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TN Família
Amargo açúcar
Publicado: 00:00:00 - 30/07/2017 Atualizado: 12:31:29 - 30/07/2017
Tádzio França
Repórter

Um fato amargo para quem adora doces: o consumo de açúcar faz mal ao organismo em variados níveis. O número de males ocasionados pelas doçuras  do dia-a-dia impressiona, e tem acalorado pesquisas, debates e estudos contemporâneos em pauta crescente. É senso comum entre endocrinologistas e nutricionistas que a ingestão excessiva acarreta uma série de malefícios à saúde. Dificilmente os paladares habituados a esses sabores conseguem abrir mão totalmente deles. Mas é possível reduzir e adotar limites.

O problema já preocupa outras áreas além da médica. O renomado escritor israelense Yuval Noah Harari declarou recentemente que “o açúcar tornou-se mais perigoso que a pólvora, pois 1,5 milhão de pessoas morrem de diabetes ao ano”. O dado é um dos temas de seu novo livro, “Homo Deus, uma breve história do amanhã”, sobre as formas como a humanidade se autodestrói. Um estudo atual publicado na revista inglesa Scientic Reports concluiu que problemas mentais como ansiedade e depressão estão associados ao consumo excessivo de açúcar a longo prazo. E na seção de ciência e saúde a agência alemã Dwelle foi publicada uma lista com “as 10 verdades amargas sobre o açúcar”. Não está fácil para as guloseimas.
Alex Régis
Ansiedade e depressão estão entre os problemas associados ao consumo excessivo de açúcar

Ansiedade e depressão estão entre os problemas associados ao consumo excessivo de açúcar


Ansiedade e depressão estão entre os problemas associados ao consumo excessivo de açúcar

O endocrinologista Yuri Galeno é taxativo: “o açúcar é totalmente dispensável na dieta do ser humano”. Ele ressalta os malefícios dos açúcares “adicionados”, aqueles mais concentrados em bolos, tortas, sorvetes, refrigerantes e outros produtos industrializados. “O açúcar aumenta o risco de diabetes, obesidades e doenças cardiovasculares. Seu consumo está relacionado ao desenvolvimento de quadros de compulsão alimentar e ansiedade”, diz.

O médico não vê alternativas dentro da indústria – mesmo entre os açúcares ditos “leves”. “Os açúcares mascavo e demerara são compostos da mesma substância do açúcar refinado. Consequentemente, apresentam as mesmas características que o açúcar refinado em termos de calorias”, explica. Quanto aos adoçantes, apesar de terem pouca ou nenhuma caloria, podem gerar um consumo exagerado de calorias como numa “compensação” por parte do cérebro, além de modificarem o perfil das bactérias que vivem no intestino humano. “Ou seja, adoçantes podem estimular o ganho de peso por mecanismos indiretos. Talvez as únicas exceções sejam os adoçantes estévia e xilitol”, diz.

Yuri Galeno acredita numa dieta ideal 100% sem açúcar, com raras exceções. “Existem outras fontes de carboidratos mais saudáveis, o que somado aos riscos existentes, torna o consumo de açúcar praticamente desnecessário. Uma exceção talvez seja o atleta de alta performance que precisa consumir cerca de 60 a 90g de açúcares por hora para não perder rendimento durante provas com mais de 90 minutos”, analisa.

Menos, bem menos
A nutricionista Lílian Pinto afirma que não existe um consumo ideal de açúcar. “O que existe é quanto menos, melhor”, diz. Ela enfatiza que seu trabalho é estimular os pacientes a reeducar o paladar. “A gente questiona: por que tanto açúcar? Por que adoçar tudo? Para muitos, o 'gostar' tanto de doce está relacionado com o hábito e/ou com o perfil genético”, explica. Lílian enfatiza que o primeiro passo é parar de adoçar. “Você perceberá atributos sensoriais nunca antes notados em um alimento, se começar a diminuir ou mesmo eliminar o açúcar”.

Lilian confirma que as frutas são uma boa estratégia para o 'desmame' do paladar doce, mas é preciso atentar para alguns detalhes. “Faça o uso da fruta na alimentação em sua forma original. Aproveite os fiozinhos da banana e a parte branca da laranja e tangerina que tem muitas fibras, saciam e ajudam o intestino. Escolha frutas de baixa carga glicêmia, como goiaba, kiwi, melão e tangerina. Mas atenção: suco não substitui fruta, seja natural ou industrializado”, explica.

Aos que desejam “reduzir os danos” do consumo de açúcar sem deixar de consumi-los, a nutricionista sugere o uso de açúcares de índice glicêmico menor, como o açúcar de coco, ou  os edulcorantes com menor potencial de doçura, como o xilitol ou estévia. “O demerara e o mascavo, apesar de serem mais naturais – no sentido de menos processados – também geram vício de paladar e estimulam a insulina”, diz.

Doces restrições
A jornalista Gislaine Azevedo lembra da angústia que sentiu ao receber o diagnóstico de que o filho, então com seis anos de idade, era portador de diabetes mellitus 1. “A primeira coisa que me veio à cabeça foi de que ele não teria uma vida normal. Mas à medida em que vamos conhecendo a doença, percebemos que ela exige um estilo de vida saudável que deveria ser o de qualquer pessoa. Apesar de alguns cuidados, ele não deixou de fazer nada por causa da doença”, explica.

O filho, José Augusto, agora está com 11 anos. Como qualquer criança ele também gosta de doces, mas sabe a disciplina que deve ter quanto a isso. Sabe que antes é preciso medir a glicemia e tomar insulina para a quantidade de açúcar que vai consumir. Ele não se priva de ir a festas ou comer sobremesas em situações especiais. Aliás, a “proibição” foi um assunto bastante discutido no começo. “Nunca devemos proibir, pois a criança se revolta e come escondido. É preciso trabalhar a consciência dela. Ele já se irritou, mas não pela alimentação, e sim pela rotina das picadas nos dedos e insulinas. Mas essa fase já passou”, conta Gislaine.  A família faz acompanhamento periódico com endocrinologista, oftalmologista, nutricionista, dentista e podólogo, tudo para acompanhar se a diabetes está bem controlada. “Se a diabetes não for bem controlada, podem surgir problemas nos olhos, rins, nervos e vasos. Por isso a alimentação tem ingestão controlada de carboidrato”, diz.

A doceira Cecília Veríssimo afirma que vai na contramão da tendência atual na confeitaria brasileira, com seus doces excessivos. “Pra mim é uma questão de equilíbrio. É como um prato muito salgado, não desce. Com doce é a mesma coisa”, afirma. Apesar do número crescente de docerias na cidade, ela observou que a clientela escolhe apenas um dia da semana para “sair da dieta”.

Malefícios do açúcar
Cérebro: na presença de açúcar provoca sinais nervosos e libera serotonina (hormônio que dá sensação de prazer) que causa dependência.

Pâncreas: libera a insulina que auxilia a entrada de glicose nas células. Quanto mais açúcar se ingere, mais insulina é “solicitada” ao pâncreas. Insulina em excesso favorece o ganho de peso.

Fígado: armazena glicose. O excesso de glicose é transformado em gordura e reservas de gordura causam aumento de peso.

Dentes: bactérias se alimentam de açúcar e produzem ácido que destrói o dente, provocando cáries.
Causa também acne, excesso de peso, resistência insulínica, diabetes tipo 2, hipoglicemia reativa, disbiose intestinal. 

(*) As informações foram cedidas pela nutricionista Lilian Pinto





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