Alecrim alegre da avenida 10

Publicação: 2017-09-17 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Sucesso na voz do pernambucano Geraldo Azevedo, “Avenida 10” é querida por muitos natalenses, principalmente aqueles moradores do Alecrim. Autor da canção, o cantor e compositor potiguar Babal conseguiu imprimir na música tanto o panorama poético da avenida, quanto a atmosfera do bairro nos anos 1960. “Ali não tem ficção. O que digo na música é tudo verdade”, afirma o artista.

Nascido e criado na Avenida 10 (rua dos Paianazes), entre as ruas 4 e 5, foi nessa área que Babal experimentou uma infância livre, solto na rua, na época ainda de barro. Foi lá também que, ao lado dos irmãos Eri, Galvão Filho e João, que se descobriu para a música, pelo tocando violão, depois deixando aflorar letrista que o consagrou como um dos grandes compositores do RN.
Foi na Avenida 10, também chamada rua dos Paianazes,  onde o músico Babal experimentou uma infância livre, solto na rua
Foi na Avenida 10, também chamada rua dos Paianazes,  onde o músico Babal experimentou uma infância livre, solto na rua

Aos 60 anos, Babal conta com quase 200 músicas gravadas – boa parte na voz de destacados cantores locais e nacionais, como  Valéria Oliveira, o já citado Geraldo Azevedo e Chico César. Suas primeiras influências musicais passavam por Waldick Soriano, Jackson do Pandeiro, Anísio Silva, Los Panchos, Trio Irakitan, dentre outros que tocavam na programação da difusora Rio Grande, transmitida no Alecrim.

Com quatro décadas de carreira, o potiguar tem passagens pelo grupo Bando de Natal e a banda Flor de Cactus, antes de se lançar na carreira solo. No total,  lançou seis álbum – dois com a Flor de Cactos, dois individuais e dois em parceria (um com Lívio Oliveira e outro com Galvão filho, feito para o auto de Natal). Paralelo a carreira de cantor e compositor, Babal também faz jingles e atua com produção e direção musical. Atualmente ele está trabalhando em dois novos discos, um solo, e outro em parceria com dois artistas potiguares.

Embora morando em Lagoa Nova, Babal não esquece o Alecrim. Ele está sempre por lá, visitando a irmã e os amigos de longa data. O carinho pelo bairro é imenso, apesar de ver o espaço bastante transformado. Nesta entrevista, o potiguar revisita a rua imortalizada em Avenida 10, comentando alguns versos e lembrando de histórias que vivenciou no Alecrim.

Criança de pés descalços

A Avenida 10, na região onde eu morava, entre a 4 e a 5, tinha o chão de areia. Mais embaixo tinha meu avô, com seu Cinema São Sebastião. Tudo aquilo era o mundo da gente. Minha infância no Alecrim foi brincando na rua, com lama, água corrida de chuva, pés descalços, se sujando, jogando bola, brincando de bandeirinha, garrafão. Era tudo muito simples, mas sempre foi uma grande alegria.

Lugares marcantes

No Alecrim tinham muitas vilas, algumas tornaram-se travessias. Na 8 tinha o cinema de dona Betinha. Havia também uma fábrica de cuscuz, a Imperial, maravilhosa, passava vendendo na rua. Tinha um cidadão que vendia munguzá. Tinha Joquinha que tocava sanfona e pedia esmola. O bairro guarda muitas histórias e personagens.

São Sebastião

No bairro tinha a festa de São Sebastião, da Igreja, com a procissão no dia 20 de janeiro. A gente gostava porque vinha o Parque de Diversões, tinha uma banda de bonecos que tocava e a difusora que jogava músicas de Waldick Soriano, Jackson do Pandeiro e Gonzagão pra todo mundo. No São João eu dançava quadrilha, tinham umas três no trecho que ia da rua 4 até a linha do trem. A Avenida 10 ficava cheia de fogueiras.

Carnaval

No carnaval a gente saia na banda “Bagunça do Mingo”, dedicada a Mingo Araújo, criador da brincadeira. A banda saia no domingo, arrudiando a Avenida 10. Girando lá o tempo todo. Fazendo a festa, dentro de uma corda. Falo dessa bagunça na música.

Golpe militar

Em 1964, criança, eu ia para escola e no caminho passava pela Vila Naval. Era comum ter os oficiais navais nas esquinas, mas com o golpe, passaram a ter outros militares, do exército,  que colocavam cordas estivadas em alguns pontos. Eu não fazia ideia do que era aquilo. Lembro de perguntar pra pessoas e ninguém me explicar. Com o passar do tempo é que fui entender que vivíamos o golpe militar. Também abordo isso na “Avenida 10”, na parte “Quando não era possível ter sonho, a gente tinha um”.

Despertar para a música

A minha relação com a música começou através do meu irmão Ery Galvão, que na época da escola já tocava no conjunto Milionários. Ele ensinou o João a tocar violão. Depois, quando os dois saíram de casa, curioso, comecei a pegar o violão e repetir o que via eles fazendo. Minha relação com a música surgiu assim.

Amplificadora Rio Grande

Foi com as músicas que tocavam na Amplificadora Rio Grande que me informei musicalmente, ouvindo Gonzagão, Jackson do Pandeiro, Carlos Alberto, Anísio Silva, Los Panchos, Trio Irakitan. A amplificadora tinha cinco bocas de ferro, ficavam na avenida 8, na 12, na Baraúna, nas esquina da 5 com a 10 e outra na pastelaria São Sebastião.

Primeiras composições

Saí da Avenida 10 quando tinha 13 anos. Eram os anos 1970, eu já mexia no violão, mas não compunha ainda. Minha primeira composição fiz com o Leonardo Cavalcante, o Naná. Não lembro o nome dela. A partir delas vieram outras parcerias, como as com Enoch Domingos e Jaumir Andrade. Esses dois foram a pedra fundamental do começo do meu trabalho.

Os quatro irmãos

No começo as nossas referências musicais foram as mesmas, com o tempo fomos descobrindo nossos caminhos. A nossa convivência é muito boa dentro da música. Cada um com seu trabalho distinto. Vez por outra a gente mostra uma canção pro outro, principalmente nós que estamos em Natal – eu, João Galvão e Galvão. Ery mora no Rio de Janeiro, mas mostra o que tem feito de lá. Galvão Filho é bem atuante em Natal. João é professor de inglês, está um pouco afastado da música, mas tem um material inédito muito bom guardado.

A música Avenida 10

A canção surgiu de algo muito simples. Comecei a escrever um texto sobre o que vivi na 10, pra deixar registrado. Botei no papel tudo que acontecia, como a gente brincava, a alegria de estar junto, tudo que nos cercava, lembrei de algumas pessoas que foram importante, muitos amigos. Ali não tem ficção. É tudo verdade na canção.

A avenida 10 hoje

Como sempre, o progresso alavanca não só as coisas boas. A areia do chão que tinha na avenida saiu. Hoje não tem como brincar, o transito é forte. A casa que nasci não existe mais, virou um prédio de dois andares. O cinema acabou. Foi embora muitas coisas. O que permanece é a linha do trem. Moro em Lagoa Nova, mas sempre vou lá. Tenho uma irmã que vive no Alecrim, além de amigos. Algumas casas foram mantidas. Tem muitas coisas desfiguradas, que virou loja. Mas a avenida 10 continua, bonita do mesmo jeito.

Mais espaços culturais

Sobre o Sandoval Wanderley, é um teatro pequeno. Quando construíram um banco na lateral, abalaram com a estrutura. Depois tentaram melhorar. Fizemos shows lá. Fui a shows de vários amigos. Era pequeno, mas funcionava. Não sei como vai ser essa negociação. É um pouco complicado pra gente do Alecrim ficar sem um espaço cultural.


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários