Allyson Bezerra: Está na hora de um levante da classe política para fortalecer o RN

Publicação: 2020-11-22 00:00:00
Prefeito eleito de Mossoró, com 65.297 votos, o deputado estadual Allyson Bezerra defende que as lideranças políticas do Rio Grande do Norte deixem, principalmente agora que a disputa eleitoral passou, o partidarismo de lado e integrem um amplo movimento para a conquista de importantes projetos que melhorem as condições de desenvolvimento do Estado.  “O Estado do Rio Grande do Norte necessita que a sua classe política deixe o partidarismo de lado, está precisando de um projeto maior”, afirma nesta entrevista.

Créditos: ARQUIVOAllyson Bezerra, Deputado estadual e prefeito eleito de MossoróAllyson Bezerra, Deputado estadual e prefeito eleito de Mossoró


Allyson faz também uma avaliação da campanha em Mossoró, na qual a atual prefeita, ex-governadora e ex-senadora Rosalba Ciarlini ficou em segundo, com 59.034 votos.  Se vencesse, Rosalba iria para o quinto mandato de prefeita. “Foi uma campanha histórica, até pela quantidade de candidatos (6) que disputaram as eleições municipais e, além disso, tivemos candidaturas com alguma robustez pelo menos no início”, disse. A entrevista foi feita um dia antes do prefeito eleito receber o teste positivo de covid.

Que avaliação o senhor faz da campanha eleitoral em Mossoró?
Foi uma campanha histórica, até pela quantidade de candidatos (6). Então, foi uma campanha histórica por esse ponto e porque, pela primeira vez, tivemos um filho de agricultor com chances reais de vencer as eleições [Allyson se refere à própria candidatura], alguém que tem a nossa origem, simples e humilde e disputando contra a atual prefeita de Mossoró [Rosalba Ciarlini] no quarto mandato, que foi senadora e governadora. Eu digo que a nossa eleição, do ponto de vista histórico, representa de fato a chegada do povo à Prefeitura de Mossoró. Pela primeira vez na história, o povo estava disputando as eleições contra a oligarquia e venceu. Foi numa campanha simbólica e, acima de tudo, simples, com “pé no chão”, como mostrada e apresentada nas redes sociais, inclusive pela própria imprensa. 

O candidato de oposição, geralmente, cria uma expectativa muito grande ao vencer. Como o senhor pretende fazer para atender essa expectativa e não decepcionar os seus eleitores?
Nós temos pilares para essa gestão. O primeiro pilar é uma equipe capacitada e técnica. Não estamos escolhendo os secretários baseados no nível de atividade de amizade, de compadrio ou apenas por quem está indicando. O perfil da equipe que estamos escolhendo é técnico, com pessoas qualificadas para uma gestão que será transparente e buscará a modernidade tecnológica. Então, temos pilares para a gestão ser bem sucedida e, consequentemente, atender a expectativa da população. Quem votou em mim, votou para combater a forma ultrapassada, mesquinha e de compadrio do atual modelo de gestão da Prefeitura de Mossoró. Não só nessa gestão, mas em muitas outras ao longo da história. Então, nossa campanha foi vitoriosa, mesmo com uma infinidade menor de recursos do que a que usava o outro lado. Tivemos uma estrutura mínima comparada às outras. Eu comecei a campanha com apenas um vereador dos 21 da Câmara Municipal. Uma quantidade menor de candidatos a vereador do que as de outras candidaturas. Então, isso prova de que é possível vencer as eleições de forma muito livre, como fizemos, e agora temos esses pilares para fazer a gestão, que, acredito, vai orgulhar muito a população do nosso Estado e esse é o nosso compromisso.

Como o senhor avalia agora, depois de passadas as eleições, ter sido chamado de 'pobrezinho'?
É o preconceito da oligarquia. A oligarquia é preconceituosa. Não aceitava que eu disputasse as eleições com chances de vitória. Naquele debate, eu já tinha chance de vitória e estava em empate técnico. Mas não se aceitava que, com minha origem de vida, sem nenhum padrinho político, sem nenhuma estrutura partidária e política forte, sem nenhuma estrutura financeira por trás, pudesse estar naquele momento disputando as eleições contra o atual sistema e contra a oligarquia. Acredito que, naquele momento, falou mais alto o preconceito, a descrença no nosso povo e até a falta mesmo de respeito que teve comigo. Infelizmente, naquele momento, e isso veio à tona... Mas a população fez sua avaliação e percebeu que aquele termo, usado contra mim, não só me atingia, mas também grande parte da população mossoroense. 

O senhor já teve a oportunidade de ter acesso ao levantamento  de como está a situação da prefeitura? Qual a situação das contas do município de Mossoró?
O que se fala bastante é que há atraso de salários de servidores terceirizados e repasses para a Previdência municipal não estão sendo realizados, obras foram paralisadas e verbas acabaram voltado para os ministérios. Hoje as informações indicam uma cidade que passa por sérias dificuldades. Trata-se de uma gestão muito ruim, que não atende aos interesses da população. A própria população avaliou isso. Mas, vamos aguardar o relatório da equipe de transição e teremos as informações técnicas e os dados necessários para se fazer um diagnóstico mais profundo. 

Quais os seus planos para a economia do município sem a presença efetivamente da Petrobras?
De fato o problema da Petrobras já foi anunciado. Mas as empresas terceirizadas e privadas não vêm para Mossoró só para realizar exploração de petróleo [da Petrobras]. A cidade em si é um campo petrolífero terrestre. Continuará tendo a sua exploração e, consequentemente, empregando a população. Vamos buscar, com a Prefeitura, favorecer para que seja melhor operacionalizada [a atividade petrolífera] e se tenha as melhores condições possíveis para que as empresas se instalem e gerem empregos. Mas vamos trabalhar a industrialização da cidade. Apresentei um programa no nosso plano de governo, que é o "Industrialize", inclusive para reestruturação do distrito industrial, que hoje não conta, em grande parte, com iluminação, água encanada, energia, pavimentação. Vamos estruturar o distrito industrial, fazer capacitação de mão de obra em parcerias com as universidades e criar uma política de incentivo fiscal para buscar essas empresas no Sul e Sudeste, porque Mossoró tem as condições de ser uma cidade industrial. Cada empresa que vier para Mossoró terá essas oportunidades e eu, como prefeito, estarei fomentando.

Na Assembleia, o posicionamento do senhor é de oposição ao governo do Estado, como pretende estabelecer diálogo com o governo?
O melhor relacionamento possível. Nós temos, na Assembleia Legislativa, muitos serviços prestados ao governo do Estado. Por diversas vezes, na condição de líder de bancada, no colegiado de líderes, agilizei projetos para o governo do Estado. Na Comissão de Constituição e Justiça, relatei projetos favoráveis ao governo, inclusive em votações apertadas, nas quais me coloquei até mesmo do lado e em defesa de projetos do governo. Meu histórico de vida é baseada em votar e  lutar por aquilo que é importante para o povo. Então, vamos fazer essa interlocução com o governo sem nenhum problema. E acredito também que a governadora tem espírito público para que as demandas que sejam de interesse de Mossoró estejam à disposição do governo. Ao mesmo tempo, também vamos buscar o governo federal, os ministros do nosso Estado, a bancada federal, para conquistar convênios e recursos para Mossoró, que tem uma receita na qual 73% vêm de fora. A arrecadação própria é baixa. Mais do que nunca o prefeito deve buscar os governos do Estado e, principalmente, o federal, que tem a maior parcela desses recursos.

Como o senhor pretende conduzir o enfrentamento da pandemia de coronavírus, que é ainda uma preocupação acentuada da população?
Temos que agir com responsabilidade, mas sem alarmismo. Temos a condição de chamar a população para cumprir as regras de hábitos de higiene e proteção. Esse será o nosso compromisso. E realizar testagens em massa da população e isolar aqueles que venham a apresentar a confirmação do vírus. É possível fazer isso se tiver política municipal voltada para esse enfrentamento. Acredito muito em planejamento. Isso em diferentes áreas é fundamental. E com uma política de higienização, de proteção, como o uso de máscaras, testagem em massa, barreiras sanitárias, com isolamento daqueles que venham a ser acometidos da doença, teremos a condição de vencer o enfrentamento à Covid-19. 

O senhor já tem alguma definição para a composição do secretariado?
Estamos conversando com muitos nomes, recebendo informações, dados e projetos desses possíveis indicados. A ideia é o perfil de um secretariado técnico, comprometido com o espírito público, com muita vontade de trabalhar, porque tenho um ritmo de trabalho muito acelerado, como foi apresentado durante a campanha. Um ritmo que a população entendeu que deveria vencer as eleições. 

Como o senhor avalia o desempenho da bancada federal?
Tenho visto que a bancada federal tem cumprido com o seu papel. Tem algumas peculiaridades, uma bancada meio que dividida, uma parte ligada ao governo federal, uma parte de oposição ao governo federal. E acredito que teremos de discutir um projeto de Estado, inclusive me proponho a fazer essa discussão a partir de Mossoró e de outras cidades da região Oeste, com outras lideranças em nível estadual, juntamente com a bancada federal,  com o governo do Estado, os nossos ministros. Acho que o Rio Grande do Norte passa por um grande momento. O Estado tem dois ministros no governo [federal] e acredito até que é algo, do ponto de vista histórico, inédito. Então, acredito que esse fato nos capitaliza a buscar e ter importantes obras,como a duplicação da rodovia federal BR-304, que nós aqui de Mossoró temos o interesse direto, porque será a cidade mais beneficiada em todo Estado com a duplicação. Mas é claro que as cidades que ficam depois de Mossoró, por exemplo, descendo para o Alto Oeste do Estado, terão um incremento de benefício ainda maior que Mossoró. 

O senhor acha que a governadora Fátima Bezerra também devia ter a iniciativa de liderar esse movimento e, ao mesmo tempo, os prefeitos de outros grandes municípios precisam participar disso que defende? Uma mobilização em torno de grandes projetos para o Estado?
Acredito muito nisso. Inclusive estou à disposição. A governadora pode iniciar esse processo, algum ministro ou os dois ministros podem iniciar esse processo de um levante da classe política do Estado para que tenhamos um fortalecimento do Rio Grande do Norte. E quero dizer que faço política por vocação, porque acredito que é pela política que a gente muda os destinos do nosso povo. O destino da nossa nação. Então, independente de partido, de alinhamento ideológico, partidário ou político, estou à disposição para que a governadora ou algum ministro ou alguém da bancada federal, faça esse levante de um projeto de Estado, porque eu quero somar, até porque estarei governando a segunda maior cidade do Rio Grande do Norte a partir de janeiro. Então, temos 40 dias para iniciar o processo de gestão, da segunda maior cidade do Estado, como falei, que necessita de projetos como o da BR-304, que não é de uma cidade, mas sim de todo o Rio Grande do Norte.