Altas da gasolina e do GLP consomem 30% do salário mínimo

Publicação: 2021-03-03 00:00:00
Felipe Salustino
Repórter

Após os mais recentes reajustes no preço dos combustíveis e do gás de cozinha anunciados pela Petrobras no início desta semana, os potiguares que recebem um salário mínimo deverão comprometer, em média, 29,5% da remuneração pessoal para abastecer um carro (com tanque de 40 litros) com gasolina uma vez por mês e, ao mesmo tempo, trocar o botijão de gás a cada 30 dias. O cálculo foi feito pelo professor de Ciências Contábeis da Universidade Estácio, Agamenon Segundo, a pedido da TRIBUNA DO NORTE. A fatia a ser comprometida, segundo o professor, já ultrapassa em 5% o reajuste do salário mínimo em 2021.

Créditos: Magnus NascimentoNo final da tarde dessa terça-feira (2), os postos de combustíveis em Natal ainda não tinham repassado a nova alta aos clientesNo final da tarde dessa terça-feira (2), os postos de combustíveis em Natal ainda não tinham repassado a nova alta aos clientes

Com isso, os acréscimos recém-anunciados (de 5,2% para o gás de cozinha e de 4,8% para a gasolina) se somam aos demais já implementados em 2021, e devem pesar e muito no bolso do consumidor. “A situação é muito complicada, porque a alta nos combustíveis, por exemplo, implica no aumento dos preços de outros setores: supermercado, vendas pela internet, a pessoa que faz entrega de quentinha... É até difícil calcular o impacto total desses aumentos, mas dá para perceber que será muito severo”, explica o professor Agamenon Segundo.

De acordo com ele, a situação tende a ficar mais crítica, porque a perspectiva é a de que esses produtos continuem subindo, já que dependem das variações do dólar e da cotação internacional do petróleo. “É um cenário preocupante porque já tivemos muitos aumentos em pouco tempo. Imagine uma pessoa que trabalha com gás de cozinha. Em dezembro (de 2020), ela gastaria em torno de R$ 300 e agora ela vai gastar R$ 384. Um acréscimo de R$ 84 em dois meses. Isso é mais do que um quarto de aumento. Essa pessoa vai ter que repassar esse valor para o cliente e, se o cliente não aceitar, as coisas ficam complicadas”, avalia Segundo.

A autônoma Rose Alves, de 48 anos, conhece bem as consequências desses efeitos decorrentes dos aumentos constantes nos preços da gasolina e do gás de cozinha. Nove meses atrás ela havia criado um delivery de coxinhas na cidade de  Currais Novos, no Seridó potiguar, para complementar a renda. Com os sucessivos aumentos, ela relata que o negócio ficou inviável e, por isso, decidiu encerrar as atividades na semana passada. “No começo, as vendas eram muito boas. A gente entregava para toda a cidade, mas aí começou essa onda de altas. Nós tentamos segurar os preços para não passar nenhum aumento para o cliente, só que chegamos a um ponto que ficou inviável”, lamenta. 

Rose diz que, no ano passado, chegou a faturar, em média, R$ 1,2 mil durante um final de semana, período em que o delivery funcionava (de sexta-feira a domingo). Com o aumento do produto como consequência das altas nos preços da gasolina e do gás de cozinha, ela conta que o faturamento caiu acima de 60% em fevereiro último. “Nós conseguíamos boas vendas, principalmente se a gente levar em conta que nossa cidade é bem pequena. Então, vender R$ 1,2 mil em três dias é muita coisa. Mas, ultimamente, a gente vendia em torno de R$ 400 ou R$ 600, no máximo”, revela.

Insatisfação
Quem não depende do gás de cozinha ou da gasolina para trabalhar diretamente, também reclama. Em Natal, o novo aumento no valor dos combustíveis é motivo de muita insatisfação, conforme relatos de consumidores colhidos pela TRIBUNA DO NORTE, nessa terça-feira (2). “Não concordo com essa alta. A gasolina está caríssima e quem sofre é a população. O aumento pesa no final do mês”, diz o motorista de ambulância, Gustavo Francisco, de 50 anos.

 Gelson Oliveira, de 60 anos, também critica os novos preços e afirma que tem utilizado menos o carro neste ano por causa das altas despesas.

 “Infelizmente, é mais um aumento. Não tem muito o que fazer, a não ser manifestar indignação. Para quem passa o dia inteiro dirigindo, está praticamente inviável. Eu usava o carro todo dia no ano passado, mas agora utilizo pouco”, afirma ele.

De acordo com o que foi anunciado pela Petrobras, o preço da gasolina foi reajustado em 4,8%, ou seja, um aumento de R$ 0,12 por litro. Para o diesel, o reajuste foi de 5%, ou R$ 0,13 por litro. A TRIBUNA DO NORTE percorreu alguns postos de combustíveis da capital nessa terça-feira e constatou que o reajuste para a gasolina ainda não havia chegado às bombas até o final da tarde.  O preço variava entre R$ 5,49 a R$ 5,59 na maioria dos postos (a média de preços da semana passada era de R$ 5,56, segundo a Agência Nacional do Petróleo – ANP). O valor do diesel se mantinha na faixa dos R$ 4,49 a R$ 4,59.

SindiPostos
O presidente do SindiPostos/RN, Antônio Sales, não quis se posicionar sobre o novo reajuste para o preço da gasolina e do diesel. “O SindiPostos não se posiciona em relação a reajuste, porque isso é uma política de cada revendedor e de sua relação com a sua distribuidora. O Sindicato não pode intervir por uma questão legal”, declara Sales.

Gás de cozinha aumenta pela 3ª vez em 2020
A notícia sobre o terceiro reajuste no preço do gás este ano preocupa o Sindicato dos Revendedores Autorizados de Gás Liquefeito de Petróleo (Singás-RN). Com o novo aumento, o item pode chegar a R$ 97. O presidente do Singás-RN, Francisco Correia, teme os efeitos da alta no valor final do produto. Segundo ele, após dez aumentos consecutivos em 2020, as empresas revendedoras do Rio Grande do Norte demitiram 1,2 mil funcionários, entre os meses de janeiro e dezembro do ano passado.

“Em 31 de dezembro de 2020, nós tínhamos 820 empresas que revendiam gás no RN e que geravam emprego para 14 mil pessoas. O total de demissões nessas empresas ficou em 1,2 mil, por causa dos aumentos no preço do gás. A população está consumindo menos e aí, as empresas precisam se reestruturar para a nova realidade. Infelizmente, houve essas demissões e com a continuidade dos aumentos em 2021, o Sindicato teme mais dispensas”, alerta Francisco Correia.

Ele lembra que os sucessivos aumentos estão relacionados à política da Petrobras e que, mesmo com a redução de impostos (federais ou estaduais), a tendência é que os preços continuem subindo, por causa da política de dolarização adotada pela empresa.