Amigo, mesmo nas horas incertas

Publicação: 2015-06-23 00:00:00
Companheiro de longas datas, parceiro de uma mesma paixão no futebol (o ABC), o empresário Abelírio “Bira” Rocha assim define Agnelo: “É o amigo certo nas horas incertas”. Opinião compartilhada por muitas pessoas que conviveram com ele.

No livro “Agnelo Alves, Oito Décadas”, Antônio Nahud Júnior publica depoimentos que ilustram a frase de Bira. Um de Rubens Lemos Filho, sobre o pai, torturado durante o regime militar; outro, do escritor François Silvestre, também um frequentador das prisões da ditadura.
Na Academia Norte-Riograndense de Letras, Agnelo Alves era o ocupante da Cadeira 4, cujo patrono é o poeta Lourival Açucena, desde agosto de 2012
Lembra François: “Na soltura de uma das minhas prisões, volto à Faculdade de Direito não mais na Ribeira, ao lado do teatro e próxima do hotel de Seu Morais, onde Leonardo Cavalcanti,  Dionary Sarmento e eu tomávamos cerveja com Vulpiano Cavalcanti. Estava a casa de Amaro Cavalcanti diluída no Campus Universitário.

No primeiro dia do meu retorno, bronzeado de cela e liso, sem perspectiva de emprego, encontro o jornalista Edilson Braga. Ele sente o drama, não promete nada, mas diz que vai falar com um amigo.

No dia seguinte, pela manhã, reencontro Edilson. Ele me diz: “vá às 3 horas à Tribuna do Norte que Agnelo quer falar com você.”  Antes da hora marcada cheguei à Tribuna. Me indicaram onde estava Agnelo, que não me conhecia (....) Ele chamou alguns chefes de reportagem para ver onde me enquadrava.

O da área de polícia desaconselhou, alegando que era mais fácil eu ficar na delegacia do que fazer reportagem por lá. O de política nem precisou argumentar. Agnelo mesmo disse: “nessa área, se eu o colocar, quem vai ser preso sou eu.” Virou-se pra mim perguntou: “você conhece uma bola?” Respondi sem graça que conhecia. Então ele perguntou se eu entendia alguma coisa de futebol. Respondi que entendia muito bem, sabia tudo de futebol. Então ele mandou chamar Luciano Herbert, o redator de esportes.

Conversamos e ficou acertado que eu iria ser repórter de esporte sob a chefia de Luciano, figura que conheci naquele dia e somos amigos até hoje. Aí Agnelo sugeriu a Luciano que me pautasse para fazer uma matéria com Alberi. Eu perguntei: “quem é Alberi?” Agnelo teve uma crise de riso e disse: “Ele é seu, Luciano, tome conta.”

Mão amiga
Rubinho Lemos lembra que o pai, ao ser libertado do DOI-CODI, no Recife, após 44 dias de interrogatórios sob tortura, parecia um faquir de circo. “Nenhum sujeito normal, trivial, devidamente obediente aos rigores das baionetas, atenderia um telefonema, responderia a um aceno, apertaria a mão, aceitaria um abraço, abriria a porta de sua casa, convidaria para uma confraternização um perseguido pelo regime militar. Empregá-lo, só sendo macho ou doido. E louco Agnelo Alves nunca foi.

“Rubens Lemos, de maltrapilho e maltratado, de escombro humano, passou a novamente gente, trabalhando, escrevendo com seu lirismo, produzindo crônicas deliciosas, fazendo comentários fantásticos no auge do futebol potiguar”, lembra ele, para em seguida reforçar:

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“Nas idas e vindas de Rubens Lemos, que fez da vida o seu próprio exílio, o porto seguro sempre foi Agnelo Alves. Papai partia para São Paulo, voltava para Natal, sempre para a Rádio Cabugi. Chegava em casa com a notícia. ‘Tudo certo com Agnelo. Comento o jogo de domingo.’  Mamãe agradecia a Deus pela comida e nosso colégio pago. E eu me perguntava, ainda menino, em que se baseava a tolerância daquele patrão. Amizade genuína. Apreço pelo talento. Irmandade de luta.”

A imortalidade
Na Academia Norte-Riograndense de Letras, Agnelo Alves era o ocupante da Cadeira 4, cujo patrono é o poeta Lourival Açucena, desde agosto de 2012. O presidente da instituição, Diógenes da Cunha Lima, lamentou a morte do colega escritor, o qual definiu como “um homem de grandeza e uma figura fantástica”. Nos próximos dias, a Academia deverá anunciar a data para a cerimônia de ‘Saudação à Memória’ de Agnelo Alves e abertura de vacância da Cadeira 4 e posterior escolha do próximo ocupante pelos imortais.

Assim como na cerimônia de apresentação de Agnelo Alves, quando do seu ingresso na Academia, a ‘Saudação à Memória’, deverá ser conduzida pelo também imortal Pe. João Medeiros. Sobre a morte de Agnelo Alves, o poeta Diógenes da Cunha Lima disse que perdeu “um amigo do peito, uma pessoa querida e o único deputado a se preocupar com a Academia recentemente”.

Agnelo escreveu dois livros “Crônicas de Outros Tempos e Circunstâncias” e “Parnamirim e Eu”. As crônicas “Cartas ao Humano”, publicadas na Tribuna do Norte entre os anos de 1974 e 1982, também foram reunidas em livro e republicadas em 2011.

Linha do tempo
1932 – Ceará-Mirim, 16 de julho. Nasce Agnelo Alves, o caçula dos filhos homens do casal  Manuel Alves Filho, prefeito de Angicos, e Maria Fernandes Alves.
1945 – Estudante do Colégio Marista, em Natal, aos 13 anos de idade, Agnelo frequenta a sede da UDN, partido contrário ao governo de Getúlio Vargas.
1946 – Um diagnóstico de tuberculose leva Agnelo a morar no Rio de Janeiro com o irmão Aluízio Alves, eleito deputado federal. Nos anos seguintes, passa várias temporadas em Belo Horizonte (MG), tentando se recuperar da doença.
1950 – Volta a Natal.
1953 – Retorno para o Rio de Janeiro, para novo tratamento contra a tuberculose. Entra para o quadro de repórteres do jornal “Tribuna da Imprensa”. Nos anos seguintes, trabalhou no “Jornal do Brasil”, “Diário Carioca” e outros.
1955 – Trabalhando como chefe de gabinete na presidência do Serviço Nacional de Tuberculose, conhece e casa-se com Celina Aparecida Nunes, então estagiária no SNT.
1960 – Volta para Natal, onde se engaja na campanha do irmão Aluízio Alves ao governo do Estado e no dia-a-dia da redação da Tribuna do Norte.
1961 – Assume a função de chefe da Casa Civil no governo do irmão.
1964 – Assume a presidência da Fundaçãoi da Habitação Popular, responsável pela construção da Cidade da Esperança, primeiro conjunto habitacional de Natal.
1965 – É candidato e se elege prefeito de Natal.
1969 – Agnelo é preso por militares do Exército, acusado de “plantar” duas notas na coluna “Informes do Redator”, da Tribuna do Norte, consideradas “ofensivas” ao general Hildebrando Duque Estrada. Libertado por falta de provas, teve o mandato cassado pela Câmara Municipal que cedeu às pressões dos militares
l970 – Começa a publicar na Tribuna do Norte, sob o pseudônimo de “Neco” as “Cartas ao Humano”.
1980 - Participa ativamente, junto com Aluízio Alves, das Diretas Já e, em seguida, da campanha de Tancredo Neves à presidência.
1985 a 1990 – Assume uma diretoria no Banco do Nordeste, assumindo a presidência por um breve periodo.
1996 - Concorre à prefeitura de Parnamirim, sendo derrotado
1999 - Assume a vaga no Senado Federal deixada por Fernando Bezerra, empossado como ministro da Integração Nacional.
2000 – Novamente candidato em a prefeito de Parnamirim, sai vitorioso nas eleições com 72,86% dos votos.
2004 – Releito prefeito, fica no  cargo até 2008, saindo com 92% de popularidade e elegendo o seu sucessor, Maurício Marques.
2010 - Agnelo é eleito deputado estadual e anistiado moralmente pelo Governo Federal, recebendo o título durante a 42ª Caravana da Anistia, em Natal.
2014 – É reeleito para um segundo mandato como reeleito deputado estadual.