Viver
Amir Haddad: por um teatro politizado
Publicado: 00:00:00 - 19/10/2010 Atualizado: 20:43:35 - 18/10/2010
Maria Betânia Monteiro - repórter

Um dos maiores encenadores do país, com 53 anos só de teatro, o mineiro radicado no Rio de Janeiro Amir Haddad, faz a história do teatro no Brasil. Não só porque leva às ruas, praças públicas e palcos o resultado do seu brilhante trabalho, simplesmente porque ele reflete, debate, pesquisa e experimenta (muito) antes de ver o produto em cena. “O meu teatro é político o tempo todo, mesmo quando não é época de eleição. Faço discussões ideológicas, falo sobre liberdade, fisicalidade, beleza, poesia, imaginário. Não trabalho como um jogo de cartas marcadas”, disse o encenador em entrevista ao VIVER. Porta voz do fazer teatral (e social) colaborativo, Amir participou do Festival Agosto de Teatro, fazendo o que mais sabe: criticando e ensinado.

Amir Haddad - dramaturgoDurante o Festival, que aconteceu entre os dias 9 e 16 deste mês, três grandes nomes do teatro foram convidados para apreciar os espetáculos apresentados: o diretor, cenógrafo e professor Sávio Araújo; o curador do Festival de Teatro de Recife e do Prêmio Shell, Kill Abreu e Amir Haddad, o mais experiente do grupo. Juntos eles ultrapassaram o objetivo de fazer uma análise estética dos espetáculos e deram aulas sobre teatro.

 Na ocasião em que Amir concedeu entrevista ao VIVER, ele estava reunido com os grupos “O Pessoal do Tarará” (Mossoró) e “Companhia Manacá de Teatro” (Natal). Vestindo jeans e botas, desgastados, blusa regata vermelha, pulseiras de miçanga e uma guia nas cores azul e branca, Amir sentou com liberdade na cadeira e com liberdade falou do autoritarismo escondido nas bainhas da democracia.

Castração em nome da liberdade

Falou do quanto é reduzida a liberdade individual do cidadão em qualquer governo brasileiro e que o Estado é mínimo para auxiliar a cultura, para auxiliar a saúde, a segurança. Mínimo para fazer o trabalho social que as ONGs fazem. Agora ele é máximo no controle da cidadania, ele é total na inibição da liberdade do cidadão. “Ele é totalmente castrador, a ponto de eu ter muita dificuldade de ir para uma praça pública na cidade do Rio de Janeiro para encenar uma peça de teatro”, disse Amir. O Estado sufoca a população em nome da liberdade democrática. “Esta é uma mentira da democracia liberal, da burguesia ocidental”, completou.

Amir coloca que existe uma diferença muito grande entre o teatro que faz e o que a política faz com o teatro. Enquanto as campanhas políticas mentem em nome de uma verdade que ninguém sabe onde está, o seu teatro faz exatamente o oposto: é o teatro de esclarecimento, de iluminação, de clareza. “O teatro, palco das eleições está contaminado. O palco da democracia é um palco comido pela baixeza. Comido pelos métodos vis, obscuros, pela calúnia, pela desmoralização”, falou com  indignação o diretor. Talvez por não conseguir dissociar o teatro da ação Política bem como da realidade, Amir Haddad posicionou-se claramente em defesa da candidata do PT, Dilma Rousseff ao comparar teatro e campanha política e fazer a análise da sociedade brasileira — muito embora a sua fala transcenda o discurso partidário. Para ele, se de um lado é necessário que as campanhas políticas não façam uso do mau teatro, de outro, o bom teatro deve fazer uso da Política. “O teatro, se quiser ser um teatro leal, tem que falar das coisas que vive. Quem faz teatro está fazendo política”.

O trabalho feito por Amir, seja durante debates, palestras, montagens ou junto ao seu grupo, o carioca “Tá na Rua”, é um trabalho essencialmente político, mas não no sentido partidário. No sentido ideológico, do pensamento da construção de um mundo novo.

Apesar de lutar por este mundo novo, Amir é apocalíptico. Acredita que é preciso ver ruir o que foi edificado ideologicamente, politicamente, socialmente. A saída para ele está na construção de um mundo inédito, comunicativo e verdadeiro, algo muito semelhante ao que entende por teatro. “É preciso fazer nascer políticas imediatas de salvação da cidadania, de recuperação e restauração do afeto, da alma popular e essas coisas que só o teatro pode fazer”.

Bom teatro em Natal

O diretor disse que durante o Festival Agosto de Teatro foi possível ver um crescimento muito grande em relação à primeira edição. “Estes espetáculos que estão acontecendo aqui em Natal são iguais a qualquer outro de boa qualidade que acontece no Brasil”, avaliou.

Como o festival ofereceu espetáculos, oficinas e debates, Amir afirmou que o formato teve grande utilidade para os artistas, que passaram a compartilhar as suas experiências. “Os artistas ficam trabalhando sozinhos, isolados. E agora estão trabalhando um ao lado do outro, discutindo, trocando informação. Isso vai fortalecer e muito o movimento teatral da cidade”.

Regionalização é um das mudanças para 2011

A segunda edição do Festival Agosto de Teatro saiu de cartaz neste último sábado e apontou algumas modificações para o ano que vem. Uma delas é a regionalização e a outra a frequência, que pode ter o intervalo estendido, alterações que a diretora do Teatro Alberto Maranhão e idealizadora do festival, Ivonete Albano, encara como sendo positivas. “Tivemos um salto de qualidade muito grande e agora deveremos repensar o formato”, disse.

Repensar o formato não significa alterar a essência do festival. Ele vai continuar sendo um grande momento de interação entre os artistas de todo o país, vai continuar sendo o palco de grandes debates e uma vitrine da produção local.

As apresentações deste segundo festival aconteceram no Teatro Alberto Maranhão, Centro Experimental de Pesquisa e Formação Teatral, Teatro da Cultura Popular Chico Daniel, Sede do Grupo Facetas, Muletas e Outras Histórias, na sede do grupo Artes e Traquinagens e no pátio da Pinacoteca do Estado.

A distribuição dos espetáculos, nos espaços cênicos foi uma decisão tomada a partir das necessidades de cada grupo. Ivonete lembra que “O Pessoal do Tarará”, como tinha um espetáculo experimental preferiu usar um local menor, onde a interação com o público fosse facilitada. Outros como “Meu Nome” e “Flúvio e o Mar” preferiram o Teatro Alberto Maranhão, em função do cenário e da linguagem de forma geral.

Mesmo não sendo um festival regional, esta edição contou com grupos de estados como Paraíba, Maranhão, Pernambuco e São Paulo. O motivo foi o número reduzido de inscrições locais para o festival e consequentemente um número menor de selecionados.

Abrindo a temporada, o público teve a oportunidade de assistir o vencedor do Prêmio Shell, de melhor texto em 2004, o espetáculo “Agreste”, do grupo Razões Inversas (SP). Encerrando o festival, “A Tropa do Balaco Baco”, de Pernambuco apresentou o espetáculo “Para Eros e Thanatos”.

O ponto alto do festival foi a apreciação dos espetáculos, encabeçada pelo diretor, cenógrafo e professor Sávio Araújo; pelo curador do Festival de Teatro de Recife e do Prêmio Shell, Kill Abreu; e pelo encenador e diretor teatral Amir Haddad. A presença de Kill Abreu foi vista com muita euforia, já que ele costuma projetar nacionalmente os grupos de qualidade.

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