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Quadrantes
Aleluia
Publicado: 00:00:00 - 17/04/2022 Atualizado: 14:30:49 - 16/04/2022
Cláudio Emerenciano 
[ Professor da UFRN]

Há tempo para tudo. A Semana Santa, para os cristãos, é tempo de reflexão, oração e reavaliação do sentido da vida. Recordação de fatos e circunstâncias que evocam os primeiros caminhos em busca de Deus e da fé. Tudo converge para a vida do Cristo Jesus. Seu testemunho infinito de vida e de amor.

Nestes tempos tão contraditórios, incertos e inseguros, o maior desafio do cristão reside em preservar, praticar e crescer em sua fé. Entender plenamente o significado dessa revelação de São Paulo: “Eu não sou eu, mas o Cristo que vive em mim”. Assumindo, corajosamente, essa postura diante do mundo e da vida, segundo as palavras do próprio Jesus: “Em verdade vos digo que, se não mudardes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 18,2). Eis a verdadeira transformação do homem e da humanidade. 

Revogar os egoísmos, as vaidades, a hipocrisia, a mentira, a maldade, o ódio, a crueldade, a inveja, a intolerância e as mesquinharias. Ser comprometido com a verdade, a justiça, a promoção do bem comum, a honestidade e a fraternidade. Exercitar a caridade como o “Bom Samaritano”, identificando em cada homem, mulher e criança, o seu próximo. Será impossível? De modo algum. Mas, a bem da verdade, Mohandas Gandhi, o Mahatma (Grande Alma), que professava outra fé religiosa, frequentemente aconselhava seus amigos cristãos, ocidentais, a crescer no conhecimento e na imitação do Cristo. Relembrava palavras de um pensador cristão, Michel Quoist: “Não se ama a quem não se conhece”. Não se pode amar Jesus sem conhecê-Lo. E amar a humanidade.

Impõe-se aos homens de sempre e à posteridade uma reflexão sobre as circunstâncias, a ambiência, o meio geográfico e a postura dos que testemunharam ou vivenciaram, com atitudes dignas ou infames, o processo de julgamento e crucificação do Senhor Jesus. Também inserção em sua dimensão humana e espiritual.  Era primavera. Os campos e as cidades eram submetidos a uma transformação súbita e deslumbrante. A vida explodia irradiante no esplendor das flores. As arvores, até então cobertas pelo manto cinza do inverno, como se estivessem mortas, ressequidas pelo frio, da noite para o dia exibiam uma indumentária verdejante em suas folhas e frutos. As amoreiras, os eucaliptos, os cedros, as tamareiras, as palmeiras e os ciprestes eram exceção. O inverno e o frio não afetavam sua configuração. Mas aquela metamorfose parecia alcançar o infinito. De dia, um azul, forte e encantador, era cor e vestimenta da abóbada celeste. Não havia nuvens para turvar ou encobrir essa perspectiva de beleza e paz. As aves do céu bailavam em todas as direções. O seu canto anunciava a aurora e antecipava o crepúsculo. Enquanto as noites eram adornadas pelo espetáculo, inquietante e enigmático, das estrelas no firmamento. Uma temperatura amena, agradável, repetia-se todos os anos na mesma época. Assim eram os meses de março e abril na Terra Santa daqueles tempos. Em Jerusalém, na Páscoa, pombos eram soltos das gaiolas como oferenda ao Senhor Deus e voavam circundando o Templo.

Crueldades, monstruosidades, perversões e contradições humanas se revelaram no processo de prisão, martírio e crucificação de Jesus Cristo, Nosso Senhor. A traição e a maldade de Judas. A fraqueza e o medo de São Pedro ao negá-lo três vezes. A inveja, o ódio, a ambição, a impiedade, a desfaçatez e a felonia de Caifás, Ananás e demais membros do Sinédrio. Exceção apenas de José de Arimatéia, Nicodemus e Gamaliel. A morbidez e o cinismo de Herodes. A pusilanimidade, a arrogância, a injustiça e a ferocidade de Pilatos. A desumanidade e sadismo dos que o torturaram e o martirizaram. Desde sua prisão por agentes do Templo ao suplício por romanos. Mas, em circunstancias distintas de sua Paixão, Ele testemunhou sua missão e sua divindade. Em Getsêmani, dialogando com o Pai: “Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lucas 22, 42). Respondendo a Caifás: “Tu o disseste. Aliás, eu vos digo que de ora em diante vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Lucas 22, 69). Perante Pilatos reafirmou sua realeza celestial: “Para isto nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade, escuta a minha voz” (João 18, 37). Na Cruz, perdoou a humanidade, em termos pretéritos, presentes e futuros. Mas também a libertou do mal, resgatando-a com sua imolação. Enfim, entregou-se a Deus, seu Pai: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23, 46). Ao expirar, Jesus se dirigiu ao Pai depositando-Lhe sua essência, explicitada à samaritana em passagem do Evangelho segundo São João (4, 24): “Deus é espírito; e importa que seus adoradores o adorem em espírito e em verdade”). Jesus, o Filho de Deus, é espírito e com o Pai partilhou a Criação (João 1,1-5,9-11). 

Jesus e a Ressurreição. O sepulcro vazio. O anjo anunciando a Maria Madalena e à outra Maria que Jesus está vivo. Jesus fala com as santas mulheres. Jesus e os discípulos na estrada de Emaús. Jesus diante dos apóstolos e de sua mãe, Maria Santíssima. Jesus reapareceu para testificar sua ressurreição a Tomé: “Tomé, tu credes porque vistes. Bem-aventurados aqueles que não viram mas crêem”. A comovente, vigorosa e contrita resposta de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”.

Palavras de Jesus, antes de ascender ao Pai, foram de  exortação à vida coletiva e individual, com todas as suas implicações e desdobramentos: “Eu vos deixo a Paz, eu vos dou a minha Paz”. O mundo clama sempre por sua Paz. Sua Paz é caminho de amor sem fim. A barbaridade praticada na Ucrânia e noutras partes do mundo, não pode ser convalidada pela cristandade. Jamais. Jesus é a alegria dos homens. Aleluia...    

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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