Alceu Valença apresenta show "Amigo da Arte" no Teatro Riachuelo

Publicação: 2019-09-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Cinthia Lopes
Ramon Ribeiro

O repertório autoral de Alceu Valença é tão vasto e diversificado que o permite estar sempre reinventando shows. “Amigo da Arte”, espetáculo inédito que o cantor e compositor estreia em Natal no dia 27 de setembro, no Teatro Riachuelo, é um exemplo. A apresentação em nada tem a ver com o disco homônimo lançado em 2014 quando prestou homenagem ao carnaval de Pernambuco. Em “Amigo da Arte”, o show, a proposta é explorar canções que ressaltam o diálogo entre sua obra e suas referências na arte, em especial na literatura. “São músicas em que menciono escritores, poetas, filósofos, cineastas, artistas em geral. É uma tentativa de mostrar a grandeza, diria mesmo iluminista do pensamento humano e como ele pode dialogar com a canção popular”, explica Alceu Valença em entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

Alceu Valença volta a Natal para apresentar o show Amigo da Arte
Alceu Valença volta a Natal para apresentar o show "Amigo da Arte"

Uma canção boa para sintetizar a ideia do artista é "Agalopado" (do álbum Espelho Cristalino, 1977), em que Alceu reúne três referências literárias de uma vez só: Guimarães Rosa (“viro rosa, vereda de espinhos”), Drummond (“viro pedra no meio do caminho”) e o espanhol Miguel de Cervantes (“Dom Quixote liberto de Cervantes”). Mas outras mostras da relação entre música e arte podem ser ouvidas em “Belle de Jour” (Sete Desejos, 1992), numa aproximação com o cinema de Luis Buñuel; e “Tropicana” (Cavalo-de-Pau, 1982), inspirada nas mangas e cajus do artista plástico pernambucano Sérgio de Lemos. Já em referência à Filosofia, ao citar “O homem é o lobo do homem” na canção “Seixo Miúdo” (Rubi, 1986), Alceu revela leitura da obra “Leviatã”, do inglês Thomas Hobbes.

Sobre essas histórias filosóficas, literárias, musicais, Alceu falou com a reportagem. Confira a entrevista:

No show “Amigo da Arte” você reúne canções que ressaltam o diálogo entre sua obra e suas referências na literatura, na poesia, na filosofia... como foi a construção desse repertório?
Foi minha mulher, Yanê, quem deu a ideia de reunir este repertório num show. Por exemplo, “Agalopado”, que é uma música dos anos 70 diz: “Dom Quixote liberto de Cervantes descobri que os moinhos são reais”. Em outro verso na mesma canção: “viro pedra no meio do caminho, viro Rosa vereda de espinhos”... ou seja, numa mesma canção tenho Cervantes, Drummond e Guimarães Rosa. Em outra canção, “Que Grilo Dá”, esta dos anos 80, menciono o Macunaíma de Mario de Andrade em uma suposta luta contra o homem aranha, e também o João Grilo de Ariano Suassuna. “Na Primeira Manhã” fala do Conde e o Passarinho, uma das mais famosas crônicas de Rubem Braga. “Loa de Lisboa” exalta Fernando Pessoa, “Senhora Dona” é uma homenagem a Mario Quintana, “Seixo Miúdo” tem a citação o homem é o lobo do homem, do filósofo Hobbes. “Belle de Jour”, claro, é uma referência direta ao filme de Luis Buñuel.

Com uma música regional e ao mesmo tempo universal, quais autores e poetas inspiraram o Alceu em diferentes fases da carreira?
Nasci em São Bento do Una, uma cidade de cinco mil habitantes, no agreste de Pernambuco, que tinha dois cinemas, dois grupos teatrais, uma banda de música. E um sem número de poetas. Uma das minhas primeiras influências foi Fernando Pessoa, que me foi apresentado por um dos meus tios. As crônicas de Rubem Braga e a poética de Drummond também me marcaram desde cedo. Curiosamente, quando os encontrei pessoalmente, já então como um artista conhecido no terreno da canção popular, nenhum dos dois me deu muita conversa (risos). O contrário se deu com Mario Quintana, que foi muito amável quando nos conhecemos. Já a filosofia foi uma revolução na minha vida. Tomei contato com os pensadores clássicos nas aulas de filosofia da Faculdade de Direito do Recife, através da professora Bernardete Pedrosa. Depois conheci a obra de Ortega y Gasset, Hobbes... e nunca mais fui o mesmo (risos).

E entre os pernambucanos, quem você poderia citar como referências para você?
Carlos Penna Filho e Ascenso Ferreira, grandes influências. Estes, eu cheguei a encontrar quando menino, já morando em Recife. Carlos era nosso vizinho na rua dos Palmares. Um poeta gigantesco cuja obra deveria ser mais conhecida. Cito um de seus poemas, “Chopp”, na música “Solibar”, do meu disco “Coração Bobo”. Lembro de ter visto Ascenso, um homem imenso, de terno e chapéu, na rua. Eu vinha andando com minha mãe e ela me disse: “meu filho, este é o poeta Ascenso Ferreira”. A figura dele me impressionou. Posteriormente adaptei versos de “O Trem de Catende”, uma de suas obras mais importantes, para fazer a música “Vou Danado Pra Catende”. E musiquei seu “Oropa, França e Bahia”, que virou título de um disco ao vivo que lancei no final da década de 80.

Agora sobre as leituras do momento... O que te leva a livraria?
Para fazer este show, reli muita coisa. Por exemplo, o poema azul de Carlos Pena Filho; o “Caso Pluvioso” de Drummond (que inspirou a canção “Lava Mágoas”, em parceria minha com Dominguinhos), a “Tabacaria” de Pessoa. E também tenho escrito muito. Depois de ter publicado meu livro de poemas (“O Poeta da Madrugada”, em 2015), passei a escrever poemas e crônicas de forma voraz. Escrevo sempre, quando estou em aeroportos, hotéis, na estrada entre um e outro show ou quando a insônia me acomete. Quem sabe vem um segundo livro por aí?

No palco você pretende conversar com o público, contar alguma história por traz das canções, histórias que ainda você não tenha revelado?
Sim, certamente. Gosto de fazer shows em teatro também pela possibilidade deste contato com o público, contar histórias, fazer as pessoas se sentirem mais próximas do artista. A banda é que às vezes não gosta muito porque tem horas em que eu falo muito e eles ficam lá esperando eu concluir minhas conversas (risos).

Nos seus shows você sempre alerta o público sobre a importância da qualidade da música brasileira que é tocada nas rádios atualmente. Você acredita que a poesia das letras foram esquecidas? O que vale hoje é apenas o ritmo?
Sempre digo que o Brasil precisa urgentemente redescobrir sua trilha sonora. Só que o mercado mudou muito. Um disco como “Cavalo-de-Pau” vendeu em torno de um milhão e meio de cópias em 1982. Hoje vivemos a era do streaming, em que as pessoas fazem suas playlists, uma dinâmica totalmente digio dital e segmentada. Tem muita gente fazendo música de qualidade, inclusive poética, no Brasil atual. O problema é que esta produção não é mais massificada, os artistas falam com determinados nichos. Para um músico como eu, com a carreira consolidada, a coisa é diferente. Faço vários shows por todo o Brasil, tenho mais de um milhão e meio de seguidores nas redes sociais. Se você procurar a música “Belle de Jour” no Youtube, verá que tem mais de 30 milhões de acesso. Mas para quem está começando agora eu acho que as coisas estão mais difíceis. Os jovens artistas precisam encontrar sua própria maneira de alcançar seu público.

Você costuma dizer em algumas entrevistas que tem um show para o carnaval, outro para o São João, tem o Alceu mais roqueiro e o mais recente Alceu Sinfônico (com a Orquestra Ouro Preto). Quais versões ainda faltam apresentar do seu repertório?
Tenho vários tipos de show. Nunca fui tradicionalista, mas preservo algumas tradições. No período de festas juninas canto somente aqueles gêneros desenvolvidos no agreste e no sertão que ajudaram a consolidar o forró como o gênero principal do São João, na linha de Gonzaga, Jackson, Dominguinhos e tantos outros. E tome baião, forró, coco, xote, rojão, embolada, martelos e toadas. Do mesmo modo no carnaval canto apenas os ritmos primordiais que caracterizam o carnaval do nordeste, como frevo, maracatu, ciranda e caboclinhos, desenvolvidos sobretudo no litoral e na zona da mata de Pernambuco. Tenho também um show acústico, tenho show de sucessos, outro com meu repertório dos anos 70 (“Vivo! Revivo!”), tem o Grande Encontro, ao lado de Elba e Geraldo, o concerto das Valencianas, com a Orquestra Ouro Preto, cujo segundo volume será gravado no início do próximo ano em Portugal. É como sempre digo: sou como um espelho do meu povo. Eu me reconheço nele e ele se reconhece em mim.

Serviço
Show “Amigo da Arte”, de Alceu Valença. Dia 27 de setembro, às 21h, Teatro Riachuelo. Ingressos: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia).





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