América Latina enfrenta instabilidade

Publicação: 2019-11-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Paulo Beraldo
Agência Estado

A renúncia de Evo Morales da presidência da Bolívia no último domingo, 10, após protestos maciços e pressão das Forças Armadas, é menos um episódio isolado e mais uma situação comum em um quadro de instabilidade regional pela qual passam os países da América Latina. Os protestos violentos e manifestações com conflitos no Chile são elementos que se somam neste quadro. A avaliação é do historiador Carlos Eduardo Vidigal, doutor em relações internacionais e especialista em história contemporânea da região onde vivem 400 milhões de habitantes.

Manifestantes entram em conflito com a polícias no Chile, onde está em discussão uma Constituinte
Manifestantes entram em conflito com a polícias no Chile, onde está em discussão uma Constituinte

"A região vive hoje um quadro de instabilidade geral e não está claro o que vai acontecer depois", afirmou o professor da Universidade de Brasília (UnB). "Mas é importante dizer que o que acontece agora - crises políticas, vazios de poder ou governos autoritários - não é nada novo". Segundo ele, houve uma certa ilusão, fortalecida a partir dos anos 1990, de que golpes eram coisas do passado na região. "Não é bem assim. Por isso, é importante fortalecermos a institucionalidade e avançar na garantia dos direitos sociais".

Questionado sobre se há uma relação na queda de Evo com os protestos que há um mês fizeram balançar o governo do presidente Sebastián Piñera no Chile, culminando com o anúncio de uma nova Constituição, ou entre as manifestações no Equador contra o fim dos subsídios para combustíveis, o pesquisador responde que o caso boliviano é especial.

"Para mim, a Bolívia é uma experiência única. Não dá para comparar com Venezuela, Equador, Chile e muito menos Brasil ou Argentina". Segundo Vidigal, houve na Bolívia uma reação orquestrada de setores incomodados com a ascensão de Evo, em 2006. Ele lembra, inclusive, que o país quase vivenciou uma guerra civil no início do governo com uma nova Constituinte. "Isso não pode ser deixado de lado".

"Empresários, fazendeiros de Santa Cruz de la Sierra (região mais rica do país), mineradores e outros grupos que foram afetados por uma política distributivista se articularam com conservadores - evangélicos e mesmo católicos - e conseguiram o apoio de setores das Forças Armadas", explicou.

Para o professor, a maior parte dos descontentes é formada por descendentes de espanhóis nascidos na América Latina que "monopolizaram o Estado" até os dias de hoje. "Perderam apenas para Evo. E não estavam acostumados com a emancipação dos setores populares, ainda mais com o reconhecimento de um Estado Plurinacional".

Segundo ele, pesaram ainda para a renúncia o fato de Evo não ter criado um sucessor à altura e à ausência de um programa de governo melhor definido. "A reeleição (com denúncias de fraudes) foi a oportunidade para os setores protestarem e se organizarem".

O pesquisador diz ainda que existe uma insatisfação popular na América Latina de longa duração com as políticas liberais que vêm desde a década de 1970, iniciando no Chile e depois na Argentina.

Cocaleiros e policiais entram em confronto e cinco morrem
Violentos confrontos entre policiais e cocaleiros que tentavam chegar à cidade de Cochabamba para se manifestarem em favor do ex-presidente Evo Morales deixaram 5 mortos, 26 feridos e 169 detidos, segundo a Defensoria Pública. Militares e policiais tinham levantado um bloqueio na ponte Huayllani para evitar que os cocaleiros do Chapare, reduto de Evo, entrassem na cidade e, segundo as autoridades, os confrontos começaram quando os indígenas forçaram a passagem.

Os detalhes do confronto estavam incertos, mas o estudante universitário Emeterio Colque, de 23 anos, disse que as vítimas foram mortas a tiros, versão confirmada por outras testemunhas. O defensor Nelson Cox, da Defensoria do Povo de Cochabamba, pediu investigação para apurar responsabilidades. De acordo com o governo, dez pessoas morreram desde o início da crise, provocada pelas contestadas eleições de 20 de outubro. Os manifestantes pró-Evo falam em 20 mortos.

A Polícia Nacional reprimiu com bombas de gás uma manifestação pacífica de apoiadores de Evo no centro de La Paz. Centenas de partidários do ex-presidente se concentravam na Praça São Francisco à espera de um grupo de mineiros que vinha de El Alto, na região metropolitana da capital boliviana, para se juntar ao protesto contra o governo da autoproclamada presidente interina Jeanine Áñez por volta das 15h30 quando um grupo de policiais em motocicletas surgiu em uma rua lateral disparando bombas de gás lacrimogêneo.

Os disparos provocaram uma correria geral. Entre os manifestantes havia muitas mulheres de idade avançada. Enquanto corriam para o lado oposto ao das bombas, outro grupo de policiais atacou encurralando os manifestantes. A reportagem do Estado viu duas mulheres em trajes típicos pacenhos desmaiarem sob efeito do gás.

"No rio revolto está o lucro do pescador", praguejou o taxista Mario de ontem em La Paz. Ele acabara de receber uma chamada da central de táxi para a qual presta serviços informando que em um posto da Zona Sul a gasolina estava sendo vendida a B$ 10 o litro.






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