (GOE) e Grupo de Escolta Penitenciária Estadual (GEPE), não foi possível efetivar as ações. “Temos dificuldades em operacionalizar o cronograma. Vamos ver a possibilidade de diminuir o espaço de tempo entre as revistas porque isso exige um planejamento, equipamento e há um grau de risco envolvido”, apontou o coordenador.

Pavilhão dois: 33 continuam nas ruas:

Foragidos
Jackson Souto de Souza
João Maria da Silva
Manoel Paulino da Silva
Ítalo Ralan de Melo Lopes
Jean Gomes Chiola do Nascimento
Leandro Marquez dos Santos Silva
Genilson Antônio do Nascimento
Jariedson Bezerra de Moura  à Jonas Martins de Souza
Paulo Cesar Ferreira Xavier
Ricardo Lucio George de S. Feitosa
Wenio Rodrigues de Melo
Marcos Antônio Pereira
Rafael Silva de Souza
Manoel Soares da Silva
Rafael Girão Lopes
Rodrigues Caetano da Silva
Fábio Augusto Bezerra de Miranda
Francisco Fábio da Silva
Francisco Matheus de Medeiros Silva
Fabiano Carneiro da Cunha
Francisco Danilo Nunes de Aquino
Francisco Italo Vieira da Silva
Emanoel Jalison Jorge da Silva
Fabrício Ferreira Gomes
Francisco Govanilson
Clementino Duarte
Antônio Carlos Pereira Bezerra
Daniel Thiago Souza da Costa
Adriano Araújo da Silva
Bruno Hallys de Andrade Coutinho
Douglas Winnes Silva de Jesus
Willian Pereira dos Santos
Ataíde Rosberg Pereira da Silva

Recapturados
David Martins da Costa (Roubo)
Valdir Correia da Silva (Homicídio)

Revista descobre suposto estatuto do PCC no Pavilhão 2
A revista realizada no Pavilhão 2 durante a manhã de ontem durou quase três horas. Foram retirados colchonetes, travesseiros e uma televisão. Entretanto, a surpresa maior foi a descoberta do suposto Estatuto do Primeiro Comando da Capital (PCC) – facção do crime organizado de São Paulo e que possui raízes nas penitenciárias potiguares.
Emanuel Amaral‘Cartilha’ do PCC foi encontrada em buraco na parede do pavilhão‘Cartilha’ do PCC foi encontrada em buraco na parede do pavilhão

O documento foi encontrado em um buraco na parede do pavilhão. Amarelado e com manchas de sangue, o documento lista as regras as serem seguidas pelos membros do PCC. Entre estas, o respeito à “ética do crime”.

“Aquele irmão que falha na missão por fraqueza, deslealdade e desinteresse será automaticamente excluído e o caso avaliado pela ‘sintonia’. No caso de vazar ideias pode ser caracterizado como traição e a cobrança será a morte”, diz um dos trechos da cartilha. O documento foi entregue à direção do presídio de Alcaçuz.

Além disso, também foi encontrado um novo túnel na entrada do Pavilhão 2. A presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários do Rio Grande do Norte (Sinaspe/RN), Vilma Batista, estava tirando fotos da unidade quando foi “engolida” por um túnel. “Perto da guarita eu vi um colchão. Quanto fastei caí dentro do túnel. Tinha mais ou menos cinco metros de altura e de largura. A sorte é que consegui enganchar um pau na grade e puxar para cima”, contou a agente penitenciária. Para ela, a falta de controle das fugas passam pela falta de estrutura da unidade e de efetivo. “O nosso problema são condições de trabalho. Estamos há nove meses sem munição não letal. É muito planejamento e poucas ações concretas”, apontou. Hoje, o Estado possui 870 agentes cuidados da segurança de 7,7 mil presos.

Trechos do Estatuto do PCC

“Todos os integrantes do comando tem por direito expressar sua opinião e tem por dever de respeitar a opinião da massa e todos (…) E aquele integrante que tentar causar divisão dentro do comando será excluído e deletado”

“Aquele integrante que for pra rua tem obrigação de manter  o contato com a sintonia de sua quebrada”

“O comando não admite entre seus integrantes estupradores, homossexualismo, pedofilia, caguetagem, mentiras, covardias, opressões, chantagem, extorções (sic), inveja, calúnia e outros muitos que ferem a ética do crime...”

“Todo integrante deve ter serteza (sic) absoluta de que quer fazer parte do comando, pois aquele que usufruir dos benefícios que o comando conquistou e pedir para sair (...) será avaliado. Se constatado que o mesmo agiu de oportunismo o mesmo poderá ser visto como traidor (…) e o preço da traição é a morte.”

“Toda missão destinada deve ser concluída. Será feita uma avaliação ou capacidade daquele integrante indicado pela sintonia (…) Aquele irmão que falha na missão por fraqueza, deslealdade e desinteresse será automaticamente excluído”.

“O comando não tem limites territoriais. Todos os integrantes do Primeiro Comando da Capital independe da cidade, estado ou país (...)”

“O comando não tem nenhuma coligação com nenhuma facção de outros estados (...)”


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Comentários

  • leticio_queiroz

    Isso é uma vergonhaaaa! como é que o estado diz que não pode fazer nada, então pra que prende? melhor é deixar soltos ou elimina-los!!! esse governo é uma vergonha!!!