Alecrim: um choque de gestão

Publicação: 2009-12-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Aos 98 anos de idade recém-completados, o bairro do Alecrim vive uma revolução silenciosa.

Ocupado predominantemente pelo comércio popular e camelôs, o bairro mais tradicional do comércio popular de Natal abriga potencialidades desconhecidas até de seus próprios habitantes, acostumados ao caos de seu trânsito e à crônica dificuldade de se circular por suas calçadas.

O Alecrim é líder na arrecadação de ICMS - com 36% do total -  e emprega mais de 30 mil pessoas com carteira assinada. Por suas ruas circulam em média 60 mil pessoas nos dias de semana, número que dobra aos sábados.

Esses predicados renderam ao bairro o interesse não só de empreendedores que lá vem se instalando nas últimas décadas, com também o olhar atendo por parte  de agências e instituições interessadas no crescimento do empreendedorismo no Brasil.

Nesse contexto, o Alecrim é um manancial inesgotável de potencialidades. Muitos negócios plantados ali nasceram de iniciativas familiares, que já se encontram em sua terceira geração.

Ali, casos de sucesso existem e muitos, porém, são inúmeros os exemplos de empresas paradas no tempo, carentes de uma injeção de conteúdo gerencial e de inovação.

A informalidade e a pirataria também são realidades que poderão estar com seus dias contados a partir de ações como o Empreendedor Individual.

Francisco Derneval de Sá, tradicional lojista do Alecrim e que deixou este ano a presidência da associação de lojistas do bairro, diz que lá  não falta  vocação para o crescimento.

O problema é que crescer não é uma tarefa simples. Exige planejamento e organização que só agora começam a chegar ao bairro na forma de projetos ambiciosos como o ALI - Agentes Locais de Inovação, do Sebrae. O  RN foi terceiro estado da Federação a recebê-lo – e justamente no Alecrim.

Mabele Dutra, gestora do ALI no RN, confirma que o bairro em questão concentra 31% de todos os negócios de Natal e 40%  do comércio varejista.Por isso mesmo, foi o escolhido para receber o projeto, que tem como objetivo levar aos empresários e empreendedores o recorrente tema da inovação, ampliando a competitividade dos lojistas  ali estabelecidos.

“Antes de entrarmos com o projeto, este ano, constatamos que os lojistas do Alecrim acessavam pouco o Sebrae por entenderem que os nossos serviços eram voltados para grandes empresas, quando é exatamente o contrário”, diz Mabele.

Tendo à disposição 30 bolsistas da Fundação de Apoio a Pesquisa do RN, desde agosto último, o ALI realiza diagnósticos nas empresas do bairro. A preocupação é saber o que anda errado nelas para depois oferecer um panorama de soluções aos donos.

“Sabemos que para ser inovadora a empresa precisa ser detentora de um processo continuado de inovações”, lembra Mabel.

Os agentes que hoje ocupam mais de 400 empresas do Alecrim passaram por uma capacitação de 280 horas, na qual receberam orientação de profissionais do país inteiro postos à disposição pelo Sebrae nacional.

Hoje, poucos meses depois de iniciado o trabalho, de 1.300 empresas cadastradas, 470 já são atendidas pelos “alis”, como são chamados os agentes de campo.

“Nossa meta é estar em 1.500 empresas até 2011”, garante Mabele. Além do diagnóstico, as empresas receberão em breve um parecer técnico sobre seu funcionamento assinado por um consultor sênior, que é o tutor dos “alis”.

“O agente aplica a metodologia, troca informações e realiza um parecer supervisionado por esse consultor sênior”, explica a gestora do programa.

Depois disso, é elaborado um plano de trabalho juntamente com o empresário. Nele, há um conjunto de ações necessárias propostas a partir do parecer, contemplando  desde mudança de layout da loja, estilo de gestão da equipe, mudanças na forma de administrar estoques e demais informações .

A importância econômica do  Alecrim se deve, entre outras coisas, ao fato da clientela do bairro estar fortemente baseada no   interior. Isso significa que além de atender a um grande público de Natal, muito dinheiro de outras cidades aporta no bairro. “Tem gente de Paus dos Ferros comprando regularmente no Alecrim”, diz Mabele.

Por isso mesmo, o varejista ali precisa estar ligado a questões como, por exemplo, quem é seu público e o que o lojista deve fazer para diferenciar seu negócio de outros estabelecidos na mesma rua.

Em suas andanças pelo Alecrim, os “Alis” perceberam, por exemplo, que a Tecnologia da Informação não é bem aproveitada nos nas lojas do bairro. Questões como automação e controle do estoque puxam a fila de deficiências.

“Há muito estoque parado, compras feitas sem controle de entrada e de saída, compras descalibradas e falta de espaço de circulação nas lojas, pois a mercadoria toma todos os espaços”, cita Mabele .

A esperança do projeto ALI é que, no curto prazo, os beneficiados exibam uma reação positiva, agindo para eliminar deficiências e tirar melhor proveito de seus pontos comerciais. Afinal, tradição de bons serviços não falta ao bairro desde a sua criação, em 23 de outubro de 1911.

Conta o livro “Memória do Comércio – Rio Grande do Norte”, de Emanuel Barreto e Auricéia Antunes de Lima, editado pela Fecomercio, que quando houve o incêndio do Mercado da Cidade Alta, em janeiro de 1967, o então prefeito Agnelo Alves conseguiu junto a Sudene verba para a construção de um novo mercado para o Alecrim. O bairro estava tão predestinado a crescer que, apesar da cassação de Agnelo pelo governo militar, em setembro de 1969, o seu sucessor Ernani da Silveira manteve o projeto de construção do mercado. No dia 4 de setembro de 1970, o Alecrim ganhava seu mercado e dava impulso a uma tradição dentro do varejo iniciada muitos anos antes e que transformou o Alecrim num dos maiores centros de compra do RN.

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