Alimentação saudável: desafio em tempos de isolamento social

Publicação: 2020-08-02 00:00:00
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Tádzio França
Repórter     

A alimentação se tornou uma questão ainda mais complexa com o advento da pandemia. O isolamento social, os cuidados redobrados com a higiene e as restrições de acesso e consumo afetaram os hábitos alimentares de boa parte das pessoas, revelando aspectos negativos e positivos. A questão é que nem sempre comer em casa é sinônimo de uma alimentação saudável e de melhor qualidade. Muitas vezes, estar em casa acaba sendo uma espécie de passaporte para todos os tipos de excessos.

Créditos: Alex RégisIdaísa Mota, procuradora do Estado aposentada e porta-voz do grupo Reviver, conseguiu manter a reeducação alimentar que começou antes da pandemiaIdaísa Mota, procuradora do Estado aposentada e porta-voz do grupo Reviver, conseguiu manter a reeducação alimentar que começou antes da pandemia

Um levantamento realizado pelo Ministério da Saúde no fim de maio apontou que quatro em cada dez brasileiros alteraram os hábitos de alimentação, para o bem ou para o mal. A nutricionista Fátima Nunes acredita que o isolamento acabou polarizando os comportamentos alimentares. “Aquelas pessoas que já tinham a tendência de se alimentar corretamente mantiveram o equilíbrio, já aquelas que tinham hábito de comer coisas erradas aumentaram a quantidade. E claro, há aquelas que podem passar por várias fases. São muitos fatores”, diz. Uma fome que pode ser de origem comportamental, emocional ou física.

Descontar a ansiedade e o estresse gerados pela pandemia na alimentação tem sido um dos grandes perigos da ocasião. Muita gente passou a comer demais mesmo sem estar com fome. Algo que pode ser um sintoma de Transtorno da Compulsão Alimentar (TCA), que se caracteriza pela ingestão de uma quantidade exagerada (e desnecessária) de alimentos num curto período de tempo, comprometendo a saúde e o comportamento do indivíduo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 4,7% da população brasileira tem algum tipo de transtorno alimentar, sendo mais recorrente entre jovens de 14 a 18 anos.

Outro estudo, realizado por um grupo de pesquisadores das áreas de endocrinologia, patologia e psicologia, reforça os dados apurados pelo Ministério da Saúde e vai além. Um em cada dois entrevistados (entre 1.470 consultados) sentiu mais vontade de comer, mesmo quando não estava com fome, e 23% ganharam peso. Pelo levantamento, o ganho médio de peso foi de 2,6 kg. O intervalo oscilou entre um mínimo de R$ 1,1 kg e um máximo de 12 kg no período.

Fátima Nunes afirma que a quebra da rotina é diretamente responsável pelas mudanças de hábito alimentares. “O tempo ocioso faz a pessoa comer mais. As comidas estão ali, ao alcance da mão, na geladeira, no armário, então é fácil sair beliscando de tudo um pouco”, diz. Ela ressalta que o home office também altera hábitos, já que sem os horários formais de entrada e saída do trabalho fora de casa, as pessoas ficam com mais tempo para comer a hora que quiser.

A comodidade oferecida pelos aplicativos de entrega de comida é outro ponto que se deve pensar com ponderação. Os aplicativos são práticos, mas podem deixar as pessoas mais suscetíveis a alimentos processados e calóricos. Por isso, os especialistas indicam que seja feita uma programação para as refeições da semana, como almoço e jantar. Deixar as refeições prontas e congeladas diminui as chances de maus hábitos alimentares.

Engordar é tendência

A nutricionista não nega que a tendência no momento é engordar. “Para mim, é algo que chega a ser visível. Conheço pessoas bem próximas que aumentaram até cinco quilos. É realmente menor o numero de pessoas que está mantendo o peso ou perdendo peso. Uma minoria está aproveitando o momento caseiro para uma reeducação alimentar, para procurar alimentação mais saudável”, diz. Para se ter uma idéia, as receitas mais procuradas na internet são panqueca, brownie, bolo, pudim e pão, todas com altos índices de calorias.

Engordar é algo comum, mas que em tempos de pandemia ganha um risco a mais para a saúde. De acordo com um estudo da FAO (agência da ONU para agricultura e alimentação), a obesidade é um dos principais agravantes dos males causados pelo coronavírus. Segundo o Ministério da Saúde, 57% dos mortos abaixo da idade de risco (60 anos) tinham excesso de peso. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolodia declarou que 20% dos brasileiros são obesos, 55% estão acima do peso e, desses, 21% são mulheres. O sedentarismo também cresceu, o que deixa as pessoas mais suscetíveis ao aumento de peso.

Para Fátima Nunes é preciso levar em consideração que, no cenário atual, ter uma alimentação saudável é também uma forma de enfrentar o coronavírus, não é apenas questão de estética ou de se prevenir contra as doenças já conhecidas. Alimentação correta também significa imunidade mais forte. Quanto mais baixa a imunidade, mais altas são as chances de contrair infecções, inflamações e outras diversas doenças.

As dicas da nutricionista se harmonizam com as de infectologistas. Pra começar, tomar bastante água. “A gente está priorizando os alimentos que impedem ou dificultam a replicação celular, aqueles que têm zinco, vitamina D e C, e quercetina”, diz. Alimentos ricos em zinco, como a castanha de caju, podem ser consumidos ao menos cinco por dia; o pó de casca de cebola roxa pode ser usado nos alimentos como uma farinha diferente; limão, romã e gengibre podem ser espremidos para saborizar a água; e consumir muito sucos de acerola, limão, goiaba e abacaxi.

A nutricionista ressalta o consumo no geral de alimentos que não sejam industrializados. “Procure sempre direcionar a alimentação para dietas que tenham frutas ou verduras; coma arroz integral; cozinhe o  feijão sem carne dentro; use mais peixe e filé de frango, coma menos carne vermelha, e tenha ovo sempre. É o que nós chamamos de ‘alimentos de verdade’. Procure evitar enlatados, embutidos, e industrializados que tenham muito sal”, explica. Fátima também associa a gulodice a outro fator: a depressão. “Obesidade e depressão costumam ficar juntas nesse período de pandemia”, alerta.

Altos e baixos

Desde que a quarentena começou, cada um sabe onde a balança pesa mais. Idaísa Mota, procuradora do Estado aposentada e porta-voz do grupo Reviver, conta que já vinha tentando uma reeducação alimentar quando a pandemia se instalou. Os dois filhos vieram morar com ela e todos combinaram que iam segurar a dieta. Com a turma junta, a cozinha passou a ser um lugar de socialização – e até diversão.

Passamos a fazer receitas diferentes, principalmente no fim de semana. Mas nada que eu já não tenha provado antes. A cozinha passou a ser uma sala, uma ambiente de lazer, pra conversar, rir, tomar um vinho”, diz Idaísa. Ela conseguiu perder dois quilos. Já a filha manteve o peso, e o filho ganhou dois quilos. Durante a quarentena ela passou a comer menos frutas e a comer mais carne vermelha. Está procurando reverter esse quadro.

O advogado Tales Barbalho deixou de se alimentar em horários fixos e passou a recorrer cada vez mais ao delivery. “Passei a comer muito mais comidas de restaurantes, pizzarias e coisas do gênero. Algo que antes era só nos fins de semana passou a ser cotidiano”, diz. O horário das refeições se desregulou e o paladar também, algo que ele espera voltar ao normal aos poucos. “Eu quero comer menos e depender menos de delivery, mas acredito que vou manter o consumo dos pratos diferentes, até sofisticados, que passei a comer mais por causa da quarentena”, diz.

Paula Blankenburg, aposentada, perdeu nada menos que 13 quilos durante a quarentena. Ela conta que o isolamento não afetou muito seu cotidiano alimentar, pois ela já estava seguindo uma dieta e almoçando por um delivery perto de casa. Cortou do cardápio carne, feijão, arroz e massas, mas não experimentou nada diferente do que já comia antes. E quando tudo isso passar e a vida voltar ao normal? “Vou continuar a dieta,  porém,  no final de semana vou relaxar”, conclui.