Internacional
Alemanha tem eleição acirrada
Publicado: 00:00:00 - 25/09/2021 Atualizado: 23:58:36 - 24/09/2021
À s vésperas da eleição na Alemanha, a corrida para suceder a Angela Merkel estava completamente aberta ontem, com o partido da chanceler, a União Democrata-Cristã (CDU), ganhando força na reta final. Três pesquisas importantes mostraram que o Partido Social-Democrata (SPD) perdeu a vantagem que tinha. A eleição será amanhã.

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Chanceler Angela Merkel não concorre nesta eleição, mas decidiu ajudar na campanha

Chanceler Angela Merkel não concorre nesta eleição, mas decidiu ajudar na campanha


O SPD vinha liderando a corrida há semanas, mas viu sua vantagem reduzida a uma margem tão estreita que passou a ser praticamente inexistente, considerando a margem de erro das três sondagens. Uma pesquisa feita pelo Civey, para a emissora ZDF, mostrou o SPD estável com 25% da intenções de voto, mas a CDU ganhou um ponto porcentual com relação à semana anterior e apareceu ontem com 23%.

Outra sondagem, do instituto Allensbach, para o jornal Frankfurter Allgemeine, mostrou a disputa ainda mais acirrada. O SPD tinha 26%, perdendo um ponto porcentual com relação à sondagem passada, do dia 8 de setembro, e a CDU contava com 25%, mantendo estável sua margem de intenção de voto com relação ao mesmo período.

Uma terceira pesquisa, do instituto Forsa, divulgada ontem, também mostrou que a CDU ganhou um ponto porcentual em uma semana, ficando com 22%, enquanto o SPD manteve os mesmos 25% da pesquisa anterior.

Especialistas dizem que uma das razões pelas quais a eleição alemã deste ano estar mais apertada e menos previsível do que o normal é que os candidatos são relativamente desconhecidos para a maioria dos eleitores. "Certamente não é a eleição mais entediante que já tivemos", disse o cientista político da Universidade de Leipzig Hendrik Traeger. "Houve aquelas em que Angela Merkel permanecia como líder e era simplesmente uma questão de como ela governaria."

Desta vez, o partido de Merkel tem lutado para energizar sua base tradicional, que até agora não conseguiu demonstrar todo seu apoio a seu candidato, Armin Laschet, um político impopular que cometeu várias gafes durante a campanha. "A questão-chave é saber se esses eleitores vão superar o obstáculo de Laschet e votar na CDU, apesar dele", disse Peter Matuschek, do instituto de pesquisas Forsa. "Ou se eles vão se abster de votar ou mesmo escolher outro partido."

Depois de permanecer à margem da campanha, no último mês, Merkel não tem poupado esforços para expressar apoio a Laschet, governador do Estado da Renânia do Norte-Vestfália. Ontem, ela fez um apelo aos eleitores. "Para que a Alemanha permaneça estável, Armin Laschet deve se tornar o chanceler", disse Merkel, durante um comício em Munique. "A questão de quem governa na Alemanha não é trivial."

A chanceler, que governou a Alemanha por 16 anos, também se pronunciou contra o candidato do SPD, alertando para o cenário de vitória do social-democrata Olaf Scholz, seu atual ministro das Finanças. Merkel estará com Laschet hoje no encerramento da campanha no reduto do candidato, na cidade de Aachen, perto da fronteira com a Bélgica.

Os verdes, com Annalena Baerbock concorrendo pela primeira vez a chanceler, aparecem em terceiro lugar nas pesquisas, mas podem acabar sendo uma peça importante na formação de um governo no caso de uma vitória dos social-democratas. Com uma campanha considerada decepcionante, o Partido Verde aparece na pesquisa com entre 15% e 17% das intenções de voto. 

Durante anos, os social-democratas foram um parceiro minoritário e meio esquecido no governo, e Merkel muitas vezes conseguiu receber créditos por ideias deles, como o salário mínimo nacional e a permissão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Agora, a falta de uma narrativa forte tem sido um dos maiores problemas de Laschet. 

(Com agências internacionais)

Eleição disputada e fragmentada
Os alemães terão amanhã a eleição mais disputada dos últimos 20 anos. Sem um claro favorito, a única certeza é que, pela primeira vez, o próximo governo será formado por três partidos ou mais. O enfraquecimento das duas legendas mais tradicionais e a pulverização do voto na Alemanha confirmam a tendência de fragmentação política registrada em outras partes da Europa.

A eleição de amanhã será mais uma disputa entre o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, liderado por Olaf Scholz, e a União Democrata
-Cristã (CDU), de caráter conservador, de Armin Laschet e Angela Merkel, que governou a Alemanha nos últimos 16 anos. 

A novidade é que os dois partidos terão cerca de 25% dos votos cada um, segundo pesquisas, o que obrigaria o vencedor a buscar apoio de outras forças para formar um governo no Parlamento.

Nos últimos anos, o SPD e a CDU, os dois pilares da política alemã no pós-guerra, ganharam a concorrência de novas forças, como a onda dos ambientalistas, capitaneada pelo Partido Verde, que vem ganhando votos à esquerda, e os nacionalistas da Alternativa para a Alemanha (Afd), de extrema direita, que se tornaram uma opção para os eleitores ultraconservadores.

A decadência do bipartidarismo europeu, que nos últimos 50 anos foi marcado pela rivalidade entre socialistas e conservadores, e a tendência de fragmentação política são fenômenos que vêm sendo registrados em vários países da Europa. Na última eleição da Holanda, em março, 17 partidos conseguiram eleger deputados para a Câmara Baixa do Parlamento - um recorde.

Na França, o caso é parecido. Durante décadas, a política foi dividida entre os gaullistas, de centro-direita, e os socialistas. Na última eleição presidencial, em 2017, nenhum dos dois campos sequer chegou ao segundo turno. Emmanuel Macron, um liberal de centro, se elegeu com o slogan "nem de direita, nem de esquerda". Sua maior rival foi Marine Le Pen, da Frente Nacional, um partido nacionalista de extrema direita rebatizado de União Nacional.

Nos países escandinavos, a fragmentação também é regra. A Noruega, que tinha cinco partidos no Parlamento, nos anos 70, hoje tem dez. Na Suécia, eram cinco, hoje são oito. Atualmente, a Dinamarca tem dez partidos com representação legislativa, o dobro do que tinha em 1971.

Na Espanha, a fragmentação chegou ao ponto de complicar a formação de governos. As duas forças mais tradicionais, o Partido Popular, de centro-direita, e o Partido Socialista, de centro-esquerda, ainda são as mais fortes. No entanto, o primeiro-ministro socialista, Pedro Sánchez, precisou de quatro eleições em quatro anos para fechar, no ano passado, uma coalizão minoritária com a esquerda radical do Podemos.

Durante muito tempo, os alemães pareciam imunes ao fenômeno da pulverização política. A Alemanha era caracterizada pela coesão e pelos mandatos longos de seus chanceleres: Konrad Adenauer governou por 14 anos (1949-1963), Helmut Kohl, por 16 anos (1982-1998), e Angela Merkel está à frente da maior economia da Europa desde 2005.

"Pela primeira vez na história do pós-guerra, o próximo chanceler da Alemanha virá de um partido que teve bem menos de um terço dos votos", disse Christian Lindner, líder dos liberal-democratas (FDP), em entrevista ao Financial Times. "Isso significa que a Alemanha, finalmente, está se tornando parte do mainstream europeu."

Para muitos analistas, a fragmentação é uma ameaça à democracia. A segmentação excessiva dá poder de veto a mais atores políticos dentro dos Parlamentos nacionais, dificultando o consenso e as tomadas de decisões, o que eventualmente pode aumentar a frustração dos eleitores.

"As democracias são, muitas vezes, meio bagunçadas. Mas o tipo de fragmentação que ocorre hoje na Europa está ultrapassando os limites", escreveram Andrea Kendall-Taylor, diretora do Center for a New American Security, e Alina Polyakova, do Centro Europeu de Análise de Políticas, em artigo no Washington Post. "O risco da frustração com a falta de resultados é os eleitores buscarem modelos mais autoritários, como os de Rússia e China."

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