"All you need is love"

Publicação: 2019-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Thiago Gonzaga
Escritor


Parece-nos clichê falar de amor e paixão, tantos já escreveram ou disseram sobre esses sentimentos. Definir o que é o amor e o que é a paixão não é uma empreitada simples, pois para cada ser humano esses sentimentos podem representar algo diferente, todavia, uma coisa é quase unânime entre os seres vivos: todos necessitamos de afeto. Como diz a famosa canção dos Beatles, “All You Need Is Love”; tudo que você, e eu, precisamos é de amor, seja nas relações humanas, ou para fazer algo que dê sentido às nossas vidas.

Andamos refletindo sobre isso, recentemente, por dois motivos, o primeiro é notório: infelizmente, mais do que nunca, a polarização política no Brasil atingiu um nível altíssimo de intolerância, aliás, sintomático da proverbial “cordialidade” do povo brasileiro. Como se sabe o termo “cordial”, imortalizado pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda no livro Raízes do Brasil, não significa exatamente “cortês” ou “bondoso” como definição do brasileiro. “Cordial” vem de coração, que faz com que a pessoa se orienta de forma passional, muito mais do que pela racionalidade. E isso, na prática, às vezes, é perigoso, como temos visto com uma espantosa frequência, ultimamente. Percebemos, sobretudo através das redes sociais, o cotidiano do brasileiro regido unicamente por um fanatismo político extremado; a calunia, a raiva, o ódio, envolvendo discussões político-partidárias, ao ponto de amizades se desfazerem, famílias se dividirem, relações acabarem... E o amor, tantas vezes verbalizado, onde está? Apenas nas palavras.

Felizmente, existem coisas boas na vida que nos dão sensação de consolo e renovação, que nos fazem acreditar nesse sentimento, ou em atitudes que nos levem a refletir sobre ele.

Recentemente revemos o filme A vida é bela (La vita è bella) lançado em 1997, dirigido e estrelado por Roberto Benigni, vencedor de três Oscar. A ação cinematográfica se passa na Segunda Guerra Mundial: Guido, personagem interpretado por Benigni, é um judeu, dono de uma pequena livraria judaica na Itália fascista, capturado e mandado para um campo de concentração em Berlim, juntamente com sua esposa e seu filho, o pequeno Giosué. Por amor ao filho, usando sua inteligência, espiritualidade e bom humor, Guido faz com que a criança acredite que ambos estão em uma brincadeira, com o objetivo de protegê-lo do horror da guerra em que se acham inseridos.

Espécie de comédia dramática sobre o holocausto, o filme tem como ponto alto, a atuação de Roberto Benigni digna de Charles Chaplin. O diretor e ator conseguiu dar humanidade a sua interpretação fazendo com que nos identifiquemos com suas ações.  Roberto Benigni dividiu o filme em dois momentos diferentes: nos primeiros minutos, presenciamos uma comédia com toques de romance, onde o personagem irá se apaixonar e casar com sua namorada, que ele chama carinhosamente de Princesa. No segundo, após o nascimento do filho do casal, Giosué, e o início da Segunda Guerra Mundial, o longa-metragem se transforma em drama, mostrando uma realidade dolorosa. Apesar disso, Benigni inteligentemente consegue amenizar um pouco com toques de bom humor do personagem Guido. Com uma mensagem de amor, de generosidade, um pai, ser humano sensível, como poucos, consegue se preocupar com a infância do seu filho e tenta poupá-lo ao máximo dos horrores da guerra, atitude muito nobre.

Não precisa ser nenhum especialista em psicologia para compreender que é na infância que sofremos nossos maiores traumas, que mais tarde, na fase adulta, irão amplificar-se em uma série de doenças psíquicas. Talvez se pesquisarmos a saúde mental de algumas “personalidades” que estão no poder (o atual Presidente, por exemplo), quem sabe encontremos pais exigentes, fanáticos religiosos, rigorosos, severos, espécie de castradores da alma humana. Quem sabe essas pessoas tenham sido vítimas da intransigência de quem as criou, e mais tarde, inconscientemente, transformaram-se em seres “doentes” e muitas vezes aterradores, fazendo de tudo unicamente para satisfazer o seu ego, ao ponto até de prejudicarem o próximo.

 O personagem Guido tem extrema preocupação com o bem-estar do filho, mesmo em meio à desordem da guerra. No ambiente de terror, o amor de um pai mostra de forma lúdica, o melhor para o filho, disfarçando a dura realidade da vida. No final, mesmo com sua morte, consegue o objetivo principal: salvar seu filho dos horrores da humanidade, e Giosué, finalmente é entregue ao braços da mãe.

O sacrifício do pai, claro, poderia ser o da mãe, para ver o filho feliz. O filme é incrível sob essa ótica.  A sensação que nos fica é a vontade de ser igual a Guido, e saber fazer das dificuldades da vida uma espécie de “brincadeira” de faz de conta, ou ter o olhar mágico e inocente de Giosué, tudo levado pelo amor, seja familiar, ou pela arte do viver.

A vida é bela é um filme verdadeiramente emocionante, tocante e muito significativo para alguém que aprecia a vida e incentiva as pessoas a viverem em paz.

Deixemos as diferenças políticas, religiosas, dentre outras, e procuremos viver bem com o próximo, sejamos menos egoístas e mais altruístas, talvez, somente através do amor, é que nós, seres humanos tão falhos, poderemos nos aproximar da perfeição. Como bem afirmou o Apóstolo Paulo em carta aos Coríntios “Ainda que eu falasse as línguas dos homens ou até mesmo dos anjos, mas não fosse capaz de amar os outros, não seria mais do que um instrumento de fazer barulho”.



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