Aliás

Publicação: 2020-12-05 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Desculpe a imodéstia, Senhor Redator. Não é por soberba, mas é que só a alguns poucos é dado a graça e o vício de gostar da palavra ‘aliás’. Na linguagem jornalística será sempre muito vazia. Nada diz. Não se deve usá-la por falta de propriedade. Já aqui, o gosto é usá-la e com uma vírgula que deve vir depois. Por mania e por realce. Para nós, viciados na beleza de sua vagueza, é indispensável. E não usá-la, com ou sem pretexto, é abrir mão de um raro prazer. 

Rejane gosta sempre de dizer que ainda menina tinha o sonho de crescer e poder usá-la com aquela elegância natural. Nesta coluna, para que se tenha uma ideia do vício, é usada todos os dias. Sem pejo e sem cerimônia. Por puro prazer. Com uma taxa de glicemia que baila com regularidade, sou capaz de viver sem açúcar dias e dias, mas jamais sem um aliás. Quando não parece lógico, ainda assim, acho um jeito, para o espanto dos leitores e seus olhos tão apurados. 

Para quem não sabe, nunca quis ou precisei saber se ‘aliás’ é advérbio, de raízes no latim arcaico, e que significa, simplesmente, ‘outra vez’, como ensina Antônio Houaiss. ‘Ou senão’. Além disso, pode ser ‘a propósito’, ‘no entanto’, ‘não obstante’, ‘contudo’, ‘até’, e ‘ou seja’. No fim, nenhuma das expressões tem o charme, dito ou escrito, de um ‘aliás’. E se por acaso chama o silêncio, a dúvida ou remete ao passado, é fascinante vê-lo cair na frase e iluminá-la.
  
Tem, além de todas as qualidades das outras palavras, a divisão silábica - ‘a-li-ás’ - com ritmo sincopado e um acento agudo que de vez em quando as reformas tentam proibir. É curta, esguia e requintada. Para nós, os viciados e sem cura, é insubstituível. Feita, como informam os guias ortográficos, de cinco letras, duas vogais e duas consoantes, com a letra ‘a’ repetida, o que lhe confere timbre e vibração. Há quem afirme que vem de ‘aliás’ o anagrama de Laísa.

Como se já não bastasse todas essas qualidades, ‘aliás’ não é prisioneira desse ou aquele gênero, o que é uma modernidade nesses tempos transgêneros. É incapaz de discriminar o gosto e o desgosto de quem quer que seja. Sem ‘aliás’, não seria possível retornar ao passado ou fugir na direção do futuro. 

Você põe um ‘aliás’, vai e volta, costura essa ou aquela expressão, a data que esqueceu ou deixou de dizer, e pronto. ‘Aliás’, acabo de usá-lo só para realçar sua leveza.  

É por vício - como título de nota, termo de transição entre uma coisa e outra, emenda e o que mais for - que de vez em quando uso mais de uma vez em duas ou três notas. Só depois, ao reler, vejo o excesso, e corto. Contra a vontade, devo dizer, para evitar a repetição que nem sempre é realce, e sim a queda no monótono. É como se fosse a boia de salvação de todos nós, os pobres náufragos da palavra. Aliás, e por falar em naufrágio, o espaço da crônica acabou...

JOGO - O ministro Rogério Marinho cumpriu uma agenda de campanha política, mas sem usar do sotaque. E ao trazer R$ 51 milhões para o Estado, trouxe na sua pasta o veneno e o antídoto.  

ALIÁS - É visível a formação do novo núcleo de força na política no RN e que reúne tucanos de bicos fortes e de longo alcance: um ministro, o presidente do Legislativo e prefeito de Natal.

COMO - Resta ao tucanato arrumar esses nomes que darão as cartas da luta contra o PT em 2022. A distribuição da missão de cada um deles na busca de conquistar o Governo e o Senado. 

ERRO - Como em toda perfeição há uma imperfeição, ao não convidar a governadora Fátima Bezerra, Marinho revelou uma discriminação. Ele prefere tê-la à distância, como a adversária?

FLAGRA - O erro de Marinho ao vetar a governadora eleita pelo voto livre e maior autoridade política da sua terra, ficou flagrantemente exposto no convite oficial do vice Hamilton Mourão.

SAÚDE - O Governo Fátima Bezerra mudou o azimute na avaliação da importância da saúde. Finalmente viu que além da omissão atentar contra a vida é um veneno contra o voto popular. 

NEGROR - A Folha de S. Paulo mais uma vez ousa: sua primeira página na edição de quinta foi negra. Sem uma palavra. O anúncio do documentário ‘Cercados’ como metáfora da morte.

GLÓRIA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ao ouvir que a glória intelectual em Natal é falsa e fácil: “Metade merece e, às vezes, não tem; a outra, financia a própria glória”. 

RETRATO - Só sectários contestam esta coluna quando afirma que o PT e Bolsonaro foram os punidos nas urnas, mas a esquerda não. Ora, não foi à toa que a Folha de S. Paulo deu como manchete na sua primeira página: “Covas é reeleito; no país, PT e Bolsonaro são derrotados”.

BALANÇO - A eloquência das urnas demonstrou que um mito é um fenômeno, não é um líder e, por isso, não conduz uma Nação, mesmo que eventualmente tenha tido a maioria dos votos. O PSOL, posto à esquerda do próprio PT, encontrou em Guilherme Boulos um novo porta-voz. 

ELOGIO - Perfeita esta TN, na edição de ontem, ao denunciar, com toda força, a perda de R$ 4 bilhões em dívidas podres por falta de cobrança ao longo do tempo. O fato não deixa de revelar a omissão das elites, antigas ‘sócias do Estado’. A relação apodrecida em velhos vícios. 









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