Alimentos e estresse (2)

Publicação: 2019-04-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Dr. Jorge Boucinhas
Médico  e  Professor

O Artigo da semana passada mostrou que os alimentos podem, de fato, causar “stress”.  O principal fator a contribuir para isso é o seu Índice Glicêmico (IG).  Ele indica a ação dos carboidratos (CH) sobre os níveis da glicose sanguínea.  Os CH absorvidos rapidamente e logo convertidos em glicose têm alto IG, enquanto os decompostos e absorvidos lentamente, pelo contrário, apresentam baixo IG e causam aumento menor, porém mais estável, dos níveis de açúcar do sangue.  São esses “carboidratos lentos", de baixo IG, que devem formar a base de cada refeição e de cada lanche, sempre balanceados pela quantidade apropriada de proteínas.  Tais flutuações glicêmicas dependem da secreção de insulina e quanto mais insulina houver no sangue, mais as gorduras ficam armazenadas.  Além de dificultar a perda de peso, o excesso dela também pode causar danos irreversíveis ao organismo, que fica exposto a riscos maiores de desenvolver Diabetes do tipo II, Hipercolesterolemia, Hipertensão Arterial Sistêmica e Cardiopatias, afora alguns tipos de câncer.

O Dr. David Jenkins, da Universidade de Toronto, Canadá, apresentou o conceito de IG em 1981.  Hoje em dia a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a FAO (Departamento de Agricultura das Nações Unidas) recomendam sua aplicação como um instrumento de promoção da saúde.

Antes da criação dele os carboidratos eram geralmente divididos em dois grupos: simples e complexos.  Os simples ou oses (glicose, frutose, lactose, sacarose e maltose) são formados por uma ou duas moléculas de açúcar.  Os complexos, ou amidos (encontrados principalmente em grãos, batatas, massas, feijões, lentilhas) e fibras, consistem da união de muitas moléculas simples.  Acreditava-se que os amidos fossem digeridos e absorvidos mais lentamente que as oses, e recomendava-se o alto consumo deles, restringindo o uso de alimentos doces.  Recentemente, porém, descobriu-se que alguns alimentos de teor relativamente alto de carboidratos simples (frutas) são digeridos mais lentamente do que outros, compostos de carboidratos complexos (pães).  Graças ao Índice, se está, agora, com melhor equipamento para escolher os tipos de carboidratos mais adequados para a dieta de cada um.

De forma simplista o Índice é um método de classificação dos alimentos de acordo com seu efeito nos níveis de glicose sanguínea.  O que o determina o IG é a velocidade com que seus carboidratos podem ser digeridos e absorvidos.  A glicose pode ser absorvida diretamente pela corrente sanguínea, produzindo assim efeito imediato.  Em uma escala de 0 a 100, tem valor máximo, 100.  Deve-se frisar que o IG compara os alimentos com base num volume igual de carboidratos e não na quantidade ingerida.  Assim, 50 gramas de glicose são puro carboidrato, enquanto o IG da cenoura é baseado na quantidade que contenha 50 gramas deles.

Os alimentos que não contenham carboidratos não exercem influência direta nos níveis de açúcar do sangue, conseqüentemente seu IG é “0”.  Por essa razão, não se precisa atentar para alimentos que consistem substancialmente de proteínas (como ovos, frangos, carnes, peixes).  O mesmo acontece quanto aos alimentos compostos basicamente de gordura (manteiga, margarina, óleos, azeites).  As verduras têm conteúdo de carboidratos muito baixo, normalmente aquém de 5% de seu peso, pelo que precisar-se-ia comer muitos tomates e alfaces para ingerir as 50 gramas de carboidratos necessárias à mensuração de seu Índice.

O IG de um alimento não pode ser previsto, devendo ser obtido através de testes in anima nobile.  O procedimento é caro mas já foram examinados centenas de alimentos e houve algumas surpresas.  A glicose e a frutose são, ambas, açúcares simples, mas a segunda, embora duas vezes mais doce que a primeira, tem IG de 19, enquanto a outra o tem de 100!  Assim, ao se ingerir 50 gramas de glicose, o nível de glicose sanguínea aumentará cinco vezes mais do que ao se ingerir a mesma quantidade de frutose.  O cozimento altera a estrutura do amido, tornando-o mais facilmente digerível.  As cenouras cruas, por exemplo, possuem IG muito mais baixo que as cozidas.  Uma vez que apenas os carboidratos têm influência direta sobre os níveis glicêmicos, os alimentos que associam-nos a proteínas e gorduras (p.ex. chocolate) algumas vezes possuem IG mais baixo que alimentos que contenham pouca proteína e gordura (como a melancia).  Outrossim, alimentos com alto teor de fibras solúveis (feijões, lentilhas, aveia, maçãs), apresentam IG médio ou baixo.

O assunto parece complexo – e o é!  Mas a forma de usar tais conceitos em favor da saúde é simples e será vista no próximo Artigo.






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